Não é exagero dizer que é impossível estudar as letras coloniais do Brasil sem passar por um ou outro texto da professora Ana Lúcia Machado de Oliveira. “Breves anotações sobre a musa praguejadora da ‘época Gregório de Matos’”, por exemplo, é texto que indico como introdutório e imprescindível sobre o sátiro baiano. (Não sai da bibliografia de meus cursos sobre poesia). Assim como “À roda da eternidade: deslocamentos figurais do Uterus Mariae na sermonística vieiriana”, sobre o “Sermão de Nossa Senhora do Ó”, do padre Antônio Vieira. Os textos da professora equilibram erudição e pedagogia (o desejo de comunicar, partilhar, característico de quem é mestre – não à toa, as salas de aula de Ana Lúcia estão sempre lotadas). Portanto, é de se louvar que, boa parte dos textos que até agora só eram encontrados espalhados por revistas acadêmicas, finalmente, apareça reunida no livro À RODA DE ANTÔNIO VIEIRA. Sem subestimar quem lê, Ana Oliveira comunica temas, conceitos e práticas complexas, principalmente, sobre a instituição retórica. Mas não apenas, também, sobre o Brasil, ou seja, sobre a constituição das letras no Brasil. Por exemplo, como explicar o paradoxo sustentado por Vieira em que “o corpo finito da Virgem pode conter em si o espaço inteiro do mistério e do infinito”? Ana explica, recorrendo ao que há de mais sofisticado na crítica e acessando “uma linguagem cujas sonoridades exprimiam a ideia das ações e das coisas”. “Ao longo da argumentação vieiriana, o O [de Nossa Senhora do Ó] se desdobra em uma floração de figuras circulares, definindo-se sucessivamente como círculo, interjeição, ômega e ômicron, roda, cifra ou número, pronome, partícula apostrofante, ventre fecundado”, escreve a professora, que aponta a estratégia do padre no “desdobramento de imagens circulares e na proliferação do sentido”. Cito apenas uma das várias miradas críticas desenvolvidas nos textos que compõem À RODA DE ANTÔNIO VIEIRA, livro que toda biblioteca de quem se interessa por literatura no Brasil merece e precisa.
Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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28 setembro 2025
21 setembro 2025
Cinco voltas na Bahia e um beijo para Caetano Veloso
"Continuo a achar que não há ateus no Brasil, mas eu própria já não serei a ateia que era quando escrevi essa crônica. Não por causa de deus, mas por causa do Brasil que vivi", lemos em CINCO VOLTAS NA BAHIA E UM BEIJO PARA CAETANO VELOSO. Gosto de livros de brasilianistas, ou seja, de estrangeiros leitores da brasilidade. Em geral, quando não carregado de estereótipos românticos, esses textos revelam significantes que nós, por estarmos imersos na questão, não percebemos com a criticidade necessária, promotora de debate. Em CINCO VOLTAS NA BAHIA E UM BEIJO PARA CAETANO VELOSO, Alexandra Lucas Coelho se arrisca ao tentar fazer do olhar-de-fora um potencializador anti-exótico das marcas de brasilidade. A prosa envolvente guia quem lê por uma Bahia que reverbera uma reserva de belezas intocadas. Para tanto, o cancioneiro de Caetano Veloso é fundamental. Se, como ele declara em "Trilhos urbanos", seu trabalho é traduzir sua terra natal, Santo Amaro, com ouvido aberto e atento, Alexandra Lucas Coelho retraduz esse gesto. "A Bahia é o primeiro lugar entre Portugal e Brasil. Inicia a nossa cronologia e a nossa dificuldade. O que nos ligou será o que nos separa, está no meio de nós, como o Atlântico e a linha do Equador. Mas também em muitos de nós como biografia, letras e músicas, dentes e músculos", lemos. Para a autora, "A retórica da 'lusofonia' não tem sentido para mim. Lusofonia não é palavra para designar um conjunto de países, porque o prefixo luso diz respeito a Portugal e não à língua, Portugal não é dono da língua e é uma pequena parte dos seus falantes". É interessante também o modo como a autora lê letras de canção, com muita informação historiográfica - "Triste Bahia", por exemplo, o soneto atribuído a Gregório de Matos e devorado e cantado pelo também baiano Caetano.
14 setembro 2025
A trama dos tambores
É lugar comum dizer que o Brasil é complexo, sua cultura é um caldo resultado de múltiplos e variados ingredientes, e que isso se reflete (ou tem origem?) nas sonoridades aqui inventadas e experimentadas. Difícil é enfrentar sem hierarquia elitista tamanha complexidade, buscando entender as fibras que compõem a trama sonora que nos alimenta, que engendra a nossa brasilidade. Goli Guerreiro enfrenta a empreitada crítica no livro A TRAMA DOS TAMBORES, ao fazer uma imersão na potência da música afro-pop de Salvador-BA. Fartamente ilustrado com imagens que ajudam a apresentar os significantes da trama. Destacam-se o mercado fonográfico e a indústria cultural, enquanto agentes interessados na invenção de um ritmo vendável, numa canção de consumo empenhada em fazer dançar. Goli Guerreiro tensiona estética, ancestralidade, agentes culturais e produto numa leitura que aprofunda o abismo entre quem cria música na diáspora africana que a Bahia é e quem lucra. "A diversidade rítmica do carnaval de Salvador aparece nitidamente na composição do repertório das bandas locais. Frevo, afro-pop, samba-reggae, axé-music, axe-melody, reggae, pagode, samba atualizam o processo de criação de um repertório comum que veio a reboque da mestiçagem musical", escreve Goli Guerreiro no importante A TRAMA DOS TAMBORES.
07 setembro 2025
Não quero prosa
Os anos de 1960/70 legaram poetas que, seguindo o caminho aberto por Manuel Bandeira e, principalmente, Vinicius de Moraes, transitaram entre o poema feito para a página do livro e o poema (chamado letra) feito para a voz cantante com grande desenvoltura ética e estética, expandindo o sentido da brasilidade. Poeta, professor, crítico, letrista, Antonio Carlos de Brito, o Cacaso, atravessou e se deixou atravessar por essas forças e formas poéticas de sua época. São muitas as letras gravadas por grandes nomes da canção brasileira; foram muitas as polêmicas estéticas enfrentadas. Graças ao trabalho da professora Vilma Arêas temos em NÃO QUERO PROSA um bom apanhado dos textos críticos de Cacaso. Destaco o trecho de um em que ele comenta as diferenças e semelhanças entre poema e letra: "[...] o suporte e justificativa da letra é a canção, que anima a palavra de uma dimensão nova, sublinhando e redimensionando o seu sentido por meio dos intervalos melódicos, dos ritmos, harmonias, timbres. E por meio sobretudo do canto, da presença da voz humana, que dá às palavras de uma letra um suporte de generalidade baseado na emoção, na inflexão psicológica viva, na recriação do momento. A palavra cantada só faz sentido pleno enquanto cantada, no momento em que está sendo cantada. É que a unidade de sentido de uma letra está no canto, não no 'texto'. Ou, por outra: no “texto” transfigurado e reinventado no e pelo canto. Vê-se que a distinção entre a palavra impressa – o poema – e a palavra cantada – a letra – não é de grau, mas de gênero e qualidade. É aquele abismo de que fala Manuel Bandeira, que resumiu também a dimensão da sua profundidade: “Nunca a palavra cantou por si, e só com a música pode ela cantar verdadeiramente".
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