Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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04 janeiro 2026
Heptalogia
Virei 2025 para 2026 lendo HEPTALOGIA, de Jon Fosse. Presente de meu amigo e mestre Amador Ribeiro Neto, que apenas disse "pelo quanto que amamos a obra literária pela literariedade". HEPTALOGIA não é livro que se resume, que se resenhe, sem perda significativa da experiência de leitura. Dizer que é a narrativa de um pintor atormentado pela crise de criatividade, é pouco; dizer que é um livro que experimenta na pontuação, é pouco; dizer que é uma escrita de fluxo de consciência em que lemos o eu - Ales (pintor enlutado) - e seu duplo - Ales (pintor alcoolista) - em pleno ápice da maturidade autocrítica, é pouco; dizer que se trata da conversão de um ateu ao catolicismo, por causa da amada morta, cujo nome é Asle (não à toa anagrama de Ales), é pouco; dizer que se trata de um ensaio sobre arte ("um bom quadro precisa trazer alguma feiura em si para poder brilhar como deve, precisa conter a escuridão"; "porque a arte tem a ver com qualidade e nada a ver com gostar ou não gostar"), é pouco. HEPTALOGIA imprime o tormento da arte, a tal "literariedade". Para isso, tão importante quanto o conteúdo é a forma como Jon Fosse trata dessas e de outras questões. Lemos que "(...) justamente por essa combinação única de forma e conteúdo, como um espírito, e nessa unidade, nesse espírito, é tão invisível quanto a imagem, quanto a pintura, é visível, e é esse espírito que é de fato a imagem", a ser plasmada na obra de arte, e "o que a torna boa é exatamente a combinação de matéria e forma e alma, que se transforma em espírito". Ales busca entender essa imagem, esse espírito, o Deus de cada obra de arte. O trabalho de arte do escritor Jon Fosse está em plasmar a forma disso, por exemplo, cada um dos sete capítulos de HEPTALOGIA começa com "E ENTÃO ME PERCEBO DE PÉ olhando..." e termina com o narrador em estado de oração. Essa repetição em diferença dá o ritmo das quase 700 páginas do livro; essa repetição em diferença, acrescentando informações novas e revisando informações dadas, intensifica a experiência de leitura - o espírito, "porque tanto a Bíblia como a liturgia são ficção e poesia e pintura são literatura e teatro e artes plásticas, e assim todas encerram sua própria verdade, pois é óbvio que a arte contém sua verdade". Ales é narrador onisciente, como o Deus cristão. Ales está cansado do excesso de si, "por isso que me tornei pintor, por ter em mim tantas dessas imagens, tantas que chegam a me torturar", lemos. "Estou tão cansado" é frase que se repete ao longo da narrativa e é nesse estado que Ales pensa. Destaque-se a tradução de Leonardo Pinto Silva, as estruturas lexicais, com exemplos como "traz em si, sim, assim", intensificam a experiência de leitura que HEPTALOGIA é.
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