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05 abril 2026

Orides Fontela Poesia Completa


Tenho conversado sobre isso com a pesquisadora Carla Oliveira (UERJ). Sempre me interessa o modo como a mitológica Penélope é relida por poetas modernas e contemporâneas. E são muitas as reconfigurações da mulher que tecia e destecia a trama da própria história, como lemos na Odisseia de Homero. No poema "Penélope", de Orides Fontela, por exemplo, ela aparece assim: "O que faço des / faço / o que vivo des / vivo / o que amo des / amo // (meu "sim" traz o "não" / no seio)". A poeta usa o enjambement, a técnica de fiar versos, para figuratizar o gesto da rainha de Ítaca, insubmissa às investidas dos pretendentes ao lugar de Ulisses. Em poesia, o ritmo é tudo. Orides quebra o fluxo visual e oral da leitura e cria ecos falseados (faço-faço, vivo-vivo, amo-amo) e anáforas precisas que, cortadas pelo prefixo "des", fazem o tecido textual avançar e recuar. Com o poema escrito na primeira pessoa do singular, a voz poemática se coloca no ponto-cruz do "sim" que traz o "não". Essa posição engenha a tensão de Penélope, aquela que adiava o "sim". Desde a visão do poema na página é possível perceber que a poeta cria uma partitura para a enunciação vocal. Daí a sua beleza, ao instaurar o "talvez", entre o "sim" e o "não". Um "talvez" projetado no prefixo "des", que deveria apenas servir para a negativa (desfaço, desvivo, desamo), mas que no resultado não afirma e não nega; afinal, com o verso quebrado, com o enjambement no ponto-cruz, interdita qualquer decisão definitiva. O "seio" dessa voz é movido pela incerteza - esperar? não esperar?. Daí o "sim" (vivo) trazer o "não" (des / vivo). Retomei a leitura desse poema desde que a FLIP anunciou Orides Fontela como a homenageada de 2026. Esse e tantos outros engenhos poéticos da poeta estão no livro POESIA COMPLETA. Urge reler Orides, "uma poeta antilírica, ao menos no sentido em que, se em sua poesia o eu lírico ainda tem vez, no entanto tem pouca voz, trocado pelo protagonismo da palavra", como anota Luis Dolhnikoff na Apresentação.

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