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26 julho 2026

Arco da promessa


"Às vezes é solitário viver", "Eu que existindo / Tudo comigo depende só de mim". É analisando versos assim que Cláudia Fares desenvolve um potente ensaio sobre a obra de Caetano Veloso, tomada pela autora como sintoma da partilha do sensível comum brasileiro. O ARCO DA CONVERSA é um livro sobre a solidão e já no título, rasurando o verso "A tua presença / Mantém sempre teso o arco da promessa", aponta seu objetivo, ou seja, mostrar que em Caetano a solidão está abundantemente povoada de memórias, lugares, cores, nomes. "É isso que faz da solidão uma verdadeira 'atividade', aquela que, paradoxalmente, funda a possibilidade de estar juntos", escreve o professor Maffesoli na apresentação do livro. Para Fares, "Ao contrário de uma auto-suficiência charmosa feita de autonomia e de independência, a solidão mostra-se como a instância que os funda e nos lembra, todo o tempo, a nossa condição de seres incompletos, inacabados, e imperfeitos, que só se constituem numa relação ininterrupta com o outro". Por isso que, "Ter saudade até que é bom / É melhor que caminhar vazio", canta Caetano os versos de "Sonhos", de Peninha, de quem também canta "Tô me sentindo muito sozinho // Onde está você agora?", de "Sozinho". "A obra de Caetano Veloso oferece-se como um rico objeto de prospecção de nossa cultura. Em primeiro lugar, porque ela faz parte do contexto da música popular - umas das expressões culturais mais importantes do Brasil - e, em segundo lugar, porque ela se mostra como lugar que repercute os múltiplos movimentos do solitário em sua aventura dinâmica interior-exterior, quer dizer, em sua relação com o mundo", lemos. É essa repercussão que interessa a autora que, depois de fazer uma rigorosa revisão crítica do tema, entra na obra desse cancionista do "Eu sozinho / Só e solitário / Sob a chuva da Bahia" ("Lapa"). ARCO DA CONVERSA tem hipótese de tese original, desenvolvida com argumentos robustos e refinados, promovendo uma leitura atenta da obra do santamarense. "A terra natal é desde sempre dada nesta natureza [do solitário] ao mesmo tempo doadora e perigosa. A aventura coloca-se então como uma marcha sem fim através do que já é dado pelo mundo. E o que é já dado pelo mundo é a terra natal, banhada por seu pequeno e insignificante rio, que atravessa o coração do homem. O lugar que engendra o homem está, todo o tempo, brotando, manando e, assim, atravessando-o", lemos. "Meu trabalho é te traduzir", canta Caetano para Santo Amaro. Para Cláudia Fares, "a obra de Caetano Veloso se revela como exemplo de uma dicção cantadora em português da solidão", da "consciência de si consigo mesmo", diria Rosset.

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