Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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25 janeiro 2026
A cor da pele
A COR DA PELE foi um dos mais importantes lançamentos de 2025. Um livro muito esperado por quem é leitor de poesia brasileira e, principalmente, por quem sabia de nosso débito para com a obra de Adão Ventura. "Trabalhando com uma estrutura rítmica que lembra os tambores ancestrais africanos, Adão Ventura dedicou-se a extrair melodia das palavras", escreve Jaime Prado Gouvêa na orelha do livro, apresentando o engenho do poeta autor dos versos "faça sol / ou faça tempestade, / meu corpo é fechado por essa pele negra" e da pergunta "Por que Jesus Cristo é sempre branco?". A poesia de Adão Ventura é composta por biografema, ou seja, "aquele significante que, tomando um fato da vida civil do biografado, corpus da pesquisa ou do texto literário, transforma-o em signo, fecundo em significações, e reconstitui o gênero autobiográfico através de um conceito construtor da imagem fragmentária do sujeito, impossível de ser capturado pelo estereótipo de uma totalidade", segundo Latuf Isaias Mucci. Mas em arte forma é conteúdo e ao biografema Adão engendra o ritmo que, inscrevendo o eu, convoca um coro, por exemplo: "eu, pássaro-preto, cicatrizo / queimaduras de ferro em brasa, / fecho o corpo de escravo fugido / e / monto guarda / na porta do quilombo", lemos em "Eu, pássaro-preto". O metro, a cesura, a quebra e o cavalgamento dos versos funcionam para figurativizar o conteúdo: um eu livre, porque pássaro, que guarda nós, artífice e missionário, porque preto. Para Silviano Santiago, "o elemento negro no poema, íntimo ou histórico, social ou racial, é antes sujeito ou objeto de reflexão do que arabesco de decoração". "- O meu mundo é limitado por / selos, números e ossos", dizem os últimos versos do livro A COR DA PELE, numa síntese da poesia, conforme anota o organizador Fabrício Marques, "de choque, reivindicatória, poesia-denúncia" de Adão Ventura.
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