Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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23 agosto 2026
Feminino e linguagem
Em FEMININO E LINGUAGEM: INTINERÁRIOS ENTRE O SILÊNCIO E O TAGARELAR, Isabela Pinho parte do ensaio de Walter Benjamin “Metafísica da Juventude” (1913), traduzido pela primeira vez ao português pela autora (e conclusão/bônus do livro), maneja e potencializa o “tagarelar feminino” de Benjamin, o “experimentum linguae” de Agamben e a "lalíngua" de Lacan, a fim de conceber suas hipóteses, entre elas: "Se a língua pura é a 'língua que já não pré-supõe qualquer língua e que, tendo consumido em si todo pré-suposto e todo nome, não tem verdadeiramente mais nada a dizer, mas simplesmente falar' (Agamben), minha hipótese é a de que o tagarelar das personagens femininas do ensaio juvenil de Benjamin pode remeter à tal concepção de linguagem", lemos. "Uma das perguntas que move este livro é: como desativar o poder pressuponente da linguagem transmitido pela tradição da filosofia ocidental? A esta questão, outra vai se associar: o tagarelar feminino pode ser pensado como um modo de desativar o poder pressuponente da linguagem? É em busca de um pensamento não destinável, ou de uma fala que não mais queira dizer o indizível que Agamben se remete a Walter Banjamin e que remeto ao tagarelar feminino na 'Metafísica da juventude'", escreve Isabela. Tão impressionante quanto a erudição da autora é o modo de sua escrita fluida, madura, densa. O livro ressignifica o "tagarelar" a que o feminino, para além da categoria "mulher", sempre foi acusado. Aqui, silêncio não é silencioamento. "Esse outro tagarelar, ou esse outro modo de estar na linguagem, pode ser assinalado pela seguinte caracterização da fala dessas mulheres: 'mulheres falantes são possuídas por uma linguagem louca'", escreve e completa adiante: "Com Benjamin, a conversa das mulheres liberou-se do objeto e da linguagem, mas essa liberação parece estar referida somente a um determinado modo de estar na linguagem e, nesse sentido, parece apontar para outros modos possíveis". FEMININO E LINGUAGEM mostra a pesquisadora "à procura por um outro uso da linguagem". A revisão bibliográfica e o foco argumentativo impressionam. "Na 'Metafísica da Juventude', a linguagem feminina não somente é caracterizada como uma língua não comunicativa, mas também como uma língua 'loucachistosa', uma 'wahnwitzigen Sprache', fazendo uso da transcriação poética sobre a qual Benjamin nos fala em 'A Tarefa do tradutor'", escreve Isabela; e dialoga com um de meus autores de predileção: Haroldo de Campos (leitor de Lacan). Ao defender que "o tagarelar feminino constituiria, assim, a esfera não comunicativa da linguagem em que chistes, lapsos e equívocos se dão", Isabela torce o discurso e nos oferece um livro em que o tagarelar, à semelhança do sexo erotizado e sem fins de procriação, é gesto de desarticulação, digo, insubmissão.
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