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15 março 2026

Sátántangó


Finalmente, li SÁTÁNTANGÓ. Laszló Krasznahorkai enreda a gente de um jeito que só um anjo torto, coxo, gauche, safado, louco faz. O clima denso da narrativa labiríntica é a base da tensão entre forma e conteúdo. Nesse sentido, SÁTÁNTANGÓ é metalinguístico, porque a montagem indica o signo sobre o qual a narrativa se estrutura, ou seja, o signo é a narrativa. E vice-versa. "Não acuso, portanto, pessoalmente, ninguém, mas... ainda assim, permitam-me fazer a pergunta: não somos todos culpados? Não seria mais decente se, em vez de tomarmos uma atitude defensiva barata, agora reconhecêssemos que sim, somos condenáveis?". Essas perguntas chegam passado um pouco mais da metade das páginas do livro, quando estamos devidamente imersos na antilírica, no anticlímax, no labirinto que nos leva cada vez mais para dentro de nossas verdades limitadas, interessadas, narcísicas. Enquanto lia SÁTÁNTANGÓ ouvia Caetano Veloso cantar "Marcha o homem sobre o chão / Leva no coração uma ferida acesa" e pensava "até onde a ignorância e o uso político da ignorância nos leva?". E SÁTÁNTANGÓ encontra uma forma - e é isso que é mais contundente na experiência de leitura - para representar isso. O que fazer com nossas expressões grosseiras? "Como [os burocratas] dariam uma forma a essa espécie de formulações descuidadas de modo que seus conteúdos são sofressem nenhuma espécie de deturpação?". Essa pergunta de SÁTÁNTANGÓ também moveu Clarice diante do imperativo da escrita de Macabéa. Com tradução de Paulo Schiller SÁTÁNTANGÓ é sedutor e cruel, circular (termina como começa - ou seria o contrário?) e implacável: "somente pelas cortinas da janela do médico se filtrava uma luminosidade", lemos quase no final, quando o tango com Satã já tinha sido dançado, quando somos levados de volta ao começo.

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