Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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23 fevereiro 2025
A transparência da carne
Verbo é a matéria prima da poesia de Carlos Eduardo Ferreira de Oliveira. Do primeiro – “E o Verbo fez-se carne, luz em nós” – ao derradeiro verso – “à irrelevância”, A A TRANSPARÊNCIA DA CARNE é livro que, a princípio, exigiria de quem lê a leitura prévia de boa parte das obras dos poetas do século XX. No entanto, a maturação das referências é tão bem realizada que “de tanto ouvir estrelas poderosas, / sigo o sonho das almas dolorosas”, lê-se no terceiro poema, indicando o trabalho de devoração poética e teórica que o livro elabora. Os contrastes e as sobreposições de luz e sombra, som e silêncio (“quase jazz”), rocha e nuvens, cortes bruscos e preciosos enjambements (“silentes / sussurros, orações, gemidos”), aceleração aliterante e desaceleração assonante são elementos fundamentais do jogo lúdico da poesia de Carlos Eduardo. Nesse jogo que eternamente retorna ao éden, ao princípio do poetar, do uso primal do Verbo, a palavra é a “serpente” – “um prisma cuja cor ilude, abisma”. E o Verbo se revela diamante de orvalho, de vento, ardido pelo poeta. Forma é conteúdo, som é sentido e Carlos Eduardo faz de A TRANSPARÊNCIA DA CARNE um lugar em que a palavra se pensa, repensa, pende, enquanto carnação do poético.
16 fevereiro 2025
Uma exposição
Enquanto lia o livro UMA EXPOSIÇÃO, de Ieda Magri , expressões como "vida nua", "coração sangrando", "fratura exposta" acompanhavam meu contato com a narradora que tem o mesmo nome da autora. Paralelo a essas expressões, os versos de "Uma canção desnaturada", composta por Chico Buarque para a "Ópera do malandro", adensavam a exposição do afeto, da afetação da personagem-narradora. Se na canção a mãe diz "Pelo cordão perdido / Te recolher pra sempre / À escuridão do ventre, curuminha / De onde não deverias / Nunca ter saído", no livro reconheço nos gestos da mãe o desejo de tornar a menina uma mulher, pronta para a vida e sua dureza. É nesse reconhecimento que, na minha leitura, a menina se des-recalca na "mulher urbana". Permito-me a essas aproximações autorizado pelo próprio texto de Ieda (a narradora), composto também por referências teóricas e estéticas da autora "impregnada do ritmo e das sensibilidades da gente das cidades". O trânsito entre vida e registro da vida está num lugar que, no livro, tem raiz na avó. (Quem vem de fora da cidade sabe). "Lembro da alegria louca presente ainda na lembrança de uma véspera de natal na beira do rio que precisamos sempre atravessar antes de chegar e que ainda enche alguma vez no verão deixando todos separados do resto do mundo", lemos. O livro de Ieda Magri reforça a pergunta que tenho feito, como professor de literatura: o que é ser escritora num contexto hostil às escritoras e à escrita? Autora e narradora, em UMA EXPOSIÇÃO Ieda apresenta ao leitor os modos de extrair o coração daquilo que move essa questão.
09 fevereiro 2025
Canção popular no Brasil
A saudosa colega professora Santuza Cambraia Naves deixou para nós, amantes e pesquisadores de canção popular, textos memoráveis. No livro CANÇÃO POPULAR NO BRASIL, Santuza desenvolveu o conceito de "canção crítica", unindo conhecimentos da Etnomusicologia e da Teoria da Canção, com o objetivo de apresentar "o compositor como intelectual da cultura". Os argumentos e os exemplos demonstram o admirável conhecimento da pesquisadora. Com recorte temporal a partir do final dos anos 50 e ao longo dos anos 60, "época em que a canção popular tornou-se o lócus por excelência dos debates estéticos e culturais, suplantando o teatro, o cinema e as artes plásticas", Santuza observa que "o compositor passou a atuar como crítico no próprio processo de composição, (...) fazendo uso da metalinguagem, da intertextualidade e de outros procedimentos que remetem a diversas formas de citação, como a paródia e o pastiche. E ao estender a atitude crítica para além dos aspectos formais da canção, o compositor popular tornou-se um pensador da cultura". Santuza investiga a íntima relação entre cultura letrada e cultura oral, marca na cultura brasileira. Para ela, por exemplo, "é impossível entender a canção tropicalista somente a partir dos seus elementos poético-musicais, (...), a canção tropicalista só se realiza completamente não apenas através da voz (e de outros transmissores musicais), como também do corpo, já que os tropicalistas assumem radicalmente o palco através de diversas máscaras e coreografias", lemos, entre outras miradas importantes em CANÇÃO POPULAR NO BRASIL.
02 fevereiro 2025
O outro pé da sereia
02 de fevereiro. Dia de Iemanjá. Um bom exemplo literário de permanência da resistência dessa orixá vem do livro O OUTRO PÉ DA SEREIA, de Mia Couto, quando este trata da perturbação que a estátua da virgem Maria causa entre os escravos. Eles associam a imagem à senhora das águas – Kianda. É quando Dia critica a submissão de Nimi Nsundi perante a Virgem portuguesa que este revela: "Os portugueses dizem que não temos alma. Temos, eles é que não veem. A nossa luz, a luz dos negros é para eles um lugar escuro. Por isso, eles têm medo. Têm medo que a nossa alma seja um vento e que espalhamos cores da terra e cheiros do pecado. É essa a razão porque D. Gonçalo da Silveira quer embranquecer a minha alma. Não é a nossa raça que os atrapalha: é a cor da nossa alma que eles não querem enxergar. (...) aceitei lavar-me dos meus pecados. Os portugueses chamam a isso de baptismo. Eu digo que estou entrando na casa de Kianda. A sereia, deusa das águas. É essa deusa que me escuta quando me ajoelho perante o altar da Virgem", lemos. Aqui se revela a rebelião pelo jogo, o usar (apropriar-se) dos signos do outro, antropofagicamente, dentro do conflito cultural. O sincretismo, mais do que submissão ou negação, ressalta a astuta compreensão teológica, cultural e social. O sincretismo é instrumento de afirmação identitária. “De todas as vezes que rezei não foi por devoção. Foi para me lembrar. Porque só rezando me chegavam as lembranças de quem fui” (idem). E assim percebemos que os mitemas das sereias não chegam para nós apenas vindos da mitologia grega, onde habitavam os rochedos entre a ilha de Capri e a costa da Itália, filhas do rio Achelous e da musa Terpsícore. A semiologia sirênica precisa ser entendida a partir do complexo semiótico que a constitui hoje. Europa, África e Iara nos fornecem os cantos do mundo ancestral a ser ouvido.
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