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06 setembro 2026

Vidas negras, vidas literárias


Wagner Amaro é idealizador e fundador da Editora Malê; escritor, bibliotecário e editor - informações que dão substância robusta para a escrita de VIDAS NEGRAS, VIDAS LITERÁRIAS (1978-2020), livro resultado de sua pesquisa de doutorado pela PUC-Rio e Prêmio Capes de Tese 2024, na categoria Linguística e Literatura. O livro mapeia, coteja, analisa e reapresenta "escritoras negras e escritores negros na literatura brasileira contemporânea". Amaro parte de "A vida literária no Brasil - 1900" (1956), de Brito Broca, e faz "uso das teorias de literatura negra e da 'escrevivência', para analisar o discurso literário da autoria negra que denuncia as vulnerabilidades da população negra brasileira à morte", além de "definir um conceito de vida literária como um método de investigação sobre as redes de sociabilidades na literatura". A pesquisa de Amaro é preciosa e resulta em material de referência didática. "Os autores aqui citados fazem parte da literatura negra brasileira, uma literatura com uma exterioridade política e uma interioridade de múltiplas referências, forjada na ancestralidade africana, na cultura afro-brasileira, na literatura universal, na literatura brasileira, nos movimentos literários afrodiaspóricos e anticoloniais e na afirmação da vida", lemos ao final do capítulo "Vidas negras importam". Amaro tece e tenciona os fios que constituem a vida literária brasileira, seus centros, suas margens, seus mecanismos de inclusão e exclusão. "O senso de ancestralidade possibilitou a formação das redes de sociabilidade da vida literária da literatura negra no período entre 1978 e 2020, a mesma dor e o mesmo senso de luta pela vida", lemos. Se 1978 a ditadura militar do Brasil torturou e matou Robson Silveira da Luz, em 2020 a polícia dos EUA torturou e matour George Floyd; de lá, com o surgimento do "Movimento Negro Unificado", para cá, com o movimento "Vidas negras importam", o arco temporal registra mudanças significativas na inscrição dessas e outras diversas vidas negras que Wagner Amaro registra e assenta no indispensável VIDAS NEGRAS, VIDAS LITERÁRIAS.

30 agosto 2026

Elogio ao toque


No livro ELOGIO AO TOQUE, Roberta Barros observa que “no Manifesto [antropófago] a antropofagia é arquetípica, relacionada a uma imagem do homem primitivo que vive em meio ao sol, cobra grande, jaboti, Jacy e Guaracy, desfrutando do mito de pleno ócio, festa e livre comunhão amorosa, longe da dimensão abjetual daquela mulher-mãe que lambuza o peito de sangue”. O livro passa em revista, implode e expande conceitos, ideias, leituras e críticas da "arte feminina à brasileira". Para tanto, Roberta se inscreve no debate, revelando suas referências éticas e estéticas, defendendo as próprias performances e, ao mesmo tempo, procura as raízes identitárias do povo brasileiro. O estado da arte, das ciências humanas, da psicanálise e da teoria feminista do século XX é o eixo que se ramifica para ensaiar respostas à pergunta "por que não houve grandes artistas mulheres no Brasil?". A autora elenca e revela um coro de mulheres, de Anita Mafalti a Ana Maria Maiolino, que ainda não foi devidamente ouvido. "Interessa-me ressaltar que, enquanto no exterior a luta aberta pelos direitos reprodutivos levou à conquista de métodos modernos de contracepção que permitiram separar com mais segurança a sexualidade da reprodução, logo, culminando na redescoberta do clitóris, aqui, no início da década de 1960, dominava o clima de moralização dos costumes, com a sintomática proibição presidencial do uso do biquini", lemos. A compreensão dos diferentes contextos ajudam Roberta a expandir conceitos como differance, imaginário, écriture féminine, subjetividade feminina, etc. Nesse trajeto crítico, "toque" é palavra que também se ressignifica, do substantivo ao verbo, e questiona estereótipos: "No percurso para a feminilidade, pois, o toque é reprimido e apenas autorizado mais tarde à mulher-mãe no que diz respeito ao despertar da sexualidade da prole, embora não mais em relação ao seu próprio corpo", lemos. Roberta Barros conclui apontando a "escassez de um discurso teórico que use alguma perspectiva feminista para propor leituras dessas obras", o que limita o trabalho das artistas e da crítica.

23 agosto 2026

Feminino e linguagem


Em FEMININO E LINGUAGEM: INTINERÁRIOS ENTRE O SILÊNCIO E O TAGARELAR, Isabela Pinho parte do ensaio de Walter Benjamin “Metafísica da Juventude” (1913), traduzido pela primeira vez ao português pela autora (e conclusão/bônus do livro), maneja e potencializa o “tagarelar feminino” de Benjamin, o “experimentum linguae” de Agamben e a "lalíngua" de Lacan, a fim de conceber suas hipóteses, entre elas: "Se a língua pura é a 'língua que já não pré-supõe qualquer língua e que, tendo consumido em si todo pré-suposto e todo nome, não tem verdadeiramente mais nada a dizer, mas simplesmente falar' (Agamben), minha hipótese é a de que o tagarelar das personagens femininas do ensaio juvenil de Benjamin pode remeter à tal concepção de linguagem", lemos. "Uma das perguntas que move este livro é: como desativar o poder pressuponente da linguagem transmitido pela tradição da filosofia ocidental? A esta questão, outra vai se associar: o tagarelar feminino pode ser pensado como um modo de desativar o poder pressuponente da linguagem? É em busca de um pensamento não destinável, ou de uma fala que não mais queira dizer o indizível que Agamben se remete a Walter Banjamin e que remeto ao tagarelar feminino na 'Metafísica da juventude'", escreve Isabela. Tão impressionante quanto a erudição da autora é o modo de sua escrita fluida, madura, densa. O livro ressignifica o "tagarelar" a que o feminino, para além da categoria "mulher", sempre foi acusado. Aqui, silêncio não é silenciamento. "Esse outro tagarelar, ou esse outro modo de estar na linguagem, pode ser assinalado pela seguinte caracterização da fala dessas mulheres: 'mulheres falantes são possuídas por uma linguagem louca'", escreve e completa adiante: "Com Benjamin, a conversa das mulheres liberou-se do objeto e da linguagem, mas essa liberação parece estar referida somente a um determinado modo de estar na linguagem e, nesse sentido, parece apontar para outros modos possíveis". FEMININO E LINGUAGEM mostra a pesquisadora "à procura por um outro uso da linguagem". A revisão bibliográfica e o foco argumentativo impressionam. "Na 'Metafísica da Juventude', a linguagem feminina não somente é caracterizada como uma língua não comunicativa, mas também como uma língua 'loucachistosa', uma 'wahnwitzigen Sprache', fazendo uso da transcriação poética sobre a qual Benjamin nos fala em 'A Tarefa do tradutor'", escreve Isabela; e dialoga com um de meus autores de predileção: Haroldo de Campos (leitor de Lacan). Ao defender que "o tagarelar feminino constituiria, assim, a esfera não comunicativa da linguagem em que chistes, lapsos e equívocos se dão", Isabela torce o discurso e nos oferece um livro em que o tagarelar, à semelhança do sexo erotizado e sem fins de procriação, é gesto de desarticulação, digo, insubmissão.

16 agosto 2026

A polícia da memória


"Ainda assim, por que será que inventei de escrever um romance sobre uma datilógrafa? Eu quase nunca usei uma máquina na vida. Também não tenho nenhuma conhecida datilógrafa. É tão estranho... Há diversas partes do texto que fazem descrições detalhadas de máquinas de escrever. Diversas cenas em que as personagens datilografam". A reflexão é feita pela narradora de A POLÍCIA DA MEMÓRIA; e o tom metalinguístico, da narradora que estranha aquilo que narra, dá conta de uma narrativa em que, numa ilha, as coisas e as pessoas começam a desaparecer, sem que isso cause revolta ou tristeza - a apatia é brutal, o medo paralisa os ânimos e os afetos. Tudo se passa numa ilha em que cada habitante que resta vai também se tornando uma ilha e A POLÍCIA DA MEMÓRIA trata desse arquipélago de subjetividades dormentes. A narradora começa, portanto, a inventar sobre aquilo que ela não lembra - dos doces da infância à mãe artista, que conseguiu esconder em esculturas pequenos objetos que a polícia fez desaparecer. A metalinguagem está também nisso: como e o que escrever num ambiente dessensibilizado, onde a memória está recalcada? Sendo ela uma romancista, o momento de maior tensão poderia estar quando os livros desaparecem e até a biblioteca da ilha é queimada pela polícia, isso porque ela desaprende a escrever romance: "Uma noite, decidi me pôr a escrever. Tentei expressar como me sentia quando um oco era iluminado pela luz tênue do reconhecimento. Foi a primeira vez, desde o sumiço dos romances, que isso acontecia. Não sabia mais segurar o lápis direito", lemos. Porém, é quando ela vai perdendo partes do corpo que o livro de Yoko Ogawa atinge seu inesperado ápice dramático. R, editor da narradora, por não esquecer nada e, por isso, viver escondido, estimula a reaprendizagem: "Não é importante que tenha significado. O importante é a história que está submersa nas palavras. Neste momento, você está tentando trazer essa história à superfície. O seu coração está empenhado em recuperar as coisas sumidas", diz. E a história "submersa nas palavras" nos lembra autoritarismos, fascismos e extremismos da vida ordinária e não-ficcional. Como resistir? Como se manter atento e forte? Anunciado como distopia, a narrativa da japonesa Yoko Ogawa diz muito a nós latino-americanos e ao nosso histórico de repressão, controle e patrulha do imaginário; e que acontecem muitas vezes em forma de autocensura, conformismo, apatia, experiências que caracterizam os sucumbidos habitantes da ilha. Com tradução de Andrei Cunha, A POLÍCIA DA MEMÓRIA entretém e faz pensar, nos coloca diante de espelhos ideológicos; e faz da arte e da literatura um tempo e um espaço (ainda) de resistência. 

09 agosto 2026

História da literatura brasileira


Originalmente publicada em 1972, com o título La letteratura brasiliana, a obra de Luciana Stegagno-Picchio integra o projeto Le Letterature del Mondo, coleção composta por cinquenta volumes dedicados às literaturas nacionais. No Brasil, HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA foi lançado em 1997. Escrita pela filóloga e professora italiana de literaturas neorromânicas, a obra se destaca pelo olhar "estrangeiro" - aspas porque o volume passa em revista toda a formação de nossa literatura, demonstrando intimidade e crítica apuradas, muito embora reforce o mesmo teor objetivo, canonizante e metodológico de outros livros do gênero publicados no Brasil. Destacam-se as escolhas e a antologia que a professora efetivamente monta ao selecionar trechos de prosa e versos de poemas nem sempre óbvios. Interessa-me, por exemplo, o que a autora escreve sobre Sousândrade ("O seu 'Inferno de Wall Street', milagre de modernidade e de antevisão poética, se visto unicamente dentro de uma perspectiva local, adquire, para nós, novo significado quando inserido naquela cadeia pânico-demoníaca na qual se engastam todas as explosões de maravilha dos 'dos em Nova York'. Cadeia que tem, para nós, nomes como Walt Whitman, Ruben Darío, indo até o García Lorca de Poeta en Nueva York"); Oswald de Andrade ("É possível que Oswald tenha exercido conscientemente a mistificação na sua obra desmistificatória, radical e destrutiva; mas não há dúvida de que essa obra represente o núcleo criativo do Modernismo brasileiro, ou ao menos do Modernismo da primeira fase, autoral e literário, individualista e vanguardista"); João Cabral ("A estrutura em João Cabral revela o sentido"; "Poderia parecer que um poeta assim, desumanizado, fosse incapaz de amor. Ao invés, poucas poesias amorosas têm a profunda vitalidade de textos como 'Imitação da água', que aparece em Quaderna. E poucos romances-denúncia mostrarão um amor à terra como a Educação pela pedra, onde o mar aprende do canavial e onde o canavial aprende do mar, mas onde o homem aprende da pedra, dela capta a lição impessoal, a lição moral, a resistência fria, a lição estética, a carne concreta, a lição da economia, o adensar-se compacto"), etc. Com tradução de Pérola de Carvalho e Alice Kyoko, a HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA da professora Lucina é muito mais do que mera divulgação de nosso nacionalismo literário, pois a autora pensa "Literatura brasileira como entidade cultural autônoma, sobre duas vertentes: a que delimita a civilização brasileira das civilizações americanas e latino-americanas, e a que isola uma cultura brasileira no âmbito das culturas produzidas por povos de expressão portuguesa".

02 agosto 2026

Uma história da literatura brasileira contemporânea: a narrativa


A professora Regina Dalcastagnè vem desenvolvendo importante trabalho de mapeamentos dos diversos aspectos da trama social da literatura brasileira. Com uma brava equipe de pesquisadores, esse trabalho se desdobra em artigos, revista, livros e no site Praça Clóvis (pracaclovis.com). UMA HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA: A NARRATIVA é um desses desdobramentos de fôlego. O volume comenta, compara, resenha, teoriza sobre um conjunto significativo da nossa narrativa contemporânea, com recorte a partir dos anos 1970. "A literatura produzida a partir desse momento já se faz sob o impacto do golpe empresarial-militar de 1964 e dos movimentos civis pela democracia e pelos direitos, acompanhando um país cada vez mais urbano, que se moderniza sem deixar de ser autoritário e excludente, escreve Dalcastagnè, depois de afirmar "Pretendo pensar a narrativa brasileira recente em sua relação com a vida ao redor, a partir de percursos que não se querem lineares e tampouco unívocos". De fato, o livro é dividido em quatro partes: "Percursos espaciais"; "Percursos políticos"; "Percursos íntimos" e "Percursos cotidianos". Deste último destaco um trecho que muito me tocou, o capítulo "O mundo do trabalho", quando Regina Dalcastagnè lembra o poema de Ferreira Gullar em que a voz poética "sabe bem que o açúcar não surgiu ali em um passe de mágica [a professora nos remete às crianças de Hogwarts], que não foi ele que o fez, nem o dono da mercearia onde o comprou, nem sequer os proprietários da usina em Pernambuco ou no estado do Rio, de onde o produto veio". Assim, o poema "O açúcar" serve para pensar narrativas em que a presença dos explorados é central para a consciência da importância dos trabalhadores na construção do país. UMA HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA: A NARRATIVA é um canto entusiasmado com a escrita contemporânea. "Que a literatura possa continuar sendo espaço de resistência e também de liberdade, de abrigo para nossas indagações e perplexidades diante do mundo, de nós mesmos e da escrita", conclui a professora, cuja pesquisa inspira e agrega valores e saberes que nos orientam a pensar o Brasil que vivemos no presente, sem deixar de "entender melhor as permanências, transições e rupturas com o que veio antes".

26 julho 2026

Arco da promessa


"Às vezes é solitário viver", "Eu que existindo / Tudo comigo depende só de mim". É analisando versos assim que Cláudia Fares desenvolve um potente ensaio sobre a obra de Caetano Veloso, tomada pela autora como sintoma da partilha do sensível comum brasileiro. O ARCO DA CONVERSA é um livro sobre a solidão e já no título, rasurando o verso "A tua presença / Mantém sempre teso o arco da promessa", aponta seu objetivo, ou seja, mostrar que em Caetano a solidão está abundantemente povoada de memórias, lugares, cores, nomes. "É isso que faz da solidão uma verdadeira 'atividade', aquela que, paradoxalmente, funda a possibilidade de estar juntos", escreve o professor Maffesoli na apresentação do livro. Para Fares, "Ao contrário de uma auto-suficiência charmosa feita de autonomia e de independência, a solidão mostra-se como a instância que os funda e nos lembra, todo o tempo, a nossa condição de seres incompletos, inacabados, e imperfeitos, que só se constituem numa relação ininterrupta com o outro". Por isso que, "Ter saudade até que é bom / É melhor que caminhar vazio", canta Caetano os versos de "Sonhos", de Peninha, de quem também canta "Tô me sentindo muito sozinho // Onde está você agora?", de "Sozinho". "A obra de Caetano Veloso oferece-se como um rico objeto de prospecção de nossa cultura. Em primeiro lugar, porque ela faz parte do contexto da música popular - umas das expressões culturais mais importantes do Brasil - e, em segundo lugar, porque ela se mostra como lugar que repercute os múltiplos movimentos do solitário em sua aventura dinâmica interior-exterior, quer dizer, em sua relação com o mundo", lemos. É essa repercussão que interessa a autora que, depois de fazer uma rigorosa revisão crítica do tema, entra na obra desse cancionista do "Eu sozinho / Só e solitário / Sob a chuva da Bahia" ("Lapa"). ARCO DA CONVERSA tem hipótese de tese original, desenvolvida com argumentos robustos e refinados, promovendo uma leitura atenta da obra do santamarense. "A terra natal é desde sempre dada nesta natureza [do solitário] ao mesmo tempo doadora e perigosa. A aventura coloca-se então como uma marcha sem fim através do que já é dado pelo mundo. E o que é já dado pelo mundo é a terra natal, banhada por seu pequeno e insignificante rio, que atravessa o coração do homem. O lugar que engendra o homem está, todo o tempo, brotando, manando e, assim, atravessando-o", lemos. "Meu trabalho é te traduzir", canta Caetano para Santo Amaro. Para Cláudia Fares, "a obra de Caetano Veloso se revela como exemplo de uma dicção cantadora em português da solidão", da "consciência de si consigo mesmo", diria Rosset.