Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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26 julho 2026
Arco da promessa
"Às vezes é solitário viver", "Eu que existindo / Tudo comigo depende só de mim". É analisando versos assim que Cláudia Fares desenvolve um potente ensaio sobre a obra de Caetano Veloso, tomada pela autora como sintoma da partilha do sensível comum brasileiro. O ARCO DA CONVERSA é um livro sobre a solidão e já no título, rasurando o verso "A tua presença / Mantém sempre teso o arco da promessa", aponta seu objetivo, ou seja, mostrar que em Caetano a solidão está abundantemente povoada de memórias, lugares, cores, nomes. "É isso que faz da solidão uma verdadeira 'atividade', aquela que, paradoxalmente, funda a possibilidade de estar juntos", escreve o professor Maffesoli na apresentação do livro. Para Fares, "Ao contrário de uma auto-suficiência charmosa feita de autonomia e de independência, a solidão mostra-se como a instância que os funda e nos lembra, todo o tempo, a nossa condição de seres incompletos, inacabados, e imperfeitos, que só se constituem numa relação ininterrupta com o outro". Por isso que, "Ter saudade até que é bom / É melhor que caminhar vazio", canta Caetano os versos de "Sonhos", de Peninha, de quem também canta "Tô me sentindo muito sozinho // Onde está você agora?", de "Sozinho". "A obra de Caetano Veloso oferece-se como um rico objeto de prospecção de nossa cultura. Em primeiro lugar, porque ela faz parte do contexto da música popular - umas das expressões culturais mais importantes do Brasil - e, em segundo lugar, porque ela se mostra como lugar que repercute os múltiplos movimentos do solitário em sua aventura dinâmica interior-exterior, quer dizer, em sua relação com o mundo", lemos. É essa repercussão que interessa a autora que, depois de fazer uma rigorosa revisão crítica do tema, entra na obra desse cancionista do "Eu sozinho / Só e solitário / Sob a chuva da Bahia" ("Lapa"). ARCO DA CONVERSA tem hipótese de tese original, desenvolvida com argumentos robustos e refinados, promovendo uma leitura atenta da obra do santamarense. "A terra natal é desde sempre dada nesta natureza [do solitário] ao mesmo tempo doadora e perigosa. A aventura coloca-se então como uma marcha sem fim através do que já é dado pelo mundo. E o que é já dado pelo mundo é a terra natal, banhada por seu pequeno e insignificante rio, que atravessa o coração do homem. O lugar que engendra o homem está, todo o tempo, brotando, manando e, assim, atravessando-o", lemos. "Meu trabalho é te traduzir", canta Caetano para Santo Amaro. Para Cláudia Fares, "a obra de Caetano Veloso se revela como exemplo de uma dicção cantadora em português da solidão", da "consciência de si consigo mesmo", diria Rosset.
19 julho 2026
Pensar nagô
Em PENSAR NAGÔ Muniz Sodré trata da "construção interessada" da filosofia ocidental e apresenta outras possibilidades de reflexão e ação. "O próprio conceito de 'Ocidente' (reprisado pelas elites dos povos colonizados, que inadvertida ou alienadamente se dão como 'ocidentais') é metáfora geográfica para uma narrativa destinada a consolidar a pretensão de domínio imperial (cultural e civilizatório) da Europa sobre o resto do mundo", lemos. O professor passa em revista os usos de termos como "logos", a fim de reivindicar outras conceituações e experiências. Ele lembra que "Coube à Idade Média europeia reduzir a ética aristotélica ao monoteísmo e converter o ideal cívico de bem supremo dos helenos (tal como o de eudaimonia ou “felicidade”) à ideia de essência divina. E assim, com roupagem teológica, aspirando a tornar-se uma bíblia laica, a filosofia tem-se reproduzido ao longo dos séculos nas academias, nas obras e nos sistemas de pensadores basilares". Dialogando com Roger Garaudy, Muniz pensa que a filosofia não é "uma pesquisa puramente intelectual", mas "uma maneira de viver", daí seu foco: "o sistema simbólico dos nagôs, último grupo étnico imigrado à força pelos escravistas brasileiros". Para Sodré, "de fato aquilo que a filosofia a designa, ou seja, a paixão de pensar, aconteceu e acontece também em formações sociais às quais, por efeito do espírito colonial, se negou a possibilidade de reconhecimento de um autônomo pensamento endógeno". PENSAR NAGÔ desmonta e reposiciona a estrutura epistemológica do saber tido, por exemplo, como "intuição" [e é revelador o entendimento de intuição no livro] pela filosofia ocidental. "O socioantropólogo francês Roger Bastide foi provavelmente o primeiro a vislumbrar na cosmogonia nagô, historicamente vivenciada pelas comunidades litúrgicas da diáspora africana (os terreiros de candomblé), 'um pensamento sutil, que é preciso decifrar'", lemos. Para Sodré, a "intuição", o "improviso" é resultado de iniciação lenta, longa, complexa, erudita na simbolização do terreiro, esse gaio saber se inscreve no corpo. "Assim como o Eros platônico não é mera entidade religiosa, mas o princípio motor de uma dinâmica que busca compensar por plenitude (poros) uma carência ou uma penúria (penia), os orixás nagôs são zelados como princípios cosmológicos contemplados no horizonte de restituição de uma soberania existencial", lemos e aprendemos.
12 julho 2026
Rua Cosme Velho 18
Adoro livros que me levam a outros livros, leituras que se desdobram, que viram pesquisa, anotação, texto. Estava lendo "Deus-dará", de Alexandra Lucas Coelho, quando vi a referência a um livro que registra o processo de restauro da mobília da casa onde moraram Joaquim Maria Machado de Assis e Carolina Novaes Machado de Assis: RUA COSME VELHO, 18. O narrador de Alexandra menciona a famosa carta de Joaquim Nabuco a Graça Aranha, em que lemos " (...) Lá se foi o nosso Machado! (...) Eu sou muito contrário à ideia de estátua. A estátua para ser digna dele teria que ser uma grande obra. A melhor ideia, grande demais pra nós, seria comprar a casa e conservar tudo tal qual. Essa é a maior prova de veneração da posteridade. Lembra-se da nossa visita à casa de Voltaire? O pensamento mais delicado desse gênero que eu saiba é o dos Americanos, que em Cambridge compraram o espaço defronte da casa de Longfelow, para conservar intacta a perspectiva que tinha o poeta". A carta de Nabuco revela nosso problema com a guarda da memória de nossas personalidades. Como sabemos, o gracioso chalé foi demolido. Quantos pesquisadores viajam a Europa e mesmo aos EUA e mesmo a outros países latino-americanos para visitar a casa (refúgio, espaço de criação e lugar de vivências) de poetas, escritores cuidadosamente cuidada e (sendo sempre esse o ponto) capitalizada? Pois bem, nem Machado de Assis teve esse "privilégio" entre nós. Mas achei o livro RUA COSME VELHO, 18. É uma delícia imaginar a circulação das pessoas da convivência de Machado e Carolina entre esses objetos, hoje de propriedade da UFRJ, mas em comodato na ABL. "As folhas das árvores, as cadeiras, os livros, os objetos, tudo dava conta de uma comunhão", escreve Alexandra. "O mobiliário machadiano reflete a tendência geral de 'importação do estilo francês'. Era construído no país, com madeira brasileira, por artífices nacionais ou estrangeiros residentes, mas seguindo a influência dos estilos europeus, com inserção apenas de sutis interpretações à maneira brasileira", anotam Luís Anselmo Maciel Filho e Ivan Coelho de Sá. E isso diz tanto do procedimento crítico do "bruxo do Cosme Velho".
05 julho 2026
João Gilberto e a insurreição bossa nova
"Relegada ao fundo do quadro, até por óbvia, já que transita também entre os primais samba e jazz, a ala afro da bossa nova é mandatária, embora nunca tenha sido destacada pelos historiadores. Vale lembrar que os batuques, mitos e rituais africanos vieram importados compulsoriamente nos corpos e almas dos negros escravizados, que aqui aportaram durante mais de três séculos". A anotação de Tárik de Souza dá o tom de um livro que debate a malfadada máxima de que a bossa nova é gênero branco, elitista e zonasulista carioca. JOÃO GILBERTO E A INSURREIÇÃO BOSSA NOVA é a história a contrapelo, uma abordagem crítica escrita por quem experimentou boa parte dos fatos. O conhecimento de Tárik é impressionante. "A bossa ficou tão popular que o pai do brega, o tenor de opereta Vicente Celestino (1894-1968), autor de canhonaços como 'O ébrio' e 'Coração materno' aventurou-se, em 1959, nas planícies de 'Se todos fossem iguais a você', clássico de Tom e Vinicius, lançado na peça 'Orfeu da Conceição'", lemos. No centro do debate está João Gilberto, baiano de Juazeiro. Sobre a pérola "Chega de saudade", "apesar da estrutura tradicional da composição, a gravação lançada em agosto de 1958 por João Gilberto, com sua emissão minimalista, de barítono propositivo mas discreto, levemente anasalada e, andrógina, iria promover uma hecatombe no acomodado mercado da época, e iniciar oficialmente a insurreição bossa nova. Tudo em apenas 1 minuto e 59 segundos", destaca Tárik. Desde a fusão samba e jazz de Johnny Alf, o livro JOÃO GILBERTO E A INSURREIÇÃO BOSSA NOVA evoca, homenageia e dá crédito a toda uma constelação de artistas de várias origens e assinaturas que construíram a mitologia bossanovista enquanto arte de exportação musical brasileira. "Aos que teimam em olhar a bossa nova pelo retrovisor, como peça de museu, a dificuldade de fechar este livro atesta contra. Desde que coloquei o ponto-final, não pararam de pipocar notícias envolvendo o gênero e seus artífices", escreve Tárik no Post Scriptum, deixando o recado de que ainda há muito para ser pesquisado e, quiçá, preconceitos enfrentados.
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