Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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18 outubro 2026
João Cabral de Melo Neto
Em JOÃO CABRAL DE MELO NETO, Nunes bio-critica-historiografa o poeta pernambucano, tido como difícil, mas que, na leitura aqui posta, revela-se próximo do leitor, basta ter olhos de ver e ouvidos de ouvir. Nunes apresenta o ser cabralino. "Numa das raras passagens autobiográficas de sua obra, João Cabral deixa-se ver nessa idade [de menino precoce], ao longo do curso do Capibaribe, que reflete a sua imagem de então: 'Um velho cais roído / e uma fila de oitizeiros / há na curva mais lenta / do caminho pela Jaqueira, / onde (não mais está) / um menino bastante guenzo / de tarde olhava o rio / como se filme de cinema; / via-me, rio, passar / com meu variado cortejo / de coisas vivas, mortas, / coisas de lixo e de despejo;". O trecho pinçado de "O rio" (1953) revela a mirada sensível de Benedito e condensa o mote que Cabral glosou ao longo dos anos. Aqui está o que o professor chama de "distanciamento entre a disposição afetiva pessoal e a matéria da linguagem, entre o sujeito que fala e o objeto de que e fala", e, mais adiante, a "construção do poema como 'máquina da linguagem', que mostra o seu mecanismo em funcionamento, não dissimulando nem a impureza do discurso poético nem a penúria da matéria prosaica de que provém, e que carreia as impurezas do tempo". Esse ser ao pino do sol a pino é a voz poemática que Cabral concretizou nos poemas. Daí a importância do texto de Benedito Nunes, por ir ao núcleo duro desse ser, no mecanismo que engenha esse ser com timbre próprio. Para Cabral as palavras são coisas, não signos, segundo Nunes, "a poesia cabralina, que se retrai à atitude lírico-expressiva, de afirmação do Eu, divorcia-se do poema moderno típico, que o poeta pernambucano definiu como um 'híbrido de monólogo interior e discurso de praça, de diário íntimo e de declaração de princípios, de balbucio e de hermenêutica filosófica, monotonamente linear e sem estrutura discursiva ou desenvolvimento melódico, escrito quase sempre na primeira pessoa e usado indiferentemente para qualquer espécie de mensagem que o seu autor possa enviar'". Cabral, claro, vai na contramão disso, e Nunes vai educando-nos pedra por pedra na leitura dessa obra prismática, "que une, por meio de qualidades concretas, tema e objeto".
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