Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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16 agosto 2026
A polícia da memória
"Ainda assim, por que será que inventei de escrever um romance sobre uma datilógrafa? Eu quase nunca usei uma máquina na vida. Também não tenho nenhuma conhecida datilógrafa. É tão estranho... Há diversas partes do texto que fazem descrições detalhadas de máquinas de escrever. Diversas cenas em que as personagens datilografam". A reflexão é feita pela narradora de A POLÍCIA DA MEMÓRIA; e o tom metalinguístico, da narradora que estranha aquilo que narra, dá conta de uma narrativa em que, numa ilha, as coisas e as pessoas começam a desaparecer, sem que isso cause revolta ou tristeza - a apatia é brutal, o medo paralisa os ânimos e os afetos. Tudo se passa numa ilha em que cada habitante que resta vai também se tornando uma ilha e A POLÍCIA DA MEMÓRIA trata desse arquipélago de subjetividades dormentes. A narradora começa, portanto, a inventar sobre aquilo que ela não lembra - dos doces da infância à mãe artista, que conseguiu esconder em esculturas pequenos objetos que a polícia fez desaparecer. A metalinguagem está também nisso: como e o que escrever num ambiente dessensibilizado, onde a memória está recalcada? Sendo ela uma romancista, o momento de maior tensão poderia estar quando os livros desaparecem e até a biblioteca da ilha é queimada pela polícia, isso porque ela desaprende a escrever romance: "Uma noite, decidi me pôr a escrever. Tentei expressar como me sentia quando um oco era iluminado pela luz tênue do reconhecimento. Foi a primeira vez, desde o sumiço dos romances, que isso acontecia. Não sabia mais segurar o lápis direito", lemos. Porém, é quando ela vai perdendo partes do corpo que o livro de Yoko Ogawa atinge seu inesperado ápice dramático. R, editor da narradora, por não esquecer nada e, por isso, viver escondido, estimula a reaprendizagem: "Não é importante que tenha significado. O importante é a história que está submersa nas palavras. Neste momento, você está tentando trazer essa história à superfície. O seu coração está empenhado em recuperar as coisas sumidas", diz. E a história "submersa nas palavras" nos lembra autoritarismos, fascismos e extremismos da vida ordinária e não-ficcional. Como resistir? Como se manter atento e forte? Anunciado como distopia, a narrativa da japonesa Yoko Ogawa diz muito a nós latino-americanos e ao nosso histórico de repressão, controle e patrulha do imaginário; e que acontecem muitas vezes em forma de autocensura, conformismo, apatia, experiências que caracterizam os sucumbidos habitantes da ilha. Com tradução de Andrei Cunha, A POLÍCIA DA MEMÓRIA entretém e faz pensar, nos coloca diante de espelhos ideológicos; e faz da arte e da literatura um tempo e um espaço (ainda) de resistência.
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