Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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25 maio 2025
Jader Esbell
Jaider Esbell é um dos mais importantes pensadores do começo do século XXI. Sua obra artística se mistura à sua reflexão crítica e é nessa mistura de gestos éticos e estéticos que reside a potência. O livro JAIDER ESBELL, da coleção Tembetá, guarda boa dose desse pensamento crítico. Reflexões sobre a arte indígena, em que é a "habilidade estratégica que me interessa, a de escapar da generalização do ser como homogeneização, não permitir que se retire as particularidades, as individualidades, os diferentes sentidos de cada pessoa e cultura", "Como a arte pode trazer novas interpretações para a própria ideia de cultura? como a arte pode influenciar decisivamente para uma ideia de nos tornarmos mais civilizados? São questões transversais, universais, globais, mas que batem à nossa porta quando nos vemos de frente com as questões indígenas"; reflexões sobre reapropriação, em que "Adianto que não ando só, que não falo só, que não apareço só. Faço saber que toda a visualidade que me comporta, todas as pistas já expostas do meu existir são meramente um passo para mais mistérios. Somos por nós mesmos o poço de todos os mistérios", lemos no luminoso ensaio "Makunaima - meu avô em mim", em que "Adianto, Makunaima não é só um guerreiro forte, másculo, macho e viril distante de uma realidade possível, não senhores. Ele é uma energia densa, forte, com fonte própria como uma bananeira". JAIDER ESBELL é chamamento para "compor ativamente a grande diversidade para sempre".
18 maio 2025
A queda do céu
A cada releitura de A QUEDA DO CÉU, de Davi Kopenawa e Bruce Albert me percebo apreendendo algo novo. "As mulheres da gente das águas yawarioma apoderam-se deles [dos filhos de xamã] assim que ficam adolescentes para levá-los para sua casa no fundo dos rios. Contudo, isso só ocorre se tiverem mesmo a floresta no pensamento e passarem a maior parte do tempo caçando, sem prestar atenção nas mulheres", lemos aqui. "A gente das águas são grandes caçadores", lemos adiante. Interessado que sou pelos seres das águas, essa "gente das águas" me interessa, particularmente. "Os filhos de xamãs, como eu disse, são também filhos de espíritos. É por isso que a gente das águas yawarioma os reconhece como genros e suas filhas se apoderam deles tão depressa. Eu sou só um filho de ser humano. Meu pai não era xamã, não conhecia os xapari. Assim, eu não sabia nada disso quando era adolescente. As mulheres das águas nunca me levaram para sua casa, nunca me deitaram em suas redes", diz Kopenawa. "Não foi portanto à toa que Omama soterrou o ferro, o ouro, a cassiterita e o urânio, deixando acima do solo só nossos alimentos. Assim guardados pelo frio dos seres da terra que chamamos maxitari e do ser maléfico do tempo chuvoso, Ruëri, os minérios não representam perigo. Mas se os brancos os arrancarem todos do solo, afugentarão o vento fresco da floresta e queimarão seus habitantes com sua fumaça de epidemia", lemos ali. "Se os brancos começarem a arrancar o pai do metal das profundezas do chão com seus grandes tratores, como espíritos de tatu-canastra, logo só restarão pedras, cascalho e areia. Ele ficará cada vez mais frágil e acabaremos todos caindo para debaixo da terra", lemos também. A QUEDA DO CÉU imprime a comsmogonia e a teogonia em estado de vivência, em que corpo e espírito são uno na experiência de viver.
11 maio 2025
Saco de gatos
Entre os textos que no calor da hora tentaram entender a nova lírica nacional engendrada pela canção popular advinda dos Festivais da Canção, cujo público (e torcida) era majoritariamente de jovens universitários, está "MMPB: uma análise ideológica", da professora Walnice Nogueira Galvão. Para ela, em 1968, "A Moderna Música Popular Brasileira apresenta uma proposta nova dentro da tradição. Surgida do desenvolvimento da Bossa Nova, que por sua vez já constituiu uma renovação radical da canção, se por um lado persiste na linha intimista que foi a marca registrada da Bossa Nova, por outro lado compõe um projeto de 'dizer a verdade' sobre a realidade brasileira". A autora passa a comentar as letras de várias dessas canções, em que se "impõe um compromisso de interpretação do mundo que nos cerca, particularmente em suas concreções mais próximas, brasileiras". Assim, "A MMPB se caracteriza, portanto, por uma intencionalidade informativa e participante". A canção engajada de Vandré, evidentemente, recebe destaque. Nelas, "O sertão, o morro, a favela, o estilo de vida dos homens que neles vivem e morrem, são mostrados em sua realidade feia", lemos. Essas canções projetam a melhoria da vida em "o dia que virá", aponta Walnice. "Esperança, na MMPB, significa inação. Esperar significa postergar para o futuro. Vai implícita uma justificação do presente, em função da confiança na autonomia do futuro". A autora aponta a novidade na obra de Caetano Veloso, com sua "ruptura metropolitana", entre outras vozes que expandem o discurso de protesto. Chico Buarque é outro que tem as metacanções lidas pela autora. O texto guardado no livro SACO DE GATOS, livro com ensaios que vão de Euclides da Cunha a Guimarães Rosa, passando por Drummond e Cortázar, é um ótimo registro do calor da hora.
04 maio 2025
O poeta e o tempo
Em diálogo com Paul Preciado, Caetano Veloso leu um dos poemas de Marina Tsvetáeva de que mais gosto - "Amar apenas mulheres (para uma mulher) ou amar apenas homens (para um homem), excluindo de modo notório o habitual inverso — que horror! / Amar apenas mulheres (para um homem) ou amar apenas homens (para uma mulher), excluindo de modo notório o que é inabitual — que tédio! / E tudo junto — que miséria. / Aqui esta exclamação encontra realmente seu lugar: sejam semelhantes aos deuses! / Qualquer exclusão notória — um horror". Os versos dizem muito do cancionista que compôs "Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim". Fato é que a obra de Marina Tsvetáeva sempre me comove, me impulsiona. Em tradução de Autora Fornoni Bernardini, O POETA E O TEMPO reúne o pensamento crítico de Marina. "Minha vontade é meu ouvido: não cansar de ouvir até sentir, e não escrever nada que não tenha sentido", lemos. "A única reza do poeta é se tornar surdo. Ou então, reduzir a qualidade do que ouve, ou seja, tapar os ouvidos a uma série de apelos, invariavelmente os mais fortes", lemos também. Para Tsvetáeva, "A verdade do poeta é a mais invencível, a menos captável, a mais indemonstrável e, ao mesmo tempo, a mais convincente, uma verdade que vive dentro de nós apenas naquele primeiro instante obscuro da percepção (o que terá sido?) e que permanece dentro de nós como o traço de uma luz ou de uma perda (mas terá realmente sido?)". O POETA E O TEMPO pode ser lido como um conjunto de aforismos, prosa sensível que guarda isso que o título anuncia. Uma importante porta de entrada aos bastidores da obra e da vida de Marina Tsvetáeva, mas também da sensibilidade daquilo que move a poesia, a Humanidade.
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