Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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18 janeiro 2026
O acento de conteúdo
Em O ACENTO DE CONTEÚDO Luiz Tatit desdobra e aprofunda pesquisas que vem desenvolvendo ao longo de sua intensa vida acadêmica. Boa parte dos textos do livro já tinha sido publicada em revistas acadêmicas e aqui aparecem de forma revisada e orgânica, adensando o objetivo de investigar a "presença concentrada da intensidade em todas as realizações humanas". Para tanto, o professor revisita conceitos de Algirdas Julien Greimas, Claude Zilberberg, Ernst Cassirer, Louis Hjelmslev aplicados a textos breves, notadamente crônicas e colunas de jornal, e trechos de canções; além de Goethe, Lichtenberger e Haroldo de Campos. Dispensável dizer que nisso está a generosidade característica do mestre, ou seja, tensionar temas duros da linguística com práticas cotidianas. Tatit sabe da "importância da intensidade afetiva na análise do sentido" e ao longo do livro glosa o aforismo de Paul Valéry, "o mundo vale pelos acentos e dura pelas modulações". Para o professor, acento é "esse ápice do sentido" e "associar o acento apenas ao inesperado é reduzir consideravelmente a sua função no decorrer de uma vida", afinal, "as quantificações subjetivas que culminam no acento são fases de uma apreciação do conteúdo analisadas como impulsos afetivos correspondentes aos que conduzem no plano da expressão os contornos entoativos ascendentes da prótase". Concomitantemente, Tatit nos ajuda a compreender um termo cada vez mais comum na prática crítica, mas pouco criticizada, teorizada, a saber, "afeto" ("impulsos afetivos"), enquanto medida para exame do conteúdo. Essa sensibilidade é resultado de anos de pesquisa, trabalho e contribuição ética e estética em torno da "prosodização do conteúdo" proposta por Zilberberg e sua semiótica tensiva. O interesse pela retórica, pelo conceito de "ênfase" ("asseveração", "afinal, sem acento não há direção") e de modulação, pelo "vigor afetivo", pela "existência acentuada", pelo "acontecimento" ("o que sobrevém e que tem alguma importância para o homem", segundo Zilberberg), pela "intensidade", pela "oralização estética" e função utilitária da fala, pela escolha de "contornos melódicos" une os textos de O ACENTO DE CONTEÚDO. Mais um livro indispensável de Luiz Tatit para quem compreende que "o que existe de pensamento abstrato na poesia (ou na canção) é justamente a sua substância de conteúdo ambígua e eternamente mutável".
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