Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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25 outubro 2026
Antropofagia zumbi
"Se a antropofagia é, de fato, uma marca do modo de produção da subjetividade e da cultura no Brasil, como pensavam os modernistas de 1922, há poucas razões para alegrar-se. Embora haja uma variedade de posições entre estes dois extremos da micropolítica antropofágica no Brasil, a balança tende frequentemente para o polo reativo, o que cria um terreno fértil para a incorporação acrítica da política de produção da subjetividade introduzida pelo capitalismo contemporâneo", lemos em ANTROPOFAGIA ZUMBI, ensaio em que Suely Rolnik vai ao núcleo duro da questão ética brasileira. O livro ajuda bastante a entender o "endireitamento" extremista e fundamentalista porque passamos enquanto sociedade global. O foco no capitalismo é importante para entender que passamos do "só me interessa o que não é meu" modernista para o "Narciso acha feio o que não é espelho" contemporâneo. O "afeto de vitalidade", como diagnostica Suely, vem dando lugar à incorporação acrítica do mesmo, do óbvio, da imobilidade, como resultado das promessas (não cumpridas, logo, frustrantes e exaustivas) de bem-estar, conforto e acomodação capital. Para Rolnik, "a crise atinge um tal grau que passa a ser impossível manter-se congelado em identidades fixas, pois os efeitos dos novos diagramas de forças que se integram, incessantemente, ao corpo já não podem ser contidos em seu estado de recalque, sem que se tenha acesso a eles, tal como o haviam sido nas políticas de subjetivação modernas. É preciso inventar novas formas de administrar esta fricção, por meio de novas políticas do desejo que respondam a esta urgência. Surgem então movimentos de resistência nesta esfera que promovem linhas de fuga do modo de subjetivação dominante". O livro segue propondo terapêuticas e metáforas importantes para a compreensão e enfrentamento da situação. "Trata-se de se deixar afetar pelo outro e, a partir de seus efeitos dissonantes em nossa constituição, sustentar um processo de transformação que dê corpo à dissonância, aumentando nossa potência de participar do trabalho coletivo de regeneração do ecossistema ambiental, social e mental", conclui. Creio que o que aconteceu no segundo turno das eleições presidenciais em 2026 no Brasil, com a vitória de virada de Lula, é um bom exemplo dessa proposta contracultural.
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