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15 fevereiro 2026

Desbunde e felicidade


"DESBUNDE E FELICIDADE propõe uma genealogia das práticas literárias e culturais da Argentina de hoje, cujas raízes encontram-se na época do 'desbunde': nos anos 1970 e 1980". A apresentação da orelha dá conta de dizer bem o que o livro de Cecilia Palmeiro entrega. Com rigor e risco, como pede o tema, a autora revela que a américa é marica. Já no primeiro capítulo "Loucas, milicos e fuzis" experimentamos uma imersão profunda na década de 1970, com a presença de Néstor Perlongher e a Frente de Liberación Homosexual como note do debate sobre a função política do intelectual, numa ditadura militar. No capítulo dois, sobre o Brasil, a "poesia marginal" e Glauco Mattoso ganham merecido destaque. E o capítulo três é uma pletora crítica preciosa de corpos e vozes dissidentes. Com tradução de Paloma Vidal, lemos que "a subversão começaria pelo próprio corpo , primeiro terreno de inscrição ideológica e de regulação social. Nesse momento heroico das lutas identitárias, as práticas sexuais não tradicionais proporiam um espaço de experimentação de transformação social". Assim, o desbunde "implicava formas cotidianas e pessoais de resistência à ditadura, mais anarquistas do que marxistas". Cecilia deixa evidente que desbunde não é alienação, fuga, entreguismo. Ao contrário, desbundar é manter-se insubmisso, selvagem, indomesticado, em devir. E coube a intelectuais e artistas criar formas revolucionárias. Citado no livro, para Perlongher, "Devir não é se transformar em outro, mas entrar em aliança (aberrante), em contágio, em mistura com o diferente". DESBUNDE E FELICIDADE pesquisa e ensaia sobre a corporalidade dessa não fetichização da diferença, desse "levar ao extremo a contorção da linguagem para 'degenerar' em outra".

08 fevereiro 2026

Juventude eterna


"É preciso, na medida do possível, nos colocarmos não perante os poetas, mas em meio aos poetas, e nos esforçarmos para experimentar o mito como eles fizeram e fazem". A mirada de Eduardo Sterzi encapsula o livro JUVENTUDE ETERNA, um intenso elogio à poesia, ao poema e ao poeta. Sterzi convida o leitor ao contágio com o mundo e a vida que os poetas mitologizam no poema, essa "tradução intersemiótica do que diz, sem dizer". Para tanto, o autor analisa o "compromisso com a experiência poética" presente na poesia de, por exemplo, Paulo Leminski: "aos deuses mais cruéis / juventude eterna // ele nos dão de beber / na mesma taça / o vinho, o sangue e o esperma". Os versos de Leminski servem de mote para o ensaio de Sterzi, em que ainda aparecem Torquato Neto, Waly Salomão e outros poetas da experiência contracultural e de quando "a poesia cantada passa a ser vista como tão importante quanto aquela para ser lida". JUVENTUDE ETERNA ainda presta justa revisão e reintrodução da obra e do pensamento de Décio Pignatari. E assim Sterzi alerta para o fato de que "Não é só a brutalidade capitalista que ameaça a vida e a poesia; também a caretice do discurso político pode ser fatal".

01 fevereiro 2026

Olha-me e narra-me


Gosto de contar essa história: eu tinha acabado de entregar a tese à banca, quando chegou à minha mão o livro "Vozes plurais", de Adriana Cavarero. A sensação foi de que o meu trabalho (pesquisa e escrita) de quatro anos estava radicalmente muito melhor elaborado ali e de que a tese teria outro encaminhamento, caso essa leitura tivesse sido feita antes. Senti um misto de frustração e júbilo, pois tinha encontrado uma interlocutora inesperada sobre aquilo que eu estava querendo defender, ou seja, a "revocalização do logos", no meu caso, via interpretação do cancioneiro nacional, no caso de Cavarero, via revisão crítica da filosofia ocidental. Desde então leio tudo o que é traduzido de Adriana. Se em "Vozes plurais", a autora está interessada em articular uma filosofia da expressão vocal, em OLHA-ME E NARRA-ME, tradução de Milena Vargas, o foco é a filosofia da narração. O livro tem iluminações interpretativas a cada página. "Desde que a filosofia decidiu se chamar assim e definir o seu estatuto disciplinar com a obra de Platão, ela declarou guerra à arte poética e se diferenciou dela orgulhosamente. (...) Em resumo, a passagem epocal da oralidade à escrita, de Homero a Platão, é sobretudo uma passagem da narrativa em verso, que encanta o auditório evocando imagens no fluxo sedutor e irrefletido da história, ao discurso filosófico, que, ao contrário, procede com método para definir e fixar os seus termos", lemos no trecho em que a filósofa interpreta o mito de Orfeu. Cavarero está interessada no 'quem', mais do que no 'o que' é o sujeito. E "Desde o caso do infeliz Édipo, sabemos que a identidade, inscrita por esse 'quem' sobre o qual se pergunta, é o verdadeiro motor de cada história de vida que aguarda a sua narração". Tensionando mitos antigos e releituras desses mitos, principalmente na escrita de mulheres, dialogando criticamente com Hannah Arendt, Cavarero investiga nosso desejo de narração, o si, a unicidade irrepetível que cada sujeito é, mas que se perde numa sociedade em que "são as necessidades e as forças que se expõem, relacionando-se nessa troca como coisas infinitamente contratáveis, replicáveis, substituíveis". Esse voltar-se para os detalhes, em detrimento do universal abstrato, essa ênfase no ouvido, na escuta, na relação entre narrador e narrado muito me interessa.