Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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13 setembro 2026
Caderno de poesias
Sendo raras as composições que assina, Maria Bethânia é conhecida por coassinar as canções que canta pela performance, pela incorporação em cena dos sujeitos cancionais das letras e das melodias. Em entrevista ao jornal O Globo em 24 de abril de 1973, a intérprete afirmou que “Como cantora tenho uma responsabilidade muito grande, porque escolho o que vou cantar. Ao cantar, estou fazendo o mesmo trabalho que o compositor. Minha responsabilidade é com a escolha, com o modo de cantar”, confirmando que quem canta coassina a obra. Mas essa responsabilidade com a escolha também pode ser apreendida no livro CADERNO DE POESIAS, em que Bethânia, como costuma fazer no palco, costura uma pletora de citações, trechos, excertos de poemas, prosa e letras que, em sua maioria, giram em torno da metalinguagem, ou seja, tratam do ofício da palavra poética (cantada e escrita). "Sob a forma do fragmento, seu texto tem a peculiaridade de deslocar a poesia do livro e a poesia cantada de seus enunciados originais, de modo a reordenar esses enunciados em novas relações e integrá-los em um novo texto, inteiriço, dotado de significação própria e reinventado em seu entendimento inicial das coisas", escreve Heloisa Maria Murgel Starling no texto de abertura do livro: "Maria Bethânia: intérprete do Brasil". De fato, o termo intérprete ganha sentidos próprios aqui, diz respeito aos cortes, aos enxertos, às montagens que resultam que interpretação que Bethânia engenha, prática que ela parece ter aprendido nos desierarquizados sambas de roda do Recôncavo Baiano. Em CADERNO DE POESIAS, João Cabral convive com Nelson de Oliveira, professor de português da cantora e autor do primeiro poema musicado por Caetano Veloso: "Ciclo" - "Em suas aulas, além de didática, aprendia-se a ouvir, ler e dizer poesia", escreve Bethânia; Clarice Lispector convive com Mabel Velloso; Padre Antonio Vieira convive com Antonio Vieira, autor de "Poesia", cujos versos "Os nomes dos poetas populares / Deveriam estar na boca do povo" parecem ser o mote do livro de Maria Bethânia, uma excelente antologia feita de emoção e escolhas afetivas e que entrega o mel do melhor de nossas letras.
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