Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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24 setembro 2023
Rita Lee & Tutti Frutti - Santa Maria, Maio de 1978
No livro RITA LEE & TUTTI FRUTTI, SANTA MARIA, MAIO DE 1978, Gérson Werlang parte de uma experiência pessoal, estar na plateia do show da turnê do disco Babilônia, na cidade de Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul, em maio de 1978, para apresentar uma crônica cultural e de costumes envolvendo a década (de revoluções por minuto, ou milênios?) de 1970. Werlang restitue com primores de detalhes a cena, o contexto, o clima de um "tempo irradiado", feito de "rage, rage against the dying of the light", como diz Dylan Thomas numa das epígrafes do livro. No mesmo poema, Thomas faz referência a "wild men who caught and sang the sun in flight". E não é essa a completa tradução de Rita Lee? Na crônica ensaística de Gérson Werlang ficamos mais íntimos dessa poética, pois o autor repassa o percurso artístico e pessoal de Rita até o tão aguardado show babilônico: no começo, "a eletricidade pairava no ar, como se uma descarga estivesse por vir"; no final, "fogos de artifício imaginários podem ter brindado aquele momento". Com fotografias e relatos luminosos do tempo e do espaço da experiência, o autor nos lembra que "resta a sensação cósmica de que, no passado, vive o futuro. Só não podemos deixá-lo ir, só não podemos esquecê-lo". O livro é uma fábula rock'n'roll setentista contra o esquecimento de um momento singular da ebulição cultural de nosso país.
17 setembro 2023
América Latina em sua literatura
AMÉRICA LATINA EM SUA LITERATURA tem coordenação e introdução de César Fernández Moreno e reúne textos preciosos para pensar o tema do livro, "resultado de um vasto projeto da UNESCO de estudar a cultura universal na especificidade de seus conjuntos culturais". Podemos ler textos de Antônio Houaiss, Emir Rodrígues Monegal, Ramón Xirau, Severo Sarduy (e seu brilhante ensaio "O barroco e o neobarroco"), Fernando Alegría, Haroldo de Campos (e seu texto "Ruptura dos gêneros na literatura latino-americana"), Antônio Cândido (com o fundamental texto "Literatura e subdesenvolvimento"), José Guilherme Merquior, Lezama Lima (e o "Imagem da América Latina", tratando do canto coral que a poesia entoa na história americana) e outros. É livro de cabeceira, de consulta, de revisão, de provocações que rompem e permanecem como questões importantes para a mirada no espelho. "No centro da história americana, no quincunce do espaço incaico, continua ganhando as mais decisivas batalhas pela imagem, as secretas pulsações do invisível para a imagem, tão ansiosa de conhecimento como de ser conhecida", escreve Lezama. À América!
10 setembro 2023
Corpo a corpo com o texto na formação do leitor literário
"No lugar de ser objeto de prazer e de permitir o desenvolvimento espiritual, a literatura transformou-se em problema, complicação, objeto de temor". O diagnóstico feito por Suzi Frankl Sperber no prefácio do livro CORPO A CORPO COM O TEXTO NA FORMAÇÃO DO LEITOR LITERÁRIO dá o mote daquilo que a professora Eliana Kefalás glosa, a saber, uma resposta à pergunta: "como favorecer a experiência no ato de leitura, se existe uma tendência ao engessamento, à automação das ações, e o temor do texto, da dificuldade (fantasiada) do texto, cuja dificuldade reside em sua beleza, no uso ímpar da linguagem?". No ensaio da resposta a autora dá uma bela aula-oficina sobre o tema "performance", palavra muito usada de modo irresponsável em nossos dias, sem a força que o conceito por trás da palavra tem. Kefalás parte dos estudos incontornáveis de Paul Zumthor, passa pela restauração da "experiência" benjaminiana e chega a encaminhamentos teóricos e práticos luminosos para quem lida com o corpo a corpo do texto em sala de aula, ou seja, na vida. Kefalás lembra que o conceito "performance" tem longa tradição crítica e parece ter tomado para si a responsabilidade cantada pelo poeta santamarense Antonio Vieira: "Os nomes dos poetas populares / Deveriam estar na boca do povo / No contexto de uma sala de aula / Não estarem esses nomes me dá pena". Sem simplificações de tema tão complexo, a autora coloca o nome e o poema na voz de quem lê.
03 setembro 2023
Sousândrade vida e obra
Lançado em 1976, o livro SOUSÂNDRADE: VIDA E OBRA ainda é a biografia mais bem acabada do poeta maranhense Joaquim de Sousa Andrade. A fusão proparoxítona com que o poeta assinava suas obras dá o tom da invenção e da originalidade dessas obras. Amálgama, mistura, montagem, palimpsesto, fragmento são palavras-chave importantes da poesia sousandradina. Poeta sempre à espera de leituras à altura de sua grandeza, para Camilo Castelo Branco, o autor de O Guesa foi "o mais estremado, mais fantasista e erudito poeta do Brasil". Nessa biografia, com uma introdução de Jorge de Sena, o professor Frederick Williams, que, ao lado de Jomar Moraes, foi responsável por recolher e estabelecer a poesia de Sousândrade, nos apresenta as contradições da voz inquieta que viveu por trás da voz da persona poética. A qualidade do trabalho de pesquisa, cotejo e crítica de Willians é inspirador. Fotos, documentos, trechos de textos são armados para compor a personagem desconhecida. "Um importante aspecto da originalidade de Sousândrade está no tratamento do escravo africano como figura literária. O poeta se inscreve não só entre os primeiros a abordarem tal assunto, como antecipa em vinte anos os poetas abolicionistas", anota Williams. Fato é que, tendo criado em trânsito, entre São Luís, Londres e Nova York, Sousândrade estetizou com "lubricidade realista" a malfadada brasilidade como ninguém.
27 agosto 2023
A solidão tropical
A epígrafe do livro A SOLIDÃO TROPICAL é precisa daquilo que será lido: "quem pretende se aproximar do próprio passado soterrado deve agir como um homem que escava. Antes do tudo, deve espalhá-lo como se espalha a terra, revolvê-lo como quem revolve o solo", de Walter Benjamin, em "Rua de mão única". Desde aí até as considerações finais sobre o modo como José de Alencar, "atento e polêmico, de seu gabinete flanou por terras próximas e distantes, povoando com a imaginação o imenso território da solidão brasileira", a autora Lúcia Helena questiona as fundações da identidade nacional no Romantismo brasileiro. Como pode um brasileiro encontrar-se consigo mesmo? A questão atravessa os textos do livro, enredando quem lê na trama artificial de nossa singularidade, pensando uma literatura a serviço do Brasil e para os brasileiros. O que isso significa de apagamento e ruína? O que uma obra contém de seu tempo e como essa contenção a coloca no cânone literário? Qual é a importância do Romantismo para a emergência e permanência do critério nacionalista na construção do cânone literário brasileiro? Quais os diálogos entre historiografia oitocentista e historiografia modernista? Essas e outras perguntas cruciais são postas e enfrentadas com originalidade e rigor. A SOLIDÃO TROPICAL emula aqui que Joaquim Nabuco anota em "Minha formação": "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou".
20 agosto 2023
Totens e tabus da modernidade brasileira
A professora Lucia Helena é dessas pessoas que podem, sem pejo, dizer "quando cheguei aqui era tudo mato". O "aqui", no caso, é a "vida acadêmica". Desde o radical e luminoso, porque ensaia resposta à pergunta "como pode um brasileiro encontrar-se consigo mesmo?", sob o título "A solidão tropical: o Brasil de Alencar e da modernidade", até textos sobre autores mais contemporâneos, passando pelo incontornável "Nem musa nem medusa: itinerários da escrita em Clarice Lispector" e o "A cosmo: agonia de Augusto dos Anjos" (acho que o primeiro que li, por se tratar de escritor meu conterrâneo), todos são livros de referência, partem de hipóteses originais, antecipam muito do que ainda hoje é mote de teses e cursos nas Letras. Destaco TOTENS E TABUS DA MODERNIDADE BRASILEIRA: símbolo e alegoria na obra de Oswald de Andrade porque, além de ser o resultado da tese de doutorado da professora Lucia Helena, acabo de orientar uma dissertação sobre o poeta modernista e a releitura deste livro está fresca na mente. Concordemos ou não com suas reflexões, a "vitalidade ensaística" da autora, como destaca o professor Eduardo Portella na Apresentação, é inspiradora e demonstra o equilíbrio entre rigor e afeto com que devemos enfrentar criticamente o corpus literário, a "secura anti-lírica e paródica" do homem do pau-brasil. Sem medo, nem esperança, a voz ensaística de Lucia Helena tem uma certa liberdade que hoje nos falta na "vida acadêmica" pautada pela produtividade acrítica.
13 agosto 2023
Uma literatura antropofágica
No livro "Verdade tropical" (1997), Caetano Veloso escreve que "(...) são poucos os momentos na nossa história cultural que estão à altura da visão oswaldiana. Tal como eu a vejo, ela [a ideia do canibalismo cultural] é antes uma decisão de rigor do que uma panaceia para resolver o problema de identidade do Brasil. A poesia límpida e cortante de Oswald é, ela mesma, o oposto de um complacente 'escolher o próprio coquetel de referências'. A antropofagia, vista em seus termos precisos, é um modo de radicalizar a exigência de identidade (e de excelência na fatura), não um drible na questão". Em alguma medida, é exatamente isso que a professora Lucia Helena antecipa e investiga no livro UMA LITERATURA ANTROPOFÁGICA (1982), ou seja, a autora responde o que o adjetivo significa, sem drible no tabu da "dependência cultural". Tomando a antropofagia enquanto ethos da nossa literatura e vertente de nossa cultura, Lucia Helena mapeia e analisa a poesia atribuída a Gregório de Matos, a poesia de Augusto dos Anjos e Mário e Oswald de Andrade (além dos manifestos e do teatro desse, e do Macunaíma daquele), a fim de defender a antropofagia enquanto dicção carnavalizante nossa, muito nossa.






