Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
Pesquisar canções e/ou artistas
27 outubro 2024
Vozes plurais
Em 2014, eu tinha acabado de entregar a tese de doutorado à banca, quando chegou à minha mão o livro VOZES PLURAIS, de Adriana Cavarero. Senti um misto de frustração e alegria, pois muito do que eu estava pensando sobre a revocalização do logos, via cancioneiro nacional, a filósofa italiana elaborara muito melhor, via revisão crítica da filosofia ocidental. Sem dúvidas, a tese teria outros encaminhamentos, caso essa leitura tivesse sido feita antes. Cavarero sacode a poeira do tempo sobre conceitos e preconceitos fundados desde Platão. "O processo de descarte da voz se conclui já em Aristóteles, que define a linguagem em função de sua capacidade semântica e que estabelece o limite entre homem e animal exatamente pelo fato de o primeiro possuir linguagem (phoné semantiké), enquanto ao outro restaria apenas voz (phoné) sem poder de significação, mera sinalizadora de afecções", escreve o tradutor Flavio Terrigno Barbeitas. De fato, Cavarero embaralha essas instâncias, analisando mitologias desde Jacó, Funes, Íon, Calvino, Musas, Sereias, Cixous, Kristeva, Arendt, em busca de uma "política das vozes", da unicidade, da revocalização do logos. Sendo isso o que mais me interessava à época. E ainda agora. "Indomesticável, a voz feminina do canto abala o sistema da razão e nos arrasta 'para outro lugar'. Potencialmente mortal e veículo para 'outro mundo', ela leva o prazer ao limite do suportável", escreve Cavarero. Por essas e outras miradas, VOZES PLURAIS é livro que não sai de minhas referências bibliográficas.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário