Pesquisar canções e/ou artistas

27 outubro 2024

Vozes plurais


Em 2014, eu tinha acabado de entregar a tese de doutorado à banca, quando chegou à minha mão o livro VOZES PLURAIS, de Adriana Cavarero. Senti um misto de frustração e alegria, pois muito do que eu estava pensando sobre a revocalização do logos, via cancioneiro nacional, a filósofa italiana elaborara muito melhor, via revisão crítica da filosofia ocidental. Sem dúvidas, a tese teria outros encaminhamentos, caso essa leitura tivesse sido feita antes. Cavarero sacode a poeira do tempo sobre conceitos e preconceitos fundados desde Platão. "O processo de descarte da voz se conclui já em Aristóteles, que define a linguagem em função de sua capacidade semântica e que estabelece o limite entre homem e animal exatamente pelo fato de o primeiro possuir linguagem (phoné semantiké), enquanto ao outro restaria apenas voz (phoné) sem poder de significação, mera sinalizadora de afecções", escreve o tradutor Flavio Terrigno Barbeitas. De fato, Cavarero embaralha essas instâncias, analisando mitologias desde Jacó, Funes, Íon, Calvino, Musas, Sereias, Cixous, Kristeva, Arendt, em busca de uma "política das vozes", da unicidade, da revocalização do logos. Sendo isso o que mais me interessava à época. E ainda agora. "Indomesticável, a voz feminina do canto abala o sistema da razão e nos arrasta 'para outro lugar'. Potencialmente mortal e veículo para 'outro mundo', ela leva o prazer ao limite do suportável", escreve Cavarero. Por essas e outras miradas, VOZES PLURAIS é livro que não sai de minhas referências bibliográficas.

20 outubro 2024

Educação nos terreiros


Se eu pudesse indicar um livro aos meus colegas professores, especialmente aos de ensino fundamental, e que este livro entrasse como leitura fundamental nas grades curriculares, indicaria EDUCAÇÃO NOS TERREIROS. Aqui a professora Stela Guedes Caputo escreve sobre como a escola se relaciona com crianças do candomblé, consequentemente, com questões raciais. Não bastassem a excelência da pesquisa e a qualidade do texto, a autora trata de um tema urgente às questões de tolerância religiosa no Brasil. Lemos numa das orelhas do livro: "Senti o preconceito desde muito cedo. Aos 6 anos de idade vi ser publicada uma foto minha numa matéria da 'Folha Universal' intitulada 'Os netos do demônio'. O efeito desta matéria foi arrasador. Me senti excluído por muitos amigos no colégio onde estudava, e essa é uma fase da infância que até hoje procuro esquecer", escreveu Ricardo Nery. Essa e outras histórias são apresentadas e analisadas com sensibilidade e crítica socioeducativa. A autoestima das crianças também é tema do livro EDUCAÇÃO NOS TERREIROS, diante das discriminações que levam a rejeição da religião de matriz africana. O diagnóstico é duro, haja vista a expansão do domínio político neopentecostal. Stela Guedes Caputo promove reflexões importantes sobre educação antirracista.

13 outubro 2024

A primeira pedra


Pedro Machado abre A PRIMEIRA PEDRA com epígrafes que dão o tom e o ritmo das narrativas do livro. O trecho do Evangelho de João em que Jesus diz “aquele de vocês que nunca pecou atire a primeira pedra”, o poema de Cruz e Sousa em que o eu-lírico assume a voz de Jesus e diz ao destinatário “sei que cruz infernal prendeu-te os braços” e o trecho de texto de João do Rio em que se lê sobre um pastor que “sonhava com o domínio temporal e a Câmara dos Deputados” são os motes trabalhados por Pedro ao longo de 14 narrativas. Essa consciência no uso das epígrafes é fundamental, por exemplo, para entender as pedreiras que os personagens precisam quebrar para ser e estar no mundo, pois serve de dispositivos para leituras de textos cujos títulos são “Jesus Negro”, “Vó Benedita”, “Jerusalém Desolada”, “Todos contra Sara”, “Pele Sagrada”. Se os contos podem ser lidos no modo aleatório, a sequência montada pelo autor cria uma narrativa em que uma história insemina a seguinte e faz com que a “pedra” do título do livro seja a protagonista. As personagens de Pedro Machado têm como emblema o humano cotidiano de quem faz do morro carioca o monte Sião. O ethos religioso é o tempo e o espaço por onde os personagens negros evangélicos e ex-evangélicos transitam. Do primeiro conto ao derradeiro diálogo do livro há um coro de vozes dissonantes cantando a dificuldade e a glória de estar vivo. Jeferson, Josué, Jeremias, Jonas, Davi, Josias, Salomão são homens-de-fé apresentados por Pedro Machado sem o véu do exotismo e do voyeurismo que por tanto tempo ainda encobre corpos e subjetividades negros obrigadas a “disciplinar sua alma à força”.

06 outubro 2024

Retorno a Reims


Autor do importante livro "Reflexões sobre a questão gay", em RETORNO A REIMS Didier Eribon expõe o périplo - a transformação da vergonha em orgulho - que fez do menino filho de operário um dos intelectuais mais respeitados em sua área. Gay e trotskista de formação, Eribon passa em revista todas as contradições internas dessa tensão. Observando o que fez a "esquerda deixar de ser esquerda", ou seja, o aburguesamento da classe operária (e classe é o mote do livro, ao lado da sexualidade), ele escreve: "devo confessar que o marxismo a que aderi durante meus anos de estudo, assim como meu engajamento esquerdista, não eram talvez mais do que uma maneira de idealizar a classe operária". E, mais adiante: "Raramente se fala dos meios operários, mas, quando se fala, é em geral porque se saiu deles e se está feliz de deles se ter saído, ele é reinstalado na ilegitimidade social daqueles sobre quem se fala no momento em que se deseja falar deles, precisamente para denunciar - mas com uma distância crítica necessária, e portanto com um olhar avaliador e ajuizador - a posição de ilegitimidade social à qual eles são incansavelmente remetidos". Eribon fala da França, mas poderia estar falando de Brasil. RETORNO A REIMS nos lembra que, sim, classe determina quem pode ter acesso ou não aquilo que a cultura determina como "desejo". "Eles desejavam ardentemente possuir todos os bens de consumo do momento", escreve sobre os pais; "a pretexto de renovar o pensamento de esquerda, trabalhavam para apagar tudo o que fazia da esquerda a esquerda", escreve sobre notários intelectuais neoconservadores. A autocrítica atravessa o livro, Didier Eribon revela os métodos de seu autoaburguesamento, método replicado, por exemplo, por Édouard Louis. E propõe: "A tarefa que cabe aos movimentos sociais e aos intelectuais críticos é portanto: construir cenários teóricos e modos de percepção políticos da realidade que permitam, não eliminar - tarefa impossível -, mas neutralizar o máximo possível as paixões negativas operantes no corpo social e especialmente nas classes populares; oferecer outras perspectivas e assim esboçar um futuro para aqueles que poderiam se designar, novamente, de esquerda", na tradução de Cecilia Schuback. Se é impossível retornar, é urgente refundar(-se).

29 setembro 2024

Efrain Almeida


A obra de Efrain Almeida comove desde o primeiro contato. O lirismo de suas esculturas remete-nos a uma quietude anterior à civilização (à destruição do "natural") e a um universo mitológico irrestituíveis. Suas peças são ex-votos à natureza das coisas e do ser - sejam os passarinhos e insetos que parecem empalhados espalhados no chão cru de uma galeria, sejam os colibris cujo voo estaciona porque o bico está preso. Esse lirismo evoca o interior de um Brasil tropical e desértico, vasto, preservado na memória de quem experimentou o lugar geográfico chamado Norte-Nordeste. A artesania irreprodutível das autoesculturas do artista, que de tão mínimas lembram o tamanho do Homem diante da imensidão da existência coletiva, traduz os biografemas relacionados ao corpo, à sexualidade e à religião de quem habitou esse lugar. "Sobre o lado ímpar da memória  / o anjo da guarda esqueceu / perguntas que não se respondem", escreveu João Cabral. Por isso, não há saudosismo nem desejo ingênuo de restituição, mas sim gesto contundente com foco no silêncio preso nas gargantas ruidosas na modernidade. "Assentados de modo esparso sobre paredes amplas, bases largas ou folhas brancas, esses trabalhos têm o tamanho do que a mão acolhe e solicitam a aproximação do olho para serem vistos. Voltados para o espectador em busca de cumplicidade, parecem entregar sempre algo - ou a si mesmos - em oferenda, assumindo um tom confessional e sedutor que confunde - de modo medido e insinuado, mas insistente - religiosidade e erotismo", escreve Moacir dos Anjos no texto monográfico que compõe o livro EFRAIN ALMEIDA lançado pela Cobogó em 2010 com imagens dessa obra até aquele momento. E Efrain continuou criando e inventando até 2024. Ocupando galerias, bienais, feiras e demais espaços do mercado de arte, as peças (os pedaços) de Efrain Almeida focam na vigília daquilo que não cabe nesses lugares de consagração. "Eu preciso de minhas memórias. Elas são meus documentos. Eu as vigio", diz Louise Borgeois na epígrafe do livro - dando-nos a chave para essa poética cúmplice do "lado ímpar da memória", singular, autoral, comovente.

22 setembro 2024

Ar de provença


Sempre que Augusto de Campos assina algo toda uma imensa tradição de poesia se movimenta junto, oxigenando o labor com (e a reflexão sobre) a palavra poética. E a relação de Augusto com a tradição tem raízes profundas na música. Por exemplo, foi de texto de canção do trovador provençal Arnaut Daniel que os poetas concretos brasileiros pinçaram e ressignificaram o termo "noigrandes" - "(...) olors de noigandres" característica de flor [de noz moscada?] cujo perfume liberta-nos do tédio [olors (perfume), enoi (tédio), gandres (do verbo gandir, libertar)]. Incorporado ao vocabulário e à prática poética, o termo deu nome à revista que Augusto, Haroldo de Campos e Décio Pignatari editaram em 1952 e ao grupo depois composto também por Ronaldo Azeredo e José Lino Grünewald. Desde então, Augusto de Campos tem desempenhado o trabalho de revocalizar (recolocar na voz; transcriar) textos que, vocais em seus contextos de criação, hoje acessamos apenas impressos nas páginas de livros raros. AR DE PROVENÇA é exemplo disso. No CD encartado ou por Código QR podemos ouvir cantos (na voz de Antoni Rossell) e oralizações (na voz de Augusto) de duas canções de Arnaut Daniel (que "adotou um modo de trovar em rimas raras, razão por que suas canções não são fáceis de entender nem de aprender"), uma de Marcabru ("temido pela sua língua, pois dele era tanto o maldizer") e uma de Bernart de Ventadorn ("pobre de nascimento (...) sabia cantar e trovar bem e tornou-se cortês e instruído") - todas traduzidas por Augusto de Campos. A bela edição que a editora Cobalto preparou para AR DE PROVENÇA reedita textos, traduções, intraduções e imagens singulares para a compreensão da poesia inventiva e experimental brasileira. Destaquem-se ainda a flauta de Valeria Bittar, a rabeca de Luiz Fiaminghi e a parceira sempre potencializadora de belezas entre Augusto e o produtor musical Cid Campos.

15 setembro 2024

Soneto, a exceção à regra


Um livro com a assinatura de André Capilé e Paulo Henriques Britto já nasce referência. O equilíbrio entre erudição (o conhecimento) e comunicação (digna dos mestres que são) faz de SONETO, A EXCEÇÃO À REGRA um livro obrigatório na mesa de quem trabalha, faz, estuda poesia no Brasil. Capilé e Paulo mostram que forma é conteúdo e que "não há uma forma fixa do soneto quando olhamos para o contexto brasileiro na composição desse tipo de poema", conforme escrevem. A seleção dos sonetos lidos dá conta dessa diversidade, das apropriações, das rasuras. Algo cada vez mais raro, o corpo a corpo com cada soneto, esse "modelo duro do cânone, por si só tão masculino, tão branco", cria um conjunto de pequenas/grandes aulas de leitura de poesia. Mas o uso do ouvido guarda o segredo da eficácia das leituras de Paulo e Capilé, também poetas e tradutores. "Outro elemento sonoro, que ouvidos distraídos podem deixar passar, é o tema dos sons nasais que atravessam quase todo o texto, um jogo constante que na estrofe final deixa só o cheiro [aroma], incidindo alguma abertura do gritante /a/ de 'amargos', 'capros', letargos', 'luar' que, no fim, se fecha em 'tuberculoso'", escrevem na leitura de "Lésbia", de Cruz e Sousa. E que beleza a leitura de "Soneterapia 2", de Augusto de Campos! "O poeta toma de empréstimo catorze versos combinando a tradição das poéticas escritas e da canção, amarrando o grande tema do amor finito à língua de formação", escrevem. A lição de combinar tradição e revisão crítica da estrutura dos poemas é praticada com excelência por André Capilé e Paulo Henriques Britto.