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08 junho 2025

O tropo tropical


"Os tropicalistas percebiam que a 'ditadura era uma expressão do Brasil'". O diagnóstico feito por Caetano Veloso em Verdade tropical reverbera no livro O TROPO TROPICALISTA, em que que João Camillo Penna, leitor de Hélio Oiticica anota: "O tropo tropical consistiria nessa devoração antropofágica de nosso próprio vazio, instalando em seu lugar a figura ameríndia e negro-africana, o 'estado brasileiro da arte'". O TROPO TROPICALISTA é um longo ensaio denso e fluido, como o corpus que analisa e debate: a cultura brasileira e suas respostas ao autoritarismo de estado. "Como se vê, o mito da tropicalidade é muito mais do que araras e bananeiras: é a consciência de um não condicionamento às estruturas estabelecidas, portanto altamente revolucionário na sua totalidade", escreveu Hélio. Por sua vez, tensionando a interpretação que Roberto Schwarz fez do livro de memórias de Caetano, João Camillo Penna observa que "Ao contrário do que quer Schwarz, o capítulo da prisão talvez seja o capítulo mais político do livro". Ainda para João, "O duplo endereço do mote 'é proibido proibir' – ao mesmo tempo ao autoritarismo do regime militar e ao 'policiamento' de gosto da juventude de esquerda – encontra eco na atitude da plateia que é contra a ditadura, reagindo à violência por ela imposta, mas sacrificando uma vítima 'substitutiva', desta forma protegendo a sociedade como um todo da violência maior que separava os seus segmentos (o apoio de direita à ditadura, ausente na plateia, versus o seu repúdio de esquerda, representada por eles mesmos)". Por essas e outras miradas expandidas do que foi a Tropicália, O TROPO TROPICALISTA merece estar em toda biblioteca que se diz atenta ao Brasil.

01 junho 2025

O cânone imperial


O professor Flávio Kothe faz da série "O cânone" uma das mais contundentes revisões críticas dos períodos históricos de nossa literatura. Cada volume se dedica há um momento. Em O CÂNONE IMPERIAL o professor ataca o cerne do problema, ou seja, a emergência do nacionalismo à brasileira e suas consequências. "O cânone e a exegese canonizante equivalem à gramática normativa, cheia de terminologias absurdas, análises que não apreendem nuances, descontextualizações intencionais, carências de historicidade, conceitos e categorias analíticas que não apreendem o que s passa de fato no objeto e assim por diante", escreve Kothe, no texto "Da ideologia do cânone imperial". Para o autor, "Os românticos brasileiros, ao se proporem a tarefa de inventar uma nação única onde não havia uma única nação, não apenas fizeram do índio uma figura emblemática da nacionalidade, a ser venerada por todas as raças e povos em todas as escolas do país; também instituíram uma identidade modelar que acabou significando, na prática, a repressão de todas as diferenças, pois já continha o imperativo de uma idealidade pretensamente absoluta em sua concepção". Destaco a leitura de Kothe para o paradigmático poema "O navio negreiro", de Castro Alves: "Quando o negro poderia imaginar ter chegado a sua hora de dizer a sua verdade, o cânone fez de conta que lhe dava a palavra, mas apenas como um boneco, um ventríloquo do branco, para que ele próprio nada dissesse", lemos em "Abolicionismo literário". O professor desmonta qualquer leitura revolucionária ou rebelde do poema brasileiro, cuja inspiração vem do alemão “Das Sklavenschiff”, de Heine, e de sua tradução para o francês, “Le Negrier”, de Nerval. Kothe defende que a hipérbole de Castro Alves instaura um "humanismo capitalista" e nubla o cotidiano do escravizado feito mercadoria. O texto do baiano "aproxima-se da retórica, um discurso feito para ser declamado antes acadêmicos, enquanto o texto de Heine é sobretudo para ser lido em silêncio, como um sorriso triste nos lábios", lemos em O CÂNONE IMPERIAL - livro (assim como os demais da série) que não deixa pedra sobre pedra do ladrilhado canonizante.

25 maio 2025

Jader Esbell


Jaider Esbell é um dos mais importantes pensadores do começo do século XXI. Sua obra artística se mistura à sua reflexão crítica e é nessa mistura de gestos éticos e estéticos que reside a potência. O livro JAIDER ESBELL, da coleção Tembetá, guarda boa dose desse pensamento crítico. Reflexões sobre a arte indígena, em que é a "habilidade estratégica que me interessa, a de escapar da generalização do ser como homogeneização, não permitir que se retire as particularidades, as individualidades, os diferentes sentidos de cada pessoa e cultura", "Como a arte pode trazer novas interpretações para a própria ideia de cultura? como a arte pode influenciar decisivamente para uma ideia de nos tornarmos mais civilizados? São questões transversais, universais, globais, mas que batem à nossa porta quando nos vemos de frente com as questões indígenas"; reflexões sobre reapropriação, em que "Adianto que não ando só, que não falo só, que não apareço só. Faço saber que toda a visualidade que me comporta, todas as pistas já expostas do meu existir são meramente um passo para mais mistérios. Somos por nós mesmos o poço de todos os mistérios", lemos no luminoso ensaio "Makunaima - meu avô em mim", em que "Adianto, Makunaima não é só um guerreiro forte, másculo, macho e viril distante de uma realidade possível, não senhores. Ele é uma energia densa, forte, com fonte própria como uma bananeira". JAIDER ESBELL é chamamento para "compor ativamente a grande diversidade para sempre".

18 maio 2025

A queda do céu


A cada releitura de A QUEDA DO CÉU, de Davi Kopenawa e Bruce Albert me percebo apreendendo algo novo. "As mulheres da gente das águas yawarioma apoderam-se deles [dos filhos de xamã] assim que ficam adolescentes para levá-los para sua casa no fundo dos rios. Contudo, isso só ocorre se tiverem mesmo a floresta no pensamento e passarem a maior parte do tempo caçando, sem prestar atenção nas mulheres", lemos aqui. "A gente das águas são grandes caçadores", lemos adiante. Interessado que sou pelos seres das águas, essa "gente das águas" me interessa, particularmente. "Os filhos de xamãs, como eu disse, são também filhos de espíritos. É por isso que a gente das águas yawarioma os reconhece como genros e suas filhas se apoderam deles tão depressa. Eu sou só um filho de ser humano. Meu pai não era xamã, não conhecia os xapari. Assim, eu não sabia nada disso quando era adolescente. As mulheres das águas nunca me levaram para sua casa, nunca me deitaram em suas redes", diz Kopenawa. "Não foi portanto à toa que Omama soterrou o ferro, o ouro, a cassiterita e o urânio, deixando acima do solo só nossos alimentos. Assim guardados pelo frio dos seres da terra que chamamos maxitari e do ser maléfico do tempo chuvoso, Ruëri, os minérios não representam perigo. Mas se os brancos os arrancarem todos do solo, afugentarão o vento fresco da floresta e queimarão seus habitantes com sua fumaça de epidemia", lemos ali. "Se os brancos começarem a arrancar o pai do metal das profundezas do chão com seus grandes tratores, como espíritos de tatu-canastra, logo só restarão pedras, cascalho e areia. Ele ficará cada vez mais frágil e acabaremos todos caindo para debaixo da terra", lemos também. A QUEDA DO CÉU imprime a comsmogonia e a teogonia em estado de vivência, em que corpo e espírito são uno na experiência de viver.

11 maio 2025

Saco de gatos


Entre os textos que no calor da hora tentaram entender a nova lírica nacional engendrada pela canção popular advinda dos Festivais da Canção, cujo público (e torcida) era majoritariamente de jovens universitários, está "MMPB: uma análise ideológica", da professora Walnice Nogueira Galvão. Para ela, em 1968, "A Moderna Música Popular Brasileira apresenta uma proposta nova dentro da tradição. Surgida do desenvolvimento da Bossa Nova, que por sua vez já constituiu uma renovação radical da canção, se por um lado persiste na linha intimista que foi a marca registrada da Bossa Nova, por outro lado compõe um projeto de 'dizer a verdade' sobre a realidade brasileira". A autora passa a comentar as letras de várias dessas canções, em que se "impõe um compromisso de interpretação do mundo que nos cerca, particularmente em suas concreções mais próximas, brasileiras". Assim, "A MMPB se caracteriza, portanto, por uma intencionalidade informativa e participante". A canção engajada de Vandré, evidentemente, recebe destaque. Nelas, "O sertão, o morro, a favela, o estilo de vida dos homens que neles vivem e morrem, são mostrados em sua realidade feia", lemos. Essas canções projetam a melhoria da vida em "o dia que virá", aponta Walnice. "Esperança, na MMPB, significa inação. Esperar significa postergar para o futuro. Vai implícita uma justificação do presente, em função da confiança na autonomia do futuro". A autora aponta a novidade na obra de Caetano Veloso, com sua "ruptura metropolitana", entre outras vozes que expandem o discurso de protesto. Chico Buarque é outro que tem as metacanções lidas pela autora. O texto guardado no livro SACO DE GATOS, livro com ensaios que vão de Euclides da Cunha a Guimarães Rosa, passando por Drummond e Cortázar, é um ótimo registro do calor da hora. 

04 maio 2025

O poeta e o tempo


Em diálogo com Paul Preciado, Caetano Veloso leu um dos poemas de Marina Tsvetáeva de que mais gosto - "Amar apenas mulheres (para uma mulher) ou amar apenas homens (para um homem), excluindo de modo notório o habitual inverso — que horror! / Amar apenas mulheres (para um homem) ou amar apenas homens (para uma mulher), excluindo de modo notório o que é inabitual — que tédio! / E tudo junto — que miséria. / Aqui esta exclamação encontra realmente seu lugar: sejam semelhantes aos deuses! / Qualquer exclusão notória — um horror". Os versos dizem muito do cancionista que compôs "Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim". Fato é que a obra de Marina Tsvetáeva sempre me comove, me impulsiona. Em tradução de Autora Fornoni Bernardini, O POETA E O TEMPO reúne o pensamento crítico de Marina. "Minha vontade é meu ouvido: não cansar de ouvir até sentir, e não escrever nada que não tenha sentido", lemos. "A única reza do poeta é se tornar surdo. Ou então, reduzir a qualidade do que ouve, ou seja, tapar os ouvidos a uma série de apelos, invariavelmente os mais fortes", lemos também. Para Tsvetáeva, "A verdade do poeta é a mais invencível, a menos captável, a mais indemonstrável e, ao mesmo tempo, a mais convincente, uma verdade que vive dentro de nós apenas naquele primeiro instante obscuro da percepção (o que terá sido?) e que permanece dentro de nós como o traço de uma luz ou de uma perda (mas terá realmente sido?)". O POETA E O TEMPO pode ser lido como um conjunto de aforismos, prosa sensível que guarda isso que o título anuncia. Uma importante porta de entrada aos bastidores da obra e da vida de Marina Tsvetáeva, mas também da sensibilidade daquilo que move a poesia, a Humanidade.

27 abril 2025

Diálogos oblíquos


Vira e mexe recorro ao livro DIÁLOGOS OBLÍQUOS. Organizado pela professora Bella Josef, o volume reúne 35 entrevistas com escritores latino-americanos. Entre outros, Beatriz Guido, Ricardo Piglia, Cesar Aira, Manuel Puig, Octavio Paz, Severo Sarduy, Guillermo Cabrera Infante, Mario Vargas Llosa, Jorge Luis Borges e Luiz Rafael Sánchez conversam sobre criação literária, texto e contexto, representação e política. "Esta coletânea de entrevistas realizadas em diferentes épocas reflete nossa preocupação fundamental com a tentativa de decifrar o mistério e a magia da criação", escreve Josef na Introdução, para quem "A crítica deve orientar-se pelo resgate do conflito humano que a literatura representa, estimulando um envolvimento interpretativo. [...] Se a crítica é a literatura em espelho, talvez a entrevista torne o leitor mais consciente do que se passa nele quando lê". Em DIÁLOGOS OBLÍQUOS os escritores respondem à pergunta "o que é ser um escritor latino-americano?". "Creio, cada vez mais, que 'ser nacionalista é ser latino-americano'", responde Guido; "Reescrever é a única maneira de saber onde vou. Nada está previsto em minhas obras", diz Piglia; "Nos brasileiros observa-se, de modo visível, a brasilianidade. Nós escrevemos para não ser argentinos, por uma reação", para Aira; Puig afirma que "sempre tenho presente o leitor. Escrevo para alguém com minhas limitações. Procuro não pedir esforços demasiados, pensando em alguém que, como eu, formado com espectador de cinema, tenha dificuldades de concentrar-se na leitura". Cada diálogo resultado de respostas às perguntas sempre profundas e interessadas nos bastidores sensíveis do ato de criar literatura revela a grandiosidade e a complexidade latino americana. Trabalho que só uma professora como Bella Jozef pode realizar.