Sem dúvidas, UM DEFEITO DE COR é livro que inaugura as letras do século XXI. Lido comparativamente a "Macunaíma", inaugurador do século passado, o livro de Ana Maria Gonçalves autorrepresenta (do eu) muito daquilo que no livro de Mário de Andrade ainda é representação (do outro). Embaralhando arquivo e ficção, ou ficcionalizando arquivos (de história, sociologia, antropologia), o livro narrado em primeira pessoa apresenta a jornada trágica e insubmissa de Kehinde - personagem tão complexa quanto a trama de sua existência. Fugas e imersões fazem Kehinde concentrar em si a elocução de muitas mulheres negras mães, que tiveram seus filhos sequestrados pelo estado de situações que o Brasil lhes impõe. O título do livro é cirúrgico e aparece em trechos como "Com a influência do padre Notório, ela logo conseguiria para ele uma dispensa do defeito de cor, que não permitia que os pretos, pardos e mulatos exercessem qualquer cargo importante na religião, no governo ou na política"; ou "Eu achava que era só no Brasil que os pretos tinham que pedir dispensa do defeito de cor para serem padres, mas vi que não, que em África também era assim", diz Kehinde quando de seu retorno ao continente de onde foi sequestrada. A cultura de Angola aparece na festa da Kianda, "sereia encantada das terras dos angolas" - "Para os angolas, a Kianda é o mesmo que a Iemanjá para os nagôs, e eles também têm uma sereia de rios e lagos chamada Kituta, bem parecida com a minha Oxum", dita Kehinde, dando conta da rede de significantes trazidos pelos escravizados para o Brasil. É tocante, e nisso está o engenho de Ana Maria Gonçalves, ir percebendo aos poucos que o livro é ditado oralmente pela personagem já idosa, e que Kehinde nunca perdeu o desejo de reencontro com o filho. UM DEFEITO DE COR é uma carta de amor, uma carta denúncia, uma carta que repara e expande nossa consciência nacional.
Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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01 dezembro 2024
Um defeito de cor
Sem dúvidas, UM DEFEITO DE COR é livro que inaugura as letras do século XXI. Lido comparativamente a "Macunaíma", inaugurador do século passado, o livro de Ana Maria Gonçalves autorrepresenta (do eu) muito daquilo que no livro de Mário de Andrade ainda é representação (do outro). Embaralhando arquivo e ficção, ou ficcionalizando arquivos (de história, sociologia, antropologia), o livro narrado em primeira pessoa apresenta a jornada trágica e insubmissa de Kehinde - personagem tão complexa quanto a trama de sua existência. Fugas e imersões fazem Kehinde concentrar em si a elocução de muitas mulheres negras mães, que tiveram seus filhos sequestrados pelo estado de situações que o Brasil lhes impõe. O título do livro é cirúrgico e aparece em trechos como "Com a influência do padre Notório, ela logo conseguiria para ele uma dispensa do defeito de cor, que não permitia que os pretos, pardos e mulatos exercessem qualquer cargo importante na religião, no governo ou na política"; ou "Eu achava que era só no Brasil que os pretos tinham que pedir dispensa do defeito de cor para serem padres, mas vi que não, que em África também era assim", diz Kehinde quando de seu retorno ao continente de onde foi sequestrada. A cultura de Angola aparece na festa da Kianda, "sereia encantada das terras dos angolas" - "Para os angolas, a Kianda é o mesmo que a Iemanjá para os nagôs, e eles também têm uma sereia de rios e lagos chamada Kituta, bem parecida com a minha Oxum", dita Kehinde, dando conta da rede de significantes trazidos pelos escravizados para o Brasil. É tocante, e nisso está o engenho de Ana Maria Gonçalves, ir percebendo aos poucos que o livro é ditado oralmente pela personagem já idosa, e que Kehinde nunca perdeu o desejo de reencontro com o filho. UM DEFEITO DE COR é uma carta de amor, uma carta denúncia, uma carta que repara e expande nossa consciência nacional.
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