Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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16 julho 2023
Candomblé de rua - O Bembé de Santo Amaro
Quando Caetano Veloso canta "Dia 13 de maio em Santo Amaro / Na Praça do Mercado / Os pretos celebravam / (Talvez hoje ainda o façam) / O fim da escravidão / Da escravidão / O fim da escravidão" evoca cenas vistas desde a infância em Santo Amaro da Purificação, evoca o Bembé do Mercado, festa negro-brasileira que acontece todo dia 13 de maio desde 1889, um ano após a tal assinatura de Zabé. Tradição engendrada pelo babalorixá João de Obá, Patrimônio Imaterial do Estado da Bahia, o Bembé do Mercado tem seus ritos e mitemas registrados em texto e imagens no livro CANDOMBLÉ DE RUA - O BEMBÉ DE SANTO AMARO, de Jorge Velloso. São textos e imagens que permitem a quem lê perceber as mudanças que a festa sofreu para que ela continuasse sendo festa: fresta no horror que foi (e é) a escravidão. "Tanta pindoba / Lembro do aluá / Lembro da maniçoba / Foguetes no ar", continua a canção de Caetano. Novas subjetividades e perspectivas se misturaram e ressignificaram o gesto político de Zabé. A festa saúda ou salda a princesa? Sendo a fé na celebração, o livro, que tem Apresentação assinada por Maria Bethânia, é um excelente documento de pesquisa para quem quer pensar as complexidades e as encruzilhadas da gente de um lugar onde “Zabé come Zumbi / Zumbi come Zabé”, como canta também Caetano noutra canção; de um Brasil que se realiza, pulsa, canta, chora e ri, à margem do Brazil. Leio, vejo as fotos do livro e lembro, por exemplo, do ethos do gaio saber da missa na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, do cheiro da Feira de São Joaquim, da baiana com cesto na cabeça num azulejo seiscentista do antigo Convento de Santa Teresa, hoje Museu de Arte Sacra, na cidade de Salvador. Tudo numa Bahia que, sem romantizar sua história, mas, pelo contrário, encarando essa história de frente, tem um jeito de Terra, chão, rua.
09 julho 2023
Forma e formação
Quando dois mestres conversam, a escuta do aprendiz é fundamental para a formação deste. É meu gesto durante a leitura e releitura de FORMA E FORMAÇÃO, livro resultado de uma conversa sobre a canção popular entre Luiz Tatit e Luís Augusto Fischer. Dois dos maiores pensadores disso que "não tem governo, nem nunca terá", mas que, por isso mesmo, guarda um gaio saber estimulador à reflexão, à crítica: s canção popular. Cada um a seu modo, Fischer e Tatit vêm desenvolvendo ao longo do tempo instrumentos que mais potencializam do que esquematizam a canção. Professores universitários, ambos ensinam a criar brechas nos muros da academia, pois tensionam "o mundo mais empírico com o mundo das abstrações e teorias", como escreve o não menos mestre mediador da conversa Guto Leite. FORMA E FORMAÇÃO passa em revista mais de três décadas de dedicação à linguagem artística mais popular do Brasil. "Havia uma espécie de comunhão da nossa vida cotidiana com aquela geração de cancionistas, que nos explicavam o mundo e nos educavam esteticamente", diz Fischer. "Lá por 1968-1969, saiu a primeira edição de Balanço da Bossa do Augusto de Campos. Para mim, a leitura dele foi fundamental para perceber como a canção poderia ser um objeto de reflexão", diz Tatit. Da formação individual ao debate sobre a "forma canção", o livro atravessa a história recente do país. Note-se: o livro é obra do Núcleo de Estudos da Canção da UFRGS, o que reforça a força dos desdobramentos do trabalho dos mestres. Se "de tudo se faz canção", como dizem Milton, Lô e Márcio, quem faz da canção objeto de trabalho precisa "atender ao mundo orecular" com um rigor específico - passar da fruição à reflexão. Com a generosidade dos mestres que são, Tatit e Fischer partilham as estratégias e os procedimentos para fazer isso.
02 julho 2023
Leitura de poesia
Reforço sempre: é cada vez mais raro encontrar textos que analisam poemas equilibrando ética e estética, forma e conteúdo. Entende-se que, no Brasil, as questões sócio-políticas se sobreponham sempre, mas é frustrante, no mínimo, que aquilo que caracteriza o poema, ou seja, o trabalho com a linguagem, fazer a linguagem "errar", seja desconsiderado na hora da leitura crítica do poema. Esse trabalho exige reflexão, é isso que faz o pensamento pensar. Pois, frequentemente, esquece-se que debater estética é debater ética. Por isso, mas não apenas, é sempre bom reler um livro como LEITURA DE POESIA, organizado por Alfredo Bosi, autor do incontornável, sobre o mesmo tema, "O ser e o tempo da poesia". Lançado em 1996, LEITURA DE POESIA reúne leitores críticos acadêmicos, a fim de tratar poemas de poetas do cânone - de Mário a Cabral, por exemplo, passando por Bandeira. Salvo "Cajuína", canção de Caetano Veloso, que recebe interpretação inspiradora de José Miguel Wisnik. Ao colocar esse texto no livro, Alfredo Bosi confronta a antiga, mas recorrente, querela entre poema de canção e poema de livro. Wisnik transcende a querela, evidentemente. De fato, cada convidado do livro mostra modos de leituras, possibilidades de entrada e saída do poema escolhido para ler. "O projeto do livro tem uma dupla dimensão: crítica, isto é, valorativa, enquanto os ensaístas se detiveram em textos que lhes pareceram dignos de atenção; e pedagógica, na medida em que se constata em esforço de tornar acessível a jovens iniciantes nas Letras a linguagem complexa da análise e da interpretação do poema", escreve Bosi na nota introdutória desse livro de cabeceira de quem lê, trabalho com, faz poesia.
25 junho 2023
Doces e bárbaros
Resultado de dissertação defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da Universidade Federal da Bahia, o livro DOCES E BÁRBAROS - UM ESTUDO SOBRE CONSTRUÇÕES DE IDENTIDADES BAIANAS apresenta o "acontecimento" nos campos da arte e da política que foi a turnê que em 1976 reuniu Maria Bethânia, Gilberto Gil, Gal Costa e Caetano Veloso. Cantor e pesquisador, Carlos Barros esmiúça com sensibilidade ímpar toda a cena em torno e no centro do palco ritualizado da turnê Doces Bárbaros. A repercussão midiática, o recrudescimento do preconceito - à esquerda e à direita - de tudo o que estava fora do eixo SP-RJ, mas, principalmente, apresenta como a performance dos artistas no palco e na vida ajudaram a desestabilizar o olhar equivocado sobre o ser "baiano". Termo que ainda hoje é usado pelos sudestinos como xingamento. Já na Apresentação lemos: "Temos elementos para supor que a Bahia guarda, nos seus contornos identitários, características de 'outros universos' que, por si, não seriam propriamente brasileiros, mas que passariam a sê-lo justamente pelo fato de estarem contidos na trama da identidade cultural baiana". Eis a trama que os quatro cavaleiros do após calipso colocaram em rotação, incomodando pensamentos supostamente progressistas, mas que apagavam territórios, gentes, histórias, passados. Baseado em teorias das Ciências Sociais, Carlos Barros mostra o futuro ancestral que os artistas baianos, logo, brasileiros, performaram na metade de uma década decisiva para a reflexão do que chamamos "cultura nacional".
18 junho 2023
Nada será como antes
Ana Maria Bahiana é dessas pessoas que viram germinar muito do que ainda hoje alimenta nossa cultura cancional. Com ouvidos livres e olhos atentos, Bahiana registrou shows, lançamentos de discos e acontecimentos que desestabilizaram e, ao mesmo tempo, formataram um certo ethos de nossa cultura, um ethos ancorado na experimentação, no risco, no inaugural, na profissionalização de nosso (quase) amadorismo. Alguns desses registros estão no livro NADA SERÁ COMO ANTES: MPB ANOS 70 - 30 ANOS DEPOIS. Fui reler o volume lançado em 2006 para um trabalho e novamente fiquei impactado com as miradas de Ana Maria junto com os artistas de uma década que se equilibrava entre o "princípio-esperança" e o "princípio-realidade". Quando o sonho acaba, urge re-sonhar! Os anos 1970 estilhaçaram certezas, abriram frestas. E o chamado "jornalismo cultural" teve papel fundamental no enfrentamento da censura, do mercado. A competência de Ana Maria de compreender a máxima do poeta Allen Ginsberg é evidente, a saber, “A poesia no sentido tradicional acabou. Ninguém se senta mais na poltrona da sala de estar para ler. O Rock é a nova poesia. É um retorno à poesia dos velhos tempos”. "Esse tal de Roque Enrow", como cantava Rita Lee em 1975 (no meio do redemoinho!), era o motor dessa juvenil sensibilidade à brasileira. E Ana Maria Bahiana estava lá e nos contou tudo com sabor. Destaca-se o diagnóstico perspicaz que a jornalista faz das obras de Rita Lee, de Cátia de França, de Sueli Costa, entre outras mulheres protagonistas re-orientadoras do ser e estar mulher na canção popular brasileira. NADA SERÁ COMO ANTES: MPB ANOS 70 - 30 ANOS DEPOIS, é crônica, é crítica, é prosa boa de ler.
11 junho 2023
Saia da frente do meu sol
O livro SAIA DA FRENTE DO MEU SOL guarda uma beleza rara: a sinceridade sem afetação. Felipe Charbel equilibra investigação intelectual (seu narrador lê, estuda, pesquisa enquanto escreve) e o que se convencionou chamar "escrita de si", com delicadeza e empatia pelo "fracasso" da empreitada de narrar o outro. Seja metaficção, seja "biografia especulativa", o que lemos é um narrador que se escreve escrevendo a vida de Ricardo, seu tio-avô. É tudo verdade e é tudo ficção. Sem conseguir inventar, o narrador imagina e expande as cenas capturadas em fotografias guardadas num armário. "Era como se a ânsia de inventar turvasse minha visão, me impedindo de assimilar o que se passava ao meu redor", escreve, inventando o que se passava ao redor, por trás, entre, dentro do Ricardo das fotos. "É ficção? Recorri à fantasia"; "Minha questão com as fotos do meu tio não passa pelo factual, pela reconstrução do acontecido". SAIA DA FRENTE DO MEU SOL singulariza o sujeito "comum", o tio velho e doente desconhecido que morava no quartinho dos fundos. O livro trata de algo pouco comum: a velhice do homem gay. "Como seria se fosse possível, naqueles dias, falar abertamente - e não aos sussurros - sobre essas questões mais íntimas?", pergunta-se o narrador sobre a solidão de Ricardo. (Silenciosamente, pergunto-me se o tio "esquisitão" um dia serei eu). "Tudo na história de Ricardo era uma página em branco". Por isso mesmo, o texto é composto por enxertos, citações, descrições, contos dentro de contos, anotações, constituindo-se, assim, a forma possível de se aproximar do outro: aos cacos. "A alteridade é, antes de mais nada, um necessário exercício de autocrítica", escreveu Haroldo de Campos. "O que vejo na foto quando olho para ela?", pergunta-se Charbel a cada mexida no arquivo, na memória, na fantasia. O que vejo no outro quando olho para ele?, parece querer nos fazer perguntar. E perguntamos.
04 junho 2023
Eu. E. Cummings
Com poemas cantados de Ana Carolina a Zeca Baleiro, talvez não seja exagero dizer que Edward Estlin Cummings está na boca do brasileiro. e. e. cummings compõe o paideuma dos poetas concretos, assim como os procedimentos dos poetas concretos são referências importantes para a poesia de Paulo de Toledo. Também tradutor, Toledo se utiliza do conceito de transcriação para nos re-apresentar cummings, poeta traduzido por Augusto de Campos, vide o livro "40 poem(a)s". Desse modo, o livro EU. E. CUMMINGS brinca com essa ciranda de (auto)referencialidades extra, intra e intertextuais do poeta e da poética cummingsiana. Usando sua notável verve irônica de matriz oswaldiana, Toledo inscreve a si quando reescreve cummings. "Além do jogo de palavras com o nome de cummings, o título foi motivado por ser um livro de um 'amador', de um tradutor não-especialista, de alguém que faz porque ama. Daí o 'Eu' do título se refere à relação afetiva entre o tradutor - que há mais de 20 anos tenta verter para o português a 'tortografia' cummingsiana - e o genial poeta", lemos na apresentação. As soluções transcriativas são eficazes e destacam a dificuldade da "tortografia" e a beleza da poesia singular, com seu lirismo moderno, carregado de pesadelos: "and is it dawn / the world / goes forth to murder dreams" fixa-se "e é o alvorecer / o mundo / se encaminha para sonhos assassinos"; ou "-after which our separating selves become museums / filled with skilfully stuffed memories" fixa-se "-após o que nossos eus separados tornam-se museus / repletos de memórias habilmente empalhadas". A autodeclara não-especialidade de Paulo de Toledo permite a ele experimentar as palavras aglomeradas, os eus urbanos de cummings, suas inquietações: "to hell with literature / we want something redblooded" fixa-se "pro inferno com a literatura / queremos algo que pingue sangue". E não é isso que a literatura quer? "something authentic and delirious" [algo autêntico e delirante]? Isso o livro EU. E. CUMMINGS nos dá.
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