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20 agosto 2015

Uma Iara / Uma perigosa Yara



Cantada como símbolo da identidade nacional pelos escritores românticos e como elemento arcaico da entidade brasileira pelos escritores dados à antropofagia, vira-e-mexe, a Iara reaparece em nosso imaginário para celebrar nossa “cor local”, nossa distinção e nossos contatos em relação ao estrangeiro.
Invenção Romântica, resultado do amalgama entre a Sereia europeia e as lendas indígenas brasileiras, cantada entre ninfeias (Olavo Bilac), ou “da podridão” (Oswald de Andrade), a Iara retorna como ícone de beleza e perigo na voz de Maria Bethânia. Ao cantar “Uma Iara” (Meus quintais, 2014), canção de Adriana Calcanhotto, Bethânia – que já cantara a Iara no disco Mar de Sophia, (2006): “Espelho virado ao céu / Espelho do mar de mim / Iara índia de mel / Dos rios que correm aqui / Rendeira da beira da terra / Com a espuma da esperança” – reafirma aquilo que já dissera em entrevista: “A voz não é minha. É das sereias”.
Essa disposição a ser um instrumento do mítico, faz com que Maria Bethânia recrie mundos e sensações para além do comezinho cotidiano. A Iara de Calcanhotto e Bethânia “dorme na vitória régia”, planta aquática típica da região amazônica e rainha dos lagos. Esse ambiente tipicamente brasileiro já distingue essa Iara das outras. A vitória régia oferece a Iara o signo necessário para torná-la definitivamente nossa.
O perigo é mantido: “Ai daquele que cai na tragédia da nudeza da sua voz / (...) / Ai daquele que cai na tragédia da nudeza do seu véu / É preciso manter a proa da margem que encerra”. O canto que é choro, ou o choro que é canto é o artifício sedutor de Iara. E isso é incorporado à letra da canção e aparece nos alongamentos vocálicos da cantora: “Ah, Ah a Iara / (...) / Uh, Uh, Uh... Iara”. Os lamentos funcionam, portanto, como recursos persuasivos. Ai de quem acreditar neles.
Ao canto da letra de Calcanhotto, Maria Bethânia agrega o recital do texto “Maio – Uma perigosa Yara” (1987), de Clarice Lispector (1920-1977). Editado por Fauzi Arap e pela própria Bethânia, o texto de Clarice serve para ilustrar os perigos e narra o caso de um tapuia que se deixou envolver pela beleza e elegância da Iara de “cabelos negros”, não mais dourados ou verdes, como noutras aparições literárias. Diz o narrador: “Houve um dia, um tapuia sonhador e arrojado / Estava pescando e esqueceu-se de que o dia estava acabando / E as águas já se amansavam / “Acho que estou tendo uma ilusão!”, pensou / A morena Iara de olhos pretos e faiscantes / Erguera-se das águas / O tapuia teve medo, mas de que adiantava fugir / Se o feitiço da flor das águas já o enovelara todo”.
Mais adiante, o narrador completa que “sempre à tardinha aparecia a morena das águas / A se enfeitar com rosas e jasmim / Porque um só noivo não lhe bastava”. Clarice não escolhe à toa o mês de maio para cantar Iara. Como sabemos, maio é o “mês das noivas”, é o mês em que as noivas encontram seus noivos em casamento. Assim como Iara: mulher insubordinada. “No mês de Maio, ela aparece ao pôr do sol / E a medida que Iara canta, mais atraídos ficam os moços”, lê Bethânia.
O encontro entre Clarice Lispector, Adriana Calcanhotto e Maria Bethânia resulta no cantar dessa Iara afirmativa do nacional sem ufanismos: interior, do Brasil profundo. Essa Iara não nega o “dom de iludir” feminino: não mais silenciado pelo patriarcado e pelo machismo, o feitiço é assumido como elemento de positividade. E se a criação poética é fruto da memória, a Iara que aparece aqui recupera, reelabora e atualiza as Iaras evidenciadas ao longo de nossa formação literária e cancional. A entidade presente nesse momento parece iluminar o percurso que a Iara fez desde os Românticos até agora: as perdas e os ganhos das características no processo de ensaiar o Brasil. Artistas leitoras, as três mulheres se unem no canto de Bethânia transmutada em Iara: Sereia e Musa.
Ao invés de negar o perigo do canto, essas mulheres artistas afirmam esse perigo como distintivo, belo e original. Plasma-se uma imagem pós-identitária para a Sereia, o feminino e a mulher: “confiante no seu encanto”. Funda-se uma Iara “espelho virado ao céu” e “morena das águas” a refletir o gesto antropófago da Guaraci oswaldiana, mas também o ímpeto trágico da Iracema alencariana. Uma não exclui a outra. Há fusão dos significantes das Iaras com /I/ e das Yaras com /Y/ em benefício de um feminismo feiticeiro, do cantar, do enredar poético-sedutor. Afinal, “de que adiantava fugir / se o feitiço da flor das águas já o enovelara todo”. Canta-se, portanto, o retorno do amalgama entre feitiço e poesia, Humano e natureza. 

***

(Adriana Calcanhotto)

Maio - A perigosa Yara
Clarice Lispector
Editado do por Fauzi Arap e Maria Bethânia

Ah, Ah a Iara... a que dorme na vitória régia
Ai daquele que cai na tragédia da nudeza da sua voz
Uh Uh Uh... Iara... a que canta, a citéria
Ai daquele que cai na tragédia da nudeza do seu véu
É preciso manter a proa da margem que encerra
Se ele é livre ou se é dela
Ah, a Iara... a que canta, a que chora...

Ao cair de todas as tardes a Iara surge de dentro das águas, magnífica
Com flores, enfeita os cabelos negros
No mês de Maio, ela aparece ao pôr do sol
E a medida que Iara canta, mais atraídos ficam os moços
Houve um dia, um tapuia sonhador e arrojado
Estava pescando e esqueceu-se de que o dia estava acabando
E as águas já se amansavam
"Acho que estou tendo uma ilusão!", pensou
A morena Iara de olhos pretos e faiscantes
Erguera-se das águas
O tapuia teve medo, mas de que adiantava fugir
Se o feitiço da flor das águas já o enovelara todo
O tapuia sofria de saudade e Iara, confiante no seu encanto, esperava
Nesse mês de florido Maio, o índio entrou de canoa no rio - o coração trêmulo
A Iara veio vindo devagar
Abriu os lábios úmidos
E cantou suave a sua vitória
Houve festa no profundo das águas
E sempre à tardinha aparecia a morena das águas
A se enfeitar com rosas e jasmim
Porque um só noivo não lhe bastava

Ah a Iara a que canta, a que chora
Uh Uh Uh Iara...

08 julho 2015

Trovoa



Ouvir canção em tempos de reprodução técnica é ter a possibilidade de comparar versões de uma "mesma" canção. Não se trata de dizer qual é a "melhor". Mas perceber os investimentos voco-melódicos de cada intérprete. É o caso de "Trovoa", de Maurício Pereira (Pra Marte, 2007), registrada na voz de Juçara Marçal (Metá Metá, 2011) e de Maria Gadú (Guelã, 2015). As três versões plasmam um trovador urbano: o canto-falado acompanhado por instrumentos que marcam a melodia, desenham o ritmo da mensagem a ser recebida pelo ouvinte.
Trovoar é trova que voa, escorre no tempo veloz. É fazer trovas, versejar intimidades de modo tão simples quanto sofisticado. No caso de "Trovoa", é cantar o encontro-trovão entre o eu-que-fala e o outro-motivo-da-fala: "Para um instante único / Em que o poema mais lírico / Se mostre a coisa mais lógica".
No mergulho para dentro de si, a partir do contato com o outro, o eu se desdobra em trovas. E canta: "Minha cabeça trovoa / Sob meu peito te trovo / E me ajoelho / Destino canções / Pros teus olhos vermelhos / Flores vermelhas, vênus, bônus / Tudo o que me for possível / Ou menos / (mais ou menos)".
Exprimir-se em cantigas é gesto organizador de si, daquilo que trovoa na cabeça: é instinto de conservação. Foram os poetas provençais da Idade Média quem fixaram esse modo de fazer poesia lírica. Pouco ou quase nada restou da poesia trovadoresca, essencialmente oral e espontânea. É preciso um esforço imaginativo para reconhecer essa poesia de um tempo pós-escrita e pré-técnicas de reprodução. E investigar a pertinência de uma "poeticidade oral específica" tem sido o trabalho de muitos pesquisadores.
Narrar cantando é uma forma de manter na memória - íntima e coletiva ("lírico mais lógico") - um acontecimento, já que a melodia auxilia na memorização de um "momento tão pequeno e gentil". Por sua vez, a canção "Trovoa" de Maurício Pereira atualiza o gesto trovador de cantar caminhando - "e caminho a pé pelas ruas da Lapa" - e se universaliza pelo conteúdo urbano, em tempos de amores líquidos.
Não há refrão, interditando a memorização pelo ouvinte. O que é dito precisa ser ouvido naquele instante, sob o perigo de se perder no momento seguinte, tamanha é a profusão de palavras. A letra mescla urgência (traduzida em versos ligeiros, compreendidos na aceleração da emissão vocal) e contemplação (alongamentos vocálicos). Essa euforia melancólica está presente nas versões aqui apontadas.
Nas três versões o trovoar é tratado como o lugar caótico "onde nasce e mora todo o amor". É do trovejar de ideias, sensações e desejos que nasce o impulso de cantar, a si e o outro. Ou seja, o ruído que esse trovão produz no sujeito que canta é o promotor da canção e da teatralidade escolhida para transmitir o conteúdo extenso em confronto com a velocidade das horas. Há uma tensão entre o muito para ser dito e o pouco tempo para dizer. "Trovoa" exige atenção. Seu tamanho e sua linguagem vão à contramão das micro-narrativas, das formas breves de nossos dias.
Embora as duas versões se aproximem bastante, há sutis diferenças nos gestos vocais. Amparada nos versos finais do disco Guelã - "Tendo o silêncio no peito / Lendo o silêncio com os olhos / Faz silêncio de mim", a emissão vocal de Gadú aparece mais econômica, investe mais nos silêncios, nas pausas entre uma palavra e outra, com raros alongamentos das vogais, por exemplo. Enquanto que a voz de Juçara percorre uma partitura montada sobre distensões vocálicas mais arriscadas, cantáveis.
Por outro lado, a versão de Maria Gadú mostra que o cancionista contemporâneo é ouvinte de canção. As criações estão contaminadas por essas escutas. Gadú é ouvinte de Juçara. E ouvinte de Maurício Pereira. É esse canto intertextual, intervocal, essa audição sampleada o que deve importar para compreender as escolhas timbrísticas, melicanoras de cada intérprete, a fim de perceber as convergências e divergências entre as versões de uma "mesma" canção.

 ***

 Trovoa
(Mauricio Pereira)

minha cabeça trovoa
sob meu peito te trovo
e me ajoelho
destino canções pros teus olhos vermelhos
flores vermelhas, vênus, bônus
tudo o que me for possível
ou menos
(mais ou menos)
me entrego, ofereço
reverencio a tua beleza
física também
mas não só
não só

graças a Deus você existe
acho que eu teria um troço
se você dissesse que não tem negócio
te ergo com as mãos
sorrio mal
mal sorrio
meus olhos fechados te acossam
fora de órbita
descabelada
diva
súbita…
súbita…

seja meiga, seja objetiva
seja faca na manteiga
pressinto como você chega
ligeira
vasculhando a minha tralha
bagunçando a minha cabeça
metralhando na quinquilharia
que carrego comigo
(clipes, grampos, tônicos):
toda a dureza incrível do meu coração
feita em pedaços…

minha cabeça trovoa
sob teu peito eu encontro
a calmaria e o silêncio
no portão da tua casa no bairro
famílias assistem tevê
(eu não)
às 8 da noite
eu fumo um marlboro na rua como todo mundo e como você
eu sei
quer dizer
eu acho que sei…
eu acho que sei…

vou sossegado e assobio
e é porque eu confio
em teu carinho
mesmo que ele venha num tapa
e caminho a pé pelas ruas da Lapa
(logo cedo, vapor… acredita?)
a fuligem me ofusca
a friagem me cutuca
nascer do sol visto da Vila Ipojuca
o aço fino da navalha me faz a barba
o aço frio do metrô
o halo fino da tua presença

sozinha na padoca em Santa Cecília
no meio da tarde
soluça, quer dizer, relembra
batucando com as unhas coloridas
na borda de um copo de cerveja
resmunga quando vê
que ganha chicletes de troco

lebrando que um dia eu falei
“sabe, você tá tão chique
meio freak, anos 70
fique
fica comigo
se você for embora eu vou virar mendigo
eu não sirvo pra nada
não vou ser teu amigo
fique
fica comigo…”

minha cabeça trovoa
sob teu manto me entrego
ao desafio de te dar um beijo
entender o teu desejo
me atirar pros teus peitos
meu amor é imenso
maior do que penso
é denso
espessa nuvem de incenso de perfume intenso
e o simples ato de cheirar-te
me cheira a arte
me leva a Marte
a qualquer parte
a parte que ativa a química
química…

ignora a mímica
e a educação física
só se abastece de mágica
explode uma garrafa térmica
por sobre as mesas de fórmica
de um salão de cerâmica
onde soem os cânticos
convicção monogâmica
deslocamento atômico
para um instante único
em que o poema mais lírico
se mostre a coisa mais lógica

e se abraçar com força descomunal
até que os braços queiram arrebentar
toda a defesa que hoje possa existir
e por acaso queira nos afastar
esse momento tão pequeno e gentil
e a beleza que ele pode abrigar
querida nunca mais se deixe esquecer
onde nasce e mora todo o amor