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01 fevereiro 2026

Olha-me e narra-me


Gosto de contar essa história: eu tinha acabado de entregar a tese à banca, quando chegou à minha mão o livro "Vozes plurais", de Adriana Cavarero. A sensação foi de que o meu trabalho (pesquisa e escrita) de quatro anos estava radicalmente muito melhor elaborado ali e de que a tese teria outro encaminhamento, caso essa leitura tivesse sido feita antes. Senti um misto de frustração e júbilo, pois tinha encontrado uma interlocutora inesperada sobre aquilo que eu estava querendo defender, ou seja, a "revocalização do logos", no meu caso, via interpretação do cancioneiro nacional, no caso de Cavarero, via revisão crítica da filosofia ocidental. Desde então leio tudo o que é traduzido de Adriana. Se em "Vozes plurais", a autora está interessada em articular uma filosofia da expressão vocal, em OLHA-ME E NARRA-ME, tradução de Milena Vargas, o foco é a filosofia da narração. O livro tem iluminações interpretativas a cada página. "Desde que a filosofia decidiu se chamar assim e definir o seu estatuto disciplinar com a obra de Platão, ela declarou guerra à arte poética e se diferenciou dela orgulhosamente. (...) Em resumo, a passagem epocal da oralidade à escrita, de Homero a Platão, é sobretudo uma passagem da narrativa em verso, que encanta o auditório evocando imagens no fluxo sedutor e irrefletido da história, ao discurso filosófico, que, ao contrário, procede com método para definir e fixar os seus termos", lemos no trecho em que a filósofa interpreta o mito de Orfeu. Cavarero está interessada no 'quem', mais do que no 'o que' é o sujeito. Tensionando mitos antigos e releituras desses mitos, principalmente na escrita de mulheres, dialogando criticamente com Hannah Arendt, Cavarero investiga nosso desejo de narração, o si, a unicidade irrepetível que cada sujeito é, mas que se perde numa sociedade em que "são as necessidades e as forças que se expõem, relacionando-se nessa troca como coisas infinitamente contratáveis, replicáveis, substituíveis". Esse voltar-se para os detalhes, em detrimento do universal abstrato, essa ênfase no ouvido, na escuta, na relação entre narrador e narrado muito me interessa.

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