Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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12 abril 2026
Antologia mamaluca
Para quem, como eu, entende que em arte forma é conteúdo, isto é, o modo de dizer já indica o dito, os poemas verbo-visuais de Sebastião Nunes é uma fonte incrível de saber e de pesquisa. Sempre volto a poemas como "Nova Tropicália" e seu "cus" rimado com "tatus", "caititus", "pirarucus", "pacus"; e à crítica ácida dos versos "nessa infinita suruba capitalista / quem pode fode e quem não pode / dança", com esse "dança" caído do verso anterior, figurando o "dançar" de quem não pode; e à presença de um "bilberto bil" que teria dito "O bio de baneiro bontinua bindo" - aliás, são muitas as referências da canção popular na obra do poeta (vide "Coração subalterno", que parodia e pastichiza "Coração materno", vide os poemas "Canção para Dolores Duran" e "Bolero para Núbia Lafayette"); e ao "Poeta de esquerda / inclinado para a direita"; e à "Revolução tropicão", em que "Pendurado na cruz Jesus Cristo cochila"; e ao "Intelectual brasileiro típico, / com numeroso séquito de / angústias metafísicas, / terrores éticos, dúvidas estéticas / e dificuldades práticas". E nem falo das epígrafes reveladoras do quão leitor e ouvinte Nunes é; e nem falo do tratamento gráfico - é preciso ver para ler, por exemplo, "Procissão da Chuva" e sua contundência política. Dispersa e de acesso limitado a iniciados, a "estética da provocaçam" de Sebastião Nunes ganha em ANTOLOGIA MAMALUCA uma justa reunião. "'Sujar' os versos e as imagens é um modo de provocar, incitar, violentar o leitor, ao expô-lo a palavras 'proibidas' pela norma culta ou pelas convenções literárias da classe média - o seu alvo permanente", escreve o organizador Fabrício Marques. "Em sua versão original, o dois volumes da Antologia Mamaluca reúnem dez livros de Nunes (...). Esta Antologia mamaluca de agora é uma seleção do melhor dos dois volumes do final dos anos 1980", informa Fabrício. A mistura de e o desenho da linguagem e o diálogo com a cultura de massa mostram a potência ética de Sebastião Nunes, poeta que fissura o sistema literário, ao implodir a linguagem e os jogos de poder que sustentam esse sistema.
05 abril 2026
Orides Fontela Poesia Completa
Tenho conversado sobre isso com a pesquisadora Carla Oliveira (UERJ). Sempre me interessa o modo como a mitológica Penélope é relida por poetas modernas e contemporâneas. E são muitas as reconfigurações da mulher que tecia e destecia a trama da própria história, como lemos na Odisseia de Homero. No poema "Penélope", de Orides Fontela, por exemplo, ela aparece assim: "O que faço des / faço / o que vivo des / vivo / o que amo des / amo // (meu "sim" traz o "não" / no seio)". A poeta usa o enjambement, a técnica de fiar versos, para figuratizar o gesto da rainha de Ítaca, insubmissa às investidas dos pretendentes ao lugar de Ulisses. Em poesia, o ritmo é tudo. Orides quebra o fluxo visual e oral da leitura e cria ecos falseados (faço-faço, vivo-vivo, amo-amo) e anáforas precisas que, cortadas pelo prefixo "des", fazem o tecido textual avançar e recuar. Com o poema escrito na primeira pessoa do singular, a voz poemática se coloca no ponto-cruz do "sim" que traz o "não". Essa posição engenha a tensão de Penélope, aquela que adiava o "sim". Desde a visão do poema na página é possível perceber que a poeta cria uma partitura para a enunciação vocal. Daí a sua beleza, ao instaurar o "talvez", entre o "sim" e o "não". Um "talvez" projetado no prefixo "des", que deveria apenas servir para a negativa (desfaço, desvivo, desamo), mas que no resultado não afirma e não nega; afinal, com o verso quebrado, com o enjambement no ponto-cruz, interdita qualquer decisão definitiva. O "seio" dessa voz é movido pela incerteza - esperar? não esperar?. Daí o "sim" (vivo) trazer o "não" (des / vivo). Retomei a leitura desse poema desde que a FLIP anunciou Orides Fontela como a homenageada de 2026. Esse e tantos outros engenhos poéticos da poeta estão no livro POESIA COMPLETA. Urge reler Orides, "uma poeta antilírica, ao menos no sentido em que, se em sua poesia o eu lírico ainda tem vez, no entanto tem pouca voz, trocado pelo protagonismo da palavra", como anota Luis Dolhnikoff na Apresentação.
29 março 2026
Inesquecíveis
"Onde estavam as mulheres?", é o que nos perguntamos quando estamos em sala de aula estabelecendo alguma historiografia da poesia no Brasil. "Estavam escrevendo poemas", é o que nos respondem Ana Rüsche e Lubi Prates. INESQUECÍVEIS é um livro que percorre quatro séculos construindo uma história constelar que vai de Ângela do Amaral Rangel, nascida em 1725, até as poetas contemporâneas. Com uma preciosa seleção de poemas, o livro é divido em capítulos que reúnem "poetas nascidas no Brasil Colônia", "poetas nascidas no Brasil Império", "poeta nascidas no Brasil República até 1940" e "poetas nascidas de 1940 a 1970". Cada conjunto de poemas é precedido de um texto que comenta contexto, poética e versos. Fica evidente a implicação política dos poemas e das poetas, com os temas do aconselhamento e da liberdade presentes enquanto força ética. "Se as poetas nascidas durante o período do Brasil Colônia foram responsáveis por ajudarem na constituição de uma ideia de nação independente e de uma estética mais próxima à dicção popular, considerando as influências árcades e a posterior primazia do romântico, as poetas nascidas no período imperial ampliaram os caminhos criativos possíveis do fazer poético, apresentando formas literárias diversificadas", lemos. E "Se no século XIX encontramos muitas poetas que dedicaram a vida ao ensino de mulheres, no século XX vamos encontrar as que dedicaram a vida à conquista de direitos e também ao fortalecimento da obra de outras mulheres", lemos no capítulo seguinte. Por sua vez, as poetas nascidas depois de 1940, marcadas pelo autoritarismo da ditadura, "vão inventar muitas brechas para colocar seus poemas e ideias no mundo, cruzando as fronteiras das décadas sombrias até amanhecerem conosco no século XXI, quando a produção poética escrita por mulheres se tornará abundante". Destaca-se em INESQUECÍVEIS a importância que Ana Rüsche e Lubi Prates dão à pesquisa, notadamente, as desenvolvidas nos programas de pós-graduação das universidades (na maioria) públicas. São muitos os artigos e as teses consultados e citados. Como toda revisão antológica, há ausências. Mas Ana Rüsche e Lubi Prates deixam o convite: "É provável, ao chegar a esse capítulo [final], que algum nome amado em sua biblioteca ou conhecido em seu sarau não tenha aparecido nestas páginas. Se isso aconteceu, por favor, celebre esse nome. Inesquecíveis são todas as mulheres que produzem poesia e fazem nosso coração vibrar".
22 março 2026
Pensando nos trópicos
Dos muitos textos do professor Luiz Costa Lima a que sempre recorro, "Oswald, poeta" se destaca. Guardado no livro PENSANDO NOS TRÓPICOS, o texto cuja primeira versão veio a público em 1968, ou seja, imediatamente após o auge da retomada do poeta pelo cinema de Glauber Rocha, pelo Teatro Oficina, pela canção tropicalista e pela crítica acadêmica, parte da premissa de que "O entusiasmo provocado por Oswald antes terá flexibilizado o cotidiano de uma camada da classe média do que se transfundido em obras ficcionais ou analíticas. E suas obras hoje voltam a ser difíceis". Costa Lima registra a força que o engenho da poesia de Blaise Cendrars exerce sobre Oswald. Mas "Se tanto em Cendrars como em Oswald são evidentes a busca de um tom impessoalizado, a tentativa de aclimatar o corte cinematográfico e o uso do coloquial, não é menos flagrante que a poesia de Oswald assumia ainda outro rumo", lemos. Para Costa Lima, "A introdução do coloquial, portanto, não foi apenas o acréscimo de um recurso técnico; paralela a atenção prestada ao moderno, ao prosaico, ao acidental e à cena de rua, ela estabelece uma relação diversa da literatura com o país". O autor revisa a crítica à obra de Oswald e apresenta análises ético-estéticas de textos. Sobre quando Oswald monta poemas a partir de Caminha, temos "Em lugar do documento, a revelação da surpresa, que já não pode ser revivenciada senão sob o modo da ficção". Apreende-se que corte e intitulação são técnicas oswaldianas que eliminam o exótico pela surpresa. PENSANDO NOS TRÓPICOS reúne outros textos importantes sobre crítica, antropofagia, controle do imaginário, Sebastião Uchoa Leite, Augusto dos Anjos, Bernardo Guimarães, entre muito mais da verve e do interesse do autor.
15 março 2026
Sátántangó
Finalmente, li SÁTÁNTANGÓ. Laszló Krasznahorkai enreda a gente de um jeito que só um anjo torto, coxo, gauche, safado, louco faz. O clima denso da narrativa labiríntica é a base da tensão entre forma e conteúdo. Nesse sentido, SÁTÁNTANGÓ é metalinguístico, porque a montagem indica o signo sobre o qual a narrativa se estrutura, ou seja, o signo é a narrativa. E vice-versa. "Não acuso, portanto, pessoalmente, ninguém, mas... ainda assim, permitam-me fazer a pergunta: não somos todos culpados? Não seria mais decente se, em vez de tomarmos uma atitude defensiva barata, agora reconhecêssemos que sim, somos condenáveis?". Essas perguntas chegam passado um pouco mais da metade das páginas do livro, quando estamos devidamente imersos na antilírica, no anticlímax, no labirinto que nos leva cada vez mais para dentro de nossas verdades limitadas, interessadas, narcísicas. Enquanto lia SÁTÁNTANGÓ ouvia Caetano Veloso cantar "Marcha o homem sobre o chão / Leva no coração uma ferida acesa" e pensava "até onde a ignorância e o uso político da ignorância nos leva?". E SÁTÁNTANGÓ encontra uma forma - e é isso que é mais contundente na experiência de leitura - para representar isso. O que fazer com nossas expressões grosseiras? "Como [os burocratas] dariam uma forma a essa espécie de formulações descuidadas de modo que seus conteúdos são sofressem nenhuma espécie de deturpação?". Essa pergunta de SÁTÁNTANGÓ também moveu Clarice diante do imperativo da escrita de Macabéa. Com tradução de Paulo Schiller SÁTÁNTANGÓ é sedutor e cruel, circular (termina como começa - ou seria o contrário?) e implacável: "somente pelas cortinas da janela do médico se filtrava uma luminosidade", lemos quase no final, quando o tango com Satã já tinha sido dançado, quando somos levados de volta ao começo.
08 março 2026
... De tudo que a gente sonhou: amigos e canções do Clube da Esquina
A pergunta do título do texto de Ruth Finnegan é uma boa provocação - "O que vem primeiro: o texto, a música ou a performance?" -, afinal, como a autora defende, quem lê criticamente uma canção precisa manejar e equilibrar conhecimentos de texto, melodia e voz. Finnegan conclui que "em última instância, tudo de que precisamos é de um ouvido que escute e de uma voz que soe". No livro "... DE TUDO QUE A GENE SONHOU" AMIGOS E CANÇÕES DO CLUBE DA ESQUINA Sheyla Castro Diniz coloca em ação esse ouvido à escuta de vozes fundamentais. A partir de vasta revisão bibliográfica e historiográfica (iconografia e entrevistas) e leitura comparada com outras cenas musicais do período, Sheyla realiza trabalho de interpretação da semiose das canções, do contexto e dos afetos que compõem o Clube da Esquina. A autora tensiona o 'mito da mineiridade' ("expressa através das letras, das opções sonoras, dos títulos e das capas de alguns discos") e as formas de 'resistência cultural' em tempos de ditadura militar. Destaco e leitura de "Como vai minha aldeia", em que, lemos, "sob o impacto da notícia [do assassinato de Che Guevara], ele [Márcio Borges] retratou o 'povo' brasileiro e latino-americano como um sujeito social desprovido de orientação ideológica e de condições estruturais para intervir e modificar sua história". Sheyla escreve que "A heterogeneidade de gostos, experiências, trajetórias e concepções de mundo de que dispunham os jovens artistas do Clube da Esquina enriqueceu as parcerias que eles aos poucos estabeleciam". Se para Finnegan, "a ‘letra’ de uma canção em certo sentido não existe a menos e até que seja pronunciada, cantada, trazida à tona com os devidos ritmos, entonações, timbres, pausas; tampouco a canção tem "música" até que soe na voz"; para Sheyla, concomitante à leitura das letras críticas do Clube, há a defesa da performance vocal, notadamente de Milton Nascimento, e dos arranjos ("No processo de gravação do álbum Clube da Esquina, os músicos não se limitaram aos seus instrumentos específicos") enquanto marcas distintivas dessa poética-da-amizade e que "... DE TUDO QUE A GENE SONHOU" AMIGOS E CANÇÕES DO CLUBE DA ESQUINA faz o importante trabalho de assentar na crítica lítero-musical brasileira.
01 março 2026
Vidas da voz: um ensaio sobre a proximidade
Paralelo ao título, o livro VIDAS DA VOZ: UM ENSAIO SOBRE A PROXIMIDADE despertou minha atenção desde a primeira frase: "Quando penso em minha mãe, [...], nunca consigo ouvir sua voz". Autor dos excelentes "Produção de Presença: o que o sentido não consegue transmitir", "Nosso amplo presente - o tempo e a cultura contemporânea" e "Graciosidade e Estagnação: Ensaios escolhidos", Hans Ulrich Gumbrecht se desafia aqui a anotar a "descontinuidade ontológica que atravessa o nó da voz". Para tanto, o professor coloca em rotação uma vasta revisão conceitual - dos gregos às vozes tecnologicamente mediadas, passando pela vivacidade da imaginação desencadeada por vozes -, aliada a casos particulares, como a voz (agradável e eficaz à função materna) de sua mãe e a voz (desagradável, porque incoerente com a função paterna) de seu pai. Chegando à conclusão de que "Pensar sobre vozes impulsionou ainda mais o senso de proximidade como dimensão existencial - mesmo que somente entendamos que conceitos e argumentos não sejam suficientes para compreender o que está em jogo no que se refere a vozes". Essa proximidade (com o leitor, no caso) é potencializada pela tradução de Nicolau Spadoni. Em VIDAS DA VOZ: UM ENSAIO SOBRE A PROXIMIDADE, Gumbrecht aponta quatro estágios históricos da configuração de voz, a saber, "a eficiência retórica, a encarnação teológica, a aura estética e o enfoque atual sobre camadas individuais de sons". Para ele, "Cantar dissolve as relações sempre tensas entre a vontade e os corpos controlados pela razão, entre o substrato sonoro e palavras controladas pela produção de sentido". Mas alerta: "O fascismo se fundou sobre eventos meticulosamente encenados de performance vocal para grandes públicos como ritual central da política fonocêntrica e usou as tecnologias de gravação e rádio para multiplicar seu número de ouvintes".
22 fevereiro 2026
A sátira e o engenho
A notícia da morte do professor João Adolfo Hansen chegou no meio do carnaval 2026. Se o carnaval ainda guarda algo do "corpo místico" trópico-nacional, essa experiência coletiva em que a elocução dos agentes se unifica numa generalidade nuclear que satiriza a vida ordinária, foi o rigor e o humor de Hansen que nos ajudou a essa compreensão, com foco na Bahia dos poemas atribuídos a Gregório de Matos. Aliás, com Hansen aprendemos que Gregório não tinha nada de transgressor, subversivo, anarquista. Muito pelo contrário, "a sátira é reguladora, circulando como o sangue por todo o corpo da República, prescrevendo as posições e as trocas hierárquicas adequadas para sua boa saúde, criticando a falta e o excesso", lemos em A SÁTIRA E O ENGENHO. Texto é contexto, lembra o professor. "A interpretação nacionalista da poesia barroca, que faz da 'persona' satírica um avatar da emancipação política, nunca leu nos documentos a divisão dos poderes em ordinário e absoluto pela qual a crítica às instituições está prevista como aprimoramento da ordem", adverte Hansen, leitor de documentos, arquivista crítico de tudo que leu. A erudição de João Adolfo Hansen estabeleceu um método para imaginar e interpretar nossas letras coloniais. "Na sátira, a matéria e o procedimento de composição dos mistos são os desses temas e prescrições, referencial de discursos locais esboçado nela como 'arquivo das inconstâncias'", lemos. De 'persona vazia', a sátira lida com estereótipos e tipos para "corrigir" o mal feito no ordinário. Tudo é puro teatro retórico moralizante estilizado no verossímil, afinal, "a informação visa à adesão do destinatário, porque o agente afirma 'sentir' naquilo que informa". O livro SÁTIRA E O ENGENHO é porta de entrada para um pesquisador, professor e mestre de mestres - uma porta incontornável para quem deseja entrar na alma do Brasil, alardeadamente, país da sátira, da caricatura, da (cada vez mais, pelo capital) controlada dissolução da hierarquia, da festa "barroca", "arquivo das inconstâncias", do carnaval - pragmática que prescreve o "bem comum", o regramento e a saúde do "corpo místico" da nação.
15 fevereiro 2026
Desbunde e felicidade
"DESBUNDE E FELICIDADE propõe uma genealogia das práticas literárias e culturais da Argentina de hoje, cujas raízes encontram-se na época do 'desbunde': nos anos 1970 e 1980". A apresentação da orelha dá conta de dizer bem o que o livro de Cecilia Palmeiro entrega. Com rigor e risco, como pede o tema, a autora revela que a américa é marica. Já no primeiro capítulo "Loucas, milicos e fuzis" experimentamos uma imersão profunda na década de 1970, com a presença de Néstor Perlongher e a Frente de Liberación Homosexual como note do debate sobre a função política do intelectual, numa ditadura militar. No capítulo dois, sobre o Brasil, a "poesia marginal" e Glauco Mattoso ganham merecido destaque. E o capítulo três é uma pletora crítica preciosa de corpos e vozes dissidentes. Com tradução de Paloma Vidal, lemos que "a subversão começaria pelo próprio corpo , primeiro terreno de inscrição ideológica e de regulação social. Nesse momento heroico das lutas identitárias, as práticas sexuais não tradicionais proporiam um espaço de experimentação de transformação social". Assim, o desbunde "implicava formas cotidianas e pessoais de resistência à ditadura, mais anarquistas do que marxistas". Cecilia deixa evidente que desbunde não é alienação, fuga, entreguismo. Ao contrário, desbundar é manter-se insubmisso, selvagem, indomesticado, em devir. E coube a intelectuais e artistas criar formas revolucionárias. Citado no livro, para Perlongher, "Devir não é se transformar em outro, mas entrar em aliança (aberrante), em contágio, em mistura com o diferente". DESBUNDE E FELICIDADE pesquisa e ensaia sobre a corporalidade dessa não fetichização da diferença, desse "levar ao extremo a contorção da linguagem para 'degenerar' em outra".
08 fevereiro 2026
Juventude eterna
"É preciso, na medida do possível, nos colocarmos não perante os poetas, mas em meio aos poetas, e nos esforçarmos para experimentar o mito como eles fizeram e fazem". A mirada de Eduardo Sterzi encapsula o livro JUVENTUDE ETERNA, um intenso elogio à poesia, ao poema e ao poeta. Sterzi convida o leitor ao contágio com o mundo e a vida que os poetas mitologizam no poema, essa "tradução intersemiótica do que diz, sem dizer". Para tanto, o autor analisa o "compromisso com a experiência poética" presente na poesia de, por exemplo, Paulo Leminski: "aos deuses mais cruéis / juventude eterna // ele nos dão de beber / na mesma taça / o vinho, o sangue e o esperma". Os versos de Leminski servem de mote para o ensaio de Sterzi, em que ainda aparecem Torquato Neto, Waly Salomão e outros poetas da experiência contracultural e de quando "a poesia cantada passa a ser vista como tão importante quanto aquela para ser lida". JUVENTUDE ETERNA ainda presta justa revisão e reintrodução da obra e do pensamento de Décio Pignatari. E assim Sterzi alerta para o fato de que "Não é só a brutalidade capitalista que ameaça a vida e a poesia; também a caretice do discurso político pode ser fatal".
01 fevereiro 2026
Olha-me e narra-me
Gosto de contar essa história: eu tinha acabado de entregar a tese à banca, quando chegou à minha mão o livro "Vozes plurais", de Adriana Cavarero. A sensação foi de que o meu trabalho (pesquisa e escrita) de quatro anos estava radicalmente muito melhor elaborado ali e de que a tese teria outro encaminhamento, caso essa leitura tivesse sido feita antes. Senti um misto de frustração e júbilo, pois tinha encontrado uma interlocutora inesperada sobre aquilo que eu estava querendo defender, ou seja, a "revocalização do logos", no meu caso, via interpretação do cancioneiro nacional, no caso de Cavarero, via revisão crítica da filosofia ocidental. Desde então leio tudo o que é traduzido de Adriana. Se em "Vozes plurais", a autora está interessada em articular uma filosofia da expressão vocal, em OLHA-ME E NARRA-ME, tradução de Milena Vargas, o foco é a filosofia da narração. O livro tem iluminações interpretativas a cada página. "Desde que a filosofia decidiu se chamar assim e definir o seu estatuto disciplinar com a obra de Platão, ela declarou guerra à arte poética e se diferenciou dela orgulhosamente. (...) Em resumo, a passagem epocal da oralidade à escrita, de Homero a Platão, é sobretudo uma passagem da narrativa em verso, que encanta o auditório evocando imagens no fluxo sedutor e irrefletido da história, ao discurso filosófico, que, ao contrário, procede com método para definir e fixar os seus termos", lemos no trecho em que a filósofa interpreta o mito de Orfeu. Cavarero está interessada no 'quem', mais do que no 'o que' é o sujeito. E "Desde o caso do infeliz Édipo, sabemos que a identidade, inscrita por esse 'quem' sobre o qual se pergunta, é o verdadeiro motor de cada história de vida que aguarda a sua narração". Tensionando mitos antigos e releituras desses mitos, principalmente na escrita de mulheres, dialogando criticamente com Hannah Arendt, Cavarero investiga nosso desejo de narração, o si, a unicidade irrepetível que cada sujeito é, mas que se perde numa sociedade em que "são as necessidades e as forças que se expõem, relacionando-se nessa troca como coisas infinitamente contratáveis, replicáveis, substituíveis". Esse voltar-se para os detalhes, em detrimento do universal abstrato, essa ênfase no ouvido, na escuta, na relação entre narrador e narrado muito me interessa.
25 janeiro 2026
A cor da pele
A COR DA PELE foi um dos mais importantes lançamentos de 2025. Um livro muito esperado por quem é leitor de poesia brasileira e, principalmente, por quem sabia de nosso débito para com a obra de Adão Ventura. "Trabalhando com uma estrutura rítmica que lembra os tambores ancestrais africanos, Adão Ventura dedicou-se a extrair melodia das palavras", escreve Jaime Prado Gouvêa na orelha do livro, apresentando o engenho do poeta autor dos versos "faça sol / ou faça tempestade, / meu corpo é fechado por essa pele negra" e da pergunta "Por que Jesus Cristo é sempre branco?". A poesia de Adão Ventura é composta por biografemas, ou seja, "aquele significante que, tomando um fato da vida civil do biografado, corpus da pesquisa ou do texto literário, transforma-o em signo, fecundo em significações, e reconstitui o gênero autobiográfico através de um conceito construtor da imagem fragmentária do sujeito, impossível de ser capturado pelo estereótipo de uma totalidade", conforme define Latuf Isaias Mucci. Mas em arte forma é conteúdo e ao biografema Adão engendra o ritmo que, inscrevendo o eu, convoca um coro, por exemplo: "eu, pássaro-preto, cicatrizo / queimaduras de ferro em brasa, / fecho o corpo de escravo fugido / e / monto guarda / na porta do quilombo", lemos em "Eu, pássaro-preto". O metro, a cesura, a quebra e o cavalgamento dos versos funcionam para figurativizar o conteúdo: um eu livre, porque pássaro, que guarda nós, artífice e missionário, porque preto. Para Silviano Santiago, "o elemento negro no poema, íntimo ou histórico, social ou racial, é antes sujeito ou objeto de reflexão do que arabesco de decoração". "- O meu mundo é limitado por / selos, números e ossos", dizem os últimos versos do livro A COR DA PELE, numa síntese da poesia, conforme anota o organizador Fabrício Marques, "de choque, reivindicatória, poesia-denúncia" de Adão Ventura.
18 janeiro 2026
O acento de conteúdo
Em O ACENTO DE CONTEÚDO Luiz Tatit desdobra e aprofunda pesquisas que vem desenvolvendo ao longo de sua intensa vida acadêmica. Boa parte dos textos do livro já tinha sido publicada em revistas acadêmicas e aqui aparecem de forma revisada e orgânica, adensando o objetivo de investigar a "presença concentrada da intensidade em todas as realizações humanas". Para tanto, o professor revisita conceitos de Algirdas Julien Greimas, Claude Zilberberg, Ernst Cassirer, Louis Hjelmslev aplicados a textos breves, notadamente crônicas e colunas de jornal, e trechos de canções; além de Goethe, Lichtenberger e Haroldo de Campos. Dispensável dizer que nisso está a generosidade característica do mestre, ou seja, tensionar temas duros da linguística com práticas cotidianas. Tatit sabe da "importância da intensidade afetiva na análise do sentido" e ao longo do livro glosa o aforismo de Paul Valéry, "o mundo vale pelos acentos e dura pelas modulações". Para o professor, acento é "esse ápice do sentido" e "associar o acento apenas ao inesperado é reduzir consideravelmente a sua função no decorrer de uma vida", afinal, "as quantificações subjetivas que culminam no acento são fases de uma apreciação do conteúdo analisadas como impulsos afetivos correspondentes aos que conduzem no plano da expressão os contornos entoativos ascendentes da prótase". Concomitantemente, Tatit nos ajuda a compreender um termo cada vez mais comum na prática crítica, mas pouco criticizada, teorizada, a saber, "afeto" ("impulsos afetivos"), enquanto medida para exame do conteúdo. Essa sensibilidade é resultado de anos de pesquisa, trabalho e contribuição ética e estética em torno da "prosodização do conteúdo" proposta por Zilberberg e sua semiótica tensiva. O interesse pela retórica, pelo conceito de "ênfase" ("asseveração", "afinal, sem acento não há direção") e de modulação, pelo "vigor afetivo", pela "existência acentuada", pelo "acontecimento" ("o que sobrevém e que tem alguma importância para o homem", segundo Zilberberg), pela "intensidade", pela "oralização estética" e função utilitária da fala, pela escolha de "contornos melódicos" une os textos de O ACENTO DE CONTEÚDO. Mais um livro indispensável de Luiz Tatit para quem compreende que "o que existe de pensamento abstrato na poesia (ou na canção) é justamente a sua substância de conteúdo ambígua e eternamente mutável".
11 janeiro 2026
Permanecer bárbaro
Leio o livro PERMANECER BÁRBARO de Louisa Yousfi e repenso a incorporação crítica da violência do Estado nas letras, performances e atitudes dos rappers: “O racismo destrói suas vítimas para que elas se comportem exatamente como previa a grande narrativa do Império, como uma alteridade brutal e vingativa, como primitivos”, escreve Yousfi. A autora debate o fato dos marginalizados serem transformados em “objetos de consumo”: “todas as marcas de luxo têm linhas streetwear. O rap é a música mais baixada na França. A rua molda toda a cultura visual da nossa época. Nós, mulheres da imigração, agimos para sermos aproveitadas não mais pelo Estado, mas pelo business”, lemos. A conclusão da autora é contundente: “Escrevi esse livro porque fracassei. Não permaneci bárbara”, confessa ao final; e pergunta: “Como rasurar a lição de casa quando a responsabilidade da família recai tanto sobre os nossos ombros, quando nossa voz constitui a ocasião rara para os nossos de ter um lugar na conversa?”. O subtítulo "Não brancos contra o império" é um diagnóstico e um convite. Yousfi é uma mulher não branca na França. A jornalista e crítica literária fala em “asselvajamento”, “permanecer bárbaro”. Tratando do grupo francês de rap PNL, Yousfi escreve que "Se você não é da família, não vai entender nada. Liricamente, foneticamente, musicalmente, tudo para você parecerá ininteligível, talvez até ridículo. Não procure saber mais. Esse universo não é feito pra você e ninguém será capaz de explicá-lo a você, simplesmente porque essas coisas não passam pelo sentido, mas pelo pertencimento ao grupo, pelo pertencimento ao sangue. Paciência se não há diálogo". PERMANECER BÁRBARO põe pingos nos is - os monstros que tanto ameaçam a vida do ex-cêntrico, do estrangeiro, do bárbaro, do à margem se alimentam do excesso de integração, de civilidade, de cultura, de Império; e não o contrário, conforme anunciado pelo próprio Império. "Quem tem consciência para ter coragem?", perguntavam os Secos & Molhados no Brasil do início dos anos 1970. A pergunta reverbera enquanto leio PERMANECER BÁRBARO de Louisa Yousfi, com tradução de Diogo Santiago.
04 janeiro 2026
Heptalogia
Virei 2025 para 2026 lendo HEPTALOGIA, de Jon Fosse. Presente de meu amigo e mestre Amador Ribeiro Neto, que apenas disse "pelo quanto que amamos a obra literária pela literariedade". HEPTALOGIA não é livro que se resume, que se resenhe, sem perda significativa da experiência de leitura. Dizer que é a narrativa de um pintor atormentado pela crise de criatividade, é pouco; dizer que é um livro que experimenta na pontuação, é pouco; dizer que é uma escrita de fluxo de consciência em que lemos o eu - Asle (pintor enlutado) - e seu duplo - Asle (pintor alcoolista) - em pleno ápice da maturidade autocrítica, é pouco; dizer que Asle é da linhagem de Brás Cubas, ou de Ulisses, é pouco; dizer que se trata da conversão de um ateu ao catolicismo, por causa da amada morta, cujo nome é Ales (não à toa anagrama de Asle), é pouco; dizer que se trata de um ensaio sobre arte ("um bom quadro precisa trazer alguma feiura em si para poder brilhar como deve, precisa conter a escuridão"; "porque a arte tem a ver com qualidade e nada a ver com gostar ou não gostar"), é pouco. HEPTALOGIA imprime o tormento da arte, a tal "literariedade". Para isso, tão importante quanto o conteúdo é a forma como Jon Fosse trata dessas e de outras questões. Lemos que "(...) justamente por essa combinação única de forma e conteúdo, como um espírito, e nessa unidade, nesse espírito, é tão invisível quanto a imagem, quanto a pintura, é visível, e é esse espírito que é de fato a imagem", a ser plasmada na obra de arte, e "o que a torna boa é exatamente a combinação de matéria e forma e alma, que se transforma em espírito". Asle busca entender essa imagem, esse espírito, o Deus de cada obra de arte. O trabalho de arte do escritor Jon Fosse está em plasmar a forma disso, por exemplo, cada um dos sete capítulos de HEPTALOGIA começa com "E ENTÃO ME PERCEBO DE PÉ olhando..." e termina com o narrador em estado de oração. Essa repetição em diferença dá o ritmo das quase 700 páginas do livro; essa repetição em diferença, acrescentando informações novas e revisando informações dadas, intensifica a experiência de leitura - o espírito, "porque tanto a Bíblia como a liturgia são ficção e poesia e pintura são literatura e teatro e artes plásticas, e assim todas encerram sua própria verdade, pois é óbvio que a arte contém sua verdade". Asle é narrador onisciente, como o Deus cristão. Asle está cansado do excesso de si, "por isso que me tornei pintor, por ter em mim tantas dessas imagens, tantas que chegam a me torturar", lemos. "Estou tão cansado" é frase que se repete ao longo da narrativa e é nesse estado que Asle pensa. Destaque-se a tradução de Leonardo Pinto Silva, as estruturas lexicais, com exemplos como "traz em si, sim, assim", intensificam a experiência de leitura que HEPTALOGIA é.
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