
Letra de canção e
poema de livro são duas formas de exploração poética da palavra. Uma
pede a voz, a outra pede o papel. A mudança de suporte é fundamental
para receber e pensar as especificidades dessas linguagens tão
convergentes. Dizer que letra de canção é (ou não é) poema, portanto,
não deve servir nem de justificativa para quem ainda defende que o
suporte elementar do poema seja o papel, esquecendo-se que a voz, a
palavra cantada está na gênese da poesia, aliás, estes, em geral, não
compreenderam (não aceitam) a revolução que as experimentações
vanguardistas engendraram no poema: no Brasil, destaque-se o projeto
verbivocovisual dos poetas concretos; nem de subterfúgio para "elevar" o
status dos letristas ao hall dos poetas eleitos por parte da elite
cultural. Os dois movimentos tendem a obliterar a incompetência
teórico-crítica de quem não sabe, por preguiça, preconceito, ou
idiossincrasia maior, lidar com a natureza múltipla da canção popular.
Neste
elitista jogo de valor entre letra de canção e poema de livro, entre
música popular e literatura, há quem diga que o poema perdeu para a
canção grande parte do espaço existencial que ocupava no imaginário da
sociedade, na história e no cotidiano das pessoas. E que esta
transferência ocorrera por volta dos anos 1960, ou seja, durante a
ascensão da censura imposta pela ditadura militar no Brasil em choque
com as lutas identitárias na Europa e nos EUA.
De
fato, muitos poetas que naquele momento - e nos anos 1970 e 80 - usaram
a voz e o corpo como suporte do poético, até porque a publicação de
poemas, este gênero subversivo por tradição, estava sob a mira dos
censores, anos depois renderam-se a "legitimidade" que o livro impresso
ainda exerce. Mas há que se perguntar quem eram aquelas pessoas cujo
espaço existencial era ocupado por poemas, naquele tempo idílico
pré-1960. "Eles não vão entender o que são riscos / E nem que nossos
livros de história foram discos", diria Emicida em "Ubuntu Fristili".
Como todo signo é ideológico (BAKHTIN, In: Problemas da poética em
Dostoiévski, 1997), toda valoração estética reflete a ética das
estruturas sociais e históricas. E a questão do privilégio do acesso aos
livros de poemas também importa para pensar a distinção entre letra de
canção e poema de livro.
Em
Linguagem e diálogo: as ideias linguísticas do círculo de Bakhtin, o
professor Carlos Alberto Faraco comenta bem o uso que Bakhtin faz do
termo "ideologia": "A palavra ideologia é usada, em geral, para designar
o universo dos produtos do 'espírito' humano, aquilo que algumas vezes é
chamado por outros autores de cultura imaterial ou produção espiritual
(talvez como herança de um pensamento idealista); e, igualmente, de
formas da consciência social (num vocabulário de sabor mais
materialista). Ideologia é o nome que o Círculo [de Bakhtin] costuma
dar, então, para o universo que engloba a arte, a ciência, a filosofia, o
direito, a religião, a política, ou seja, todas as manifestações
superestruturais (para usar uma certa terminologia marxista)", (FARACO,
2003, p. 46).
Letra
de canção e poema de livro são unidades de vários elementos simultâneos
e inseparáveis, entre eles, forma/conteúdo, som/sentido,
significante/significado, entoação/ideologia, no caso da canção, e
papel/ideologia, no caso do poema impresso. Isso se deixarmos de lado,
por enquanto, a verbivocovisualidade concretista e a
verbivocoperformance tropicalista. Porque quero chamar atenção para a
defesa de que a melodia, o ritmo, a performance são elementos
ideológicos tanto quanto a palavra estática, impressa. Letra de canção e
poema de livro são seres orgânicos e autônomos, ao mesmo tempo em que
são mistos. O significado dependerá sempre de uma série de fatores intra
e extrapoéticos. Dito de outro modo, o significante literário, tão
importante à elite cultural, subsiste no conjunto encapsulado pela voz,
em um; e pelo impresso, no outro.
Quem
canta precisa encontrar a entonação eficaz, justa, adequada para dizer
(voz) o que diz (texto); assim como quem escreve, distribui as palavras
na página, trabalha sobre uma estrutura. A recepção desses trabalhos de
arte não é passiva. Tanto o ouvinte quanto o leitor veem-se instados a
agir junto com o eu poético. Ou não. E isso também depende de uma série
de fatores ideológicos e de formação do ouvinte e do leitor.
Substância
e expressão ideológicas estão na estrutura do dito e do modo de dizer;
do escrito e do modo de escrever. Métricas, rimas, dores, alegrias são
matérias formais e conteudísticas da letra de canção e do poema de
livro. Mesmo quando o texto da letra de canção é criada antes da
melodia, esse texto tem um ritmo que deverá ser acionado e potencializado
na voz do cancionista. A expressão da entoação embrionária das palavras
do textos é exatamente o trabalho do cancionista. Assim como a leitura
"silenciosa" de um poema de livro aciona mentalmente a melodia das
palavras, base para a compreensão do ritmo engendrado pelo poeta.
Embora
esteja ancorada da entonação embrionária das palavras, a adequação
entre letra e voz não é exata, o que eliminaria as várias interpretações
possíveis dadas a um "mesmo" texto. Ao contrário do que comumente se
pensa, a letra de canção não está aprisionada à melodia; a cada
interpretação é possível violentar a sintaxe através dos usos da
respiração, da quebra da correlação semântica/fonologia em busca de (uma
nova) intenção, da (renovada) expressão não-vulgar, costumeira das
palavras. É a interpretação singular e diversa o que torna o cancionista
coautor, parceiro de quem escreveu o texto, por exemplo.
Talvez
seja este medo da coautoria, o medo de deixar de ser o único eleito das
Musas, o que move quem se recente do poema ter "perdido espaço" para a
canção. Para estes é absolutamente impensável a parceria num poema. Como
se as Musas não tiveram mudado através dos tempos; como se a relação
entre musa e poeta estivesse intacta desde um tempo mítico em que o
poema carregava toda a subjetividade do poeta, impondo a autoria. Ou
ainda como se, por ter sido feita sob encomenda, muitas vezes após a
criação da melodia instrumental, uma letra de canção não carregasse a
subjetividade do letrista. "Minha amiga / indecisa / lida com coisas /
semifusas // usando confusas / mesmo as exatas / medusas / se transmudam
/ em musas", escreveu Paulo Leminski (Caprichos & relaxos, 1983); e
"já fui coisa / escrita na lousa / hoje sem musa / apenas meu nome /
escrito na blusa" (idem), tematizando estas novas relações musais.
Não
bastassem estes dois exemplos de que a obra de Leminski
não se limita ao lirismo narcísico e à sociabilidade do universo do
consumo, temos inúmeros versos, poemas, letras do autor que dão conta
dos mais variados temas da humanidade. Essa maturidade seria resultado
do trânsito de Leminski entre a letra de canção e o poema de livro,
diriam alguns. Mas não poderia ser exatamente o contrário? A maturidade
ética e estética do autor não estaria no estímulo necessário à
compreensão diversa da exploração poética da palavra? Leminski estava
interessado nas novas formas de escrita e escuta de poesia.
No
texto "Na cadeia de sons da vida: literatura e música popular na obra
de Paulo Leminski", Marcelo Sandmann anota que Leminski "confirma toda
uma tendência geral da época, de ruptura de limites entre a arte culta e
a arte popular e de massa, entre a poesia informada e a letra de
canção, entre a experimentação formal e o desejo de comunicação. Produz
sua obra a partir de certas coordenadas, que delimitam um campo de boa
tensão interna, coordenadas que vão da Poesia Concreta, passam pela
Contracultura internacional (sobretudo na sua vertente anglo-americana:
beat generation, hippies, rock) e chegam à expressão dessa mesma
Contracultura em termos brasileiros, com o Tropicalismo e o
Pós-tropicalismo. Nesse campo, a música popular surge como gênero da
maior importância, seja como objeto de fruição e referência estéticas,
seja como lugar de atuação criativa" (p. 202, In: A pau a pedra a fogo a
pique: dez estudos sobre a obra de Paulo Leminski, 2010).
Na
esteira da dicção de Catulo da Paixão Cearense, Orestes Barbosa,
Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, Gilberto Gil,
Torquato Neto, Wally Salomão, Arnaldo Antunes, entre outros, Paulo
Leminski tensionou linguagem estandardizada, engajamento ético e vida
urbano-industrial. Daí que limitar-se ao gosto concebido pela Academia
grafocêntrica não faz mais sentido. Na introdução do livro Caprichos
& relaxos, Leminski escrevera: "Aqui, poemas para lerem, em
silêncio, / o olho, o coração e a inteligência. / Poemas para dizer, em
voz alta. / Poemas, letras, lyrics, para cantar. / Quais, quais, é com
você, parceiro". O projeto é claro: os modos de usar a potência
da palavra não está mais dado a priori pelo poeta.
Neste
jogo entre expressão e comunicação, Leminski aprofunda e embaralha o
que João Cabral anotara na orelha do livro Duas águas: "de um lado,
poemas para serem lidos em silêncio, numa comunicação a dois, poemas
cujo aprofundamento temático quase sempre concentrado exige mais do que
leitura, releitura; de outro lado, poemas para auditório, numa
comunicação múltipla, poemas que, menos que lidos, podem ser ouvidos"
(1956).
É
sem dúvida um desses poemas para ser relido que Itamar Assumpção decide
cantar. Assinando a coautoria da obra com Leminski, Itamar dá à canção o
título de "Dor elegante" (Pretobrás, 1998). O poema está publicado sem
título no livro póstumo La vie en close (1991). Ao adjetivar a dor de
"elegante", e não "o homem com uma dor", como sugere o poema impresso,
Itamar desloca o sentido, abre o texto à plussignificação. Tanto ao ler o
poema, quanto ao ouvir a canção somos inclinados a refletir dançando
com um sujeito cancional que sabe usar o "assim" - "caminha assim de
lado" - para criar intimidade com quem ouve e presentificar-se no
instante-já do dizer. Do mesmo modo como a dor que faz o homem ter
elegância. "Não me toquem nessa dor", diz o sujeito poemático e
cancional, afirmando a intimidade com a dor e com quem ouve, outro
passível de dor.
À
passionalização proposta pelo poema, Itamar justapõe um acompanhamento
de cordas, um quase blues, um quase reggae. Depois da introdução
instrumental, Itamar fala: "Leminski disse" e divide os vocais da
canção, do poema cantado com Zélia Duncan. Assim, como o eu poemático
que fala para outrem - "não me toquem nesta dor" -, o sujeito da canção
precisa compartilhar a experiência e o aviso. Assumpção faz a ponta
entre um e outro quando na segunda vez em que o poema é cantado introduz
"Leminski disse e Zélia vai repetir pra vocês". Neste segundo momento
da canção Duncan declama parte do texto, o acompanhamento continua o
mesmo e alterna-se palavra cantada com palavra falada. Ecos e coros "por
favor" soam aqui e ali para reforçar a partilha do sensível. "Leminski
disse e a Zélia repete aqui pra vocês", diz Itamar presentificando a
dor: o "aqui" da voz do cancionista almagama-se semanticamente ao
"assim" do poema.
Os
versos leminskianos "carrega o peso da dor / como se portasse medalhas /
uma coroa um milhão de dólares / ou coisa que os valha" e confirmam o
que Fábio Vieira (2010) anota em Oriente ocidente através - a
melofanologopaica poesia de Paulo Leminski: "Através da concisão, da
justaposição de imagens e da sintaxe atrativa de opostos, a poesia de
Leminski faz crítica à visão linear dos fatos. O recolhimento do
desprezível, através de um humor contido, revela muitas vezes uma forma
de ver coisas pela ótica do sensível" (pág. 118).
Esses
mesmos versos dialogam com os versos da canção "Luz do sol", de Caetano
Veloso, gravada por Gal Costa em Minha voz (1982): "Marcha o homem
sobre o chão / Leva no coração uma ferida acesa / Dono do sim e do não /
Diante da visão da infinita beleza / Finda por ferir com a mão essa
delicadeza / A coisa mais querida, a glória da vida". Eis a dor elegante
compreendida por Itamar? O sofrer promotor do amadurecimento como
última obra do homem? A elegância é resultado da compreensão interna e
corporal da dor de um corpo calejado da existência?
Caetano
e Leminski, cada um a seu modo, identificados com o desbunde,
incorporam em suas obras reflexões filosóficas, épicas e trágicas. Um
movimento característico de uma geração que diz "sim" à vida, apesar do
sofrimento. "Existirmos, a que será que se destina?", pergunta Caetano
em "Cajuína". Os dois são bons exemplos de letristas que no Brasil não
se restringem à recepção fácil, ao mero entretenimento. Ambos tensionam
subjetividade (eu, público específico) com cultura de massa (canção para
tocar no rádio). "Um dia a massa ainda comerá o biscoito fino que eu
fabrico", dissera Oswald de Andrade. Caetano e Paulo sabem que
distinguir quem deve ou não comer o "biscoito fino" é gesto classicista,
repressor, cafona.
Itamar
cria uma melodia que não dilui o pensamento, ao contrário. Ele
compreende que o eu do poema está em trânsito, caminhando "de lado /
como se chegando atrasado andasse mais adiante". Por isso o blues, o
reggae para figurativizar o movimento (o fazer) do eu. Itamar incorpora a
sinestesia sugerida no poema: o ritmo do caminhar, o diálogo interno, a
experiência partilhada, o humano. Questões que não se esgotam na
primeira leitura do poema, nem na primeira audição da canção. Itamar
prova que o poema não é um texto autônomo, depende do leitor, depende
das condições de leitura (mesmo silenciosa) para ter e fazer sentido. O
homem do poema é um e é todos.
No
texto "No corpo da voz: a poesia-música de Paulo Leminski", Ricardo
Aleixo anota que "a canção popular, o processo que leva à sua criação,
sobretudo quando esta envolve parceira, parece atrair Leminski pelo que
contém de convite à alteridade. (...) Músico ou 'meio músico', Leminski
quer que seus textos - transformados ou não em canções - transcendam a
mudez da página" (pág. 290, In: A linha que nunca termina, 2004). Para
Aleixo, "por mais que 'especialistas', 'letristas', literatos e bicões
entreguem-se a discussões bizantinas sobre as diferenças qualitativas
entre poesia e música, é fato inquestionável que no Brasil a canção
popular atingiu um nível de excelência raro, mesmo quando confrontada
com a de outros contextos" (pág. 292).
Depois
desta versão de Itamar Assumpção e Zélia Duncan (1998), a canção "Dor
elegante" já foi cantada por Edvaldo Santana (Edvaldo Santana, 2000),
Zélia Duncan e Naná Vasconcellos (Pré-pós-tudo-bossa-band, 2005),
Estrela Leminski (Leminskanções, 2014) e Chico César (Aos vivos agora,
2012). "Ver / é dor / ouvir / é dor / ter / é dor / perder / é dor // só
doer / não é dor / delícia / de experimentar", escreveu Paulo Leminski
em Caprichos & relaxos. "Viver vai ser a nossa última obra",
parodiou Itamar Assumpção parceiro de Leminski.
***
Dor elegante
(Paulo Leminski)
Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegasse atrasado
Andasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios édens analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo que me sobra
Sofrer vai ser minha última obra.