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17 novembro 2024

Mallarmé


Jacques Rancière é um dos críticos contemporâneos que muito admiro. Sua escrita demonstra desejo de contato com quem ler, seja pela generosidade das referências, seja pela sensibilidade amiga, seja pela linguagem cúmplice de quem lê. Por isso, é uma lástima que o seu ensaio MALLARMÉ ainda não tenha tradução para o Brasil. Aqui Rancière desenvolve sua "política da sereia" e apresenta Mallarmé não como um elitista, mas como um poeta intensamente implicado nas tensões políticas de sua época. "Mallarmé no es un autor hermético, es un autor difícil. Difícil es todo autor que dispone las palabras de su pensamiento de tal manera que ellas rompen el círculo ordinario de lo banal y lo oculto, que constituye lo que Mallarmé llama 'el reporte universal'. En este sentido, de diferentes formas, todo autor interesante es difícil", lemos na tradução em língua castelhana de Cristóbal Durán, Verónica González e Carolina Matamala. Para o autor, Mallarmé responde à crise da República Francesa ao atribuir à poesia uma função cívica singular e incontornável. A política não aparece como tema explícito, mas como operação estética; exigindo a mudança de quem lê, a poesia cria novas formas de visibilidade, percepção e partilha do sensível - temas caro a Rancière, autor interessado na "experiencia radical del lenguaje y del pensamiento". Assim, a propagada "crise de/do verso" reverbera a "crise ideológica" e a "crise social" do contexto histórico e "el poema también debe estrecharse o alargarse para desempeñar en esa complejidad del tempo el rol que le corresponde". Para Mallarmé, o problema político é um problema literário, e vice-versa. Urge a tradução brasileira de MALLARMÉ, livro que, alinhado com a visão de Marcel Broodthaers, sugere que Mallarmé rompeu com a representação clássica, transformando a página em uma coreografia de ideias, partitura de palavras-sons-e-silêncios.

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