Pesquisar canções e/ou artistas

24 novembro 2024

Balanço da bossa e outras bossas


Um dos maiores poetas do século XX (e XXI), Augusto de Campos foi um dos primeiros a identificar "o passo a frente de Caetano Veloso e Gilberto Gil", por exemplo. BALANÇO DA BOSSA E OUTRAS BOSSAS guarda textos e entrevistas gestados no ápice das mudanças radicais sofridas pela canção popular entre 1950 e 1970, sem deixar de fazer o balanço de antecessores como Lupicínio Rodrigues. "Enquanto outros compositores de música popular buscam e rebuscam a letra, Lupicínio ataca de mãos nuas, com todos os clichês da nossa língua, e chega ao insólito pelo repelido, à informação nova pela redundância, deslocada do seu contexto", escreve Augusto. Textos como "Boa palavra sobre a música popular", "Informação e redundância na música popular", "Música popular e vanguarda", são incontornáveis. Lemos que "Para que haja informação estética, deve haver sempre alguma ruptura com o código apriorístico do ouvinte, ou, pelo menos, um alargamento imprevisto do repertório desse código". Mas merece destaque o poema que Augusto escreve em resposta à morte de Torquato Neto. O poema "Como é Torquato" biografa criticamente o autor de "Geleia geral" (com Gilberto Gil), incorporando o ethos de Torquato como método e como linguagem. Augusto espacializa as palavras na página sugerindo um partitura, uma forma de vocalização do texto. Isso é crítica criativa! E BALANÇO DA BOSSA E OUTRAS BOSSAS é crítica em alta potência, feita por um poeta, tradução, ensaísta que defende "Ao invés do nacionalismo tacanho e autocomplacente, um nacionalismo crítico e antropofágico, aberto a todas as nacionalidades deglutidor-redutor das mais novas linguagens da tecnologia moderna", como ele mesmo diagnosticou ser a obra dos tropicalistas. Em certa medida, esses textos de Augusto de Campos "autorizou" a canção enquanto objeto de reflexão.

17 novembro 2024

Mallarmé


Jacques Rancière é um dos críticos contemporâneos que muito admiro. Sua escrita demonstra desejo de contato com quem ler, seja pela generosidade das referências, seja pela sensibilidade amiga, seja pela linguagem cúmplice de quem lê. Por isso, é uma lástima que o seu ensaio MALLARMÉ ainda não tenha tradução para o Brasil. Aqui Rancière desenvolve sua "política da sereia" e apresenta Mallarmé não como um elitista, mas como um poeta intensamente implicado nas tensões políticas de sua época. "Mallarmé no es un autor hermético, es un autor difícil. Difícil es todo autor que dispone las palabras de su pensamiento de tal manera que ellas rompen el círculo ordinario de lo banal y lo oculto, que constituye lo que Mallarmé llama 'el reporte universal'. En este sentido, de diferentes formas, todo autor interesante es difícil", lemos na tradução em língua castelhana de Cristóbal Durán, Verónica González e Carolina Matamala. Para o autor, Mallarmé responde à crise da República Francesa ao atribuir à poesia uma função cívica singular e incontornável. A política não aparece como tema explícito, mas como operação estética; exigindo a mudança de quem lê, a poesia cria novas formas de visibilidade, percepção e partilha do sensível - temas caro a Rancière, autor interessado na "experiencia radical del lenguaje y del pensamiento". Assim, a propagada "crise de/do verso" reverbera a "crise ideológica" e a "crise social" do contexto histórico e "el poema también debe estrecharse o alargarse para desempeñar en esa complejidad del tempo el rol que le corresponde". Para Mallarmé, o problema político é um problema literário, e vice-versa. Urge a tradução brasileira de MALLARMÉ, livro que, alinhado com a visão de Marcel Broodthaers, sugere que Mallarmé rompeu com a representação clássica, transformando a página em uma coreografia de ideias, partitura de palavras-sons-e-silêncios.

10 novembro 2024

Pequena história da música popular


O conservadorismo ranzinza de José Ramos Tinhorão, calcado em afirmações e defesas de certas matrizes brasileiras ao longo da vida, colocam o jornalista, crítico, ensaísta, pesquisador e historiador num lugar sempre incômodo no debate contemporâneo em torno da canção popular brasileira. Mas, como todo bom pesquisador, Tinhorão era arquivista e sua coleção guarda joias impensáveis, agora sob a guarda do Instituto Moreira Salles. Fato é que, defensor de um Brasil não contaminado pela indústria cultural, Tinhorão viveu mudanças profundas na lírica cancional brasileira e conviveu com muitos de seus atores. PEQUENA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR dá conta de registrar essa jornada. O livro começa afirmando que "Por oposição è música folclórica (de autor desconhecido, transmitida oralmente de geração a geração), a música popular (composta por autores conhecidos e divulgada por meios gráficos, como as partituras, ou através da gravação de discos, fitas, filmes ou vídeo-teipes) constitui uma criação contemporânea do aparecimento de cidades com um certo grau de diversidade social". E isso diz muito sobre o modo como Tinhorão interpreta a modinha, o lundu, o maxixe, o choro, o samba, o frevo, o baião, a bossa nova, a canção dos festivais, o tropicalismo, etc. Sua leitura sociológica e avessa aos experimentalismos artísticos se atenta aos cancionistas e ao mercado 'alienante', porque despolitizado. Tinhorão destaca, por exemplo, "o espírito de arrivismo de provincianos migrados para o sul dispostos à realização pessoal e ao sucesso" dos baianos tropicalistas. Ao seu modo, Tinhorão aponta como os miasmas coloniais do Brasil reverberam na canção popular mediatizada. Eu diria que em hoje em dia, com tantos desdobramentos do complexo Brasil que a Tropicália engendrou, PEQUENA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR é uma leitura desafiadora, mas importante.

03 novembro 2024

Crônicas e outros escritos de Tarsila do Amaral


O livro CRÔNICAS E OUTROS ESCRITOS DE TARSILA DO AMARAL é uma leitura de intenso prazer. Seja porque entramos em contato com uma Tarsila pouco conhecida, a escritora, seja porque acessamos o 'tempo' da artista plástica mais importante de sua época, orientadora do século XX. Também em textos, Tarsila revela um rigor crítico invejável. Publicados em jornais de São Paulo e Rio de Janeiro entre 1936 e 1956, os textos tratam e versam (sim, há poemas) sobre os mais diversos temas. Com pesquisa e organização de Laura Taddei Brandini o volume lança luz, portanto, ao pensamento de Tarsila. "A linguagem, como expressão genérica para a manifestação dos fenômenos que se passam no mundo interior, não constitui privilégio do homem. (...) O homem (...) possui a expressão máxima do pensamento - a linguagem oral, a voz articulada, a palavra", lemos em texto de 1937. A amizade com o autor de "Macunaíma" é registrada num elogio rasgado: "Em todos os tempos de sua vida literária, poucos homens de letras terá possuído o Brasil tão completos quanto Mário de Andrade" (1941). Comentando a famosa conferência de 1942, em que Mário revisa os ideais e desdobramentos da Semana-de-1922, Tarsila tenta acalmar o amigo atormentado, escrevendo que "Tudo quanto artistas e literatos produziram naquele tempo poderia ter sido melhor, mas a verdade é que não estavam preparados para encarar a vida com o espírito de hoje. A sensibilidade, o caráter e a inteligência também amadurecem, não se podendo nesse caso abstrair o fator tempo". A autora entusiasmada com a leitura de "Odisseia" é uma delícia: "Que ingenuidade encantadora, que enredo fantástico! Minha vontade, ao sair de casa, era voltar logo e correr para a Ítaca cercada de ondas; queria ouvir os discursos da sempre jovem e linda Penélope ou do seu ilustre e prudente filho, Telêmaco, ambos derramando abundantes lágrimas pelo divino Ulisses desaparecido". CRÔNICAS E OUTROS ESCRITOS DE TARSILA DO AMARAL é livro para ser lido aos poucos, distraidamente, eu diria, para, surpreendentemente, reconhecer Tarsila.