Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
Pesquisar canções e/ou artistas
08 novembro 2026
Deixa queimar
Dizer que em DEIXA QUEIMAR Bernardo Oliveira biografa o multiartista Negro Leo é pouco. Bernardo cartografa, categoriza e ensaia sobre o avanço experimental da linguagem cancional brasileira tendo Negro Leo como eixo catalisador, epicentro criativo. "A questão da ascendência e do rastreio genético dos nossos antepassados perde todo o seu sentido quando nos aproximamos da experiência brasileira. Um experiência desesperada, talhada na base da necessidade, das conveniências familiares e patrimoniais, das alianças contra-hegemônicas", lemos no trecho intitulado "Eu sou o terceiro milênio" (que por si valeria a leitura do livro). Bernardo está tratando do "caldeamento forçado" durante o período colonial e o modo como Negro Leo coloca isso em rotação, "sob a forma de um afeto ancestral, uma ininterrupta atividade de contraespreita". Para Bernardo, "a ginga é uma ferramenta política que se exprime através de um movimento complexo, tanto do corpo quanto da mente, tanto do indivíduo quanto do coletivo". E isso permite ao autor desenvolver sua concepção de quilombo. "Transplantada a ginga para essa terra, através da territorialização forçada, transplantamos também uma política", lemos. "Em todas as suas características, o quilombo remete a um movimento no qual a organização social dribla, um a um, os ditames da política colonial, a política ocidental de origem europeia" e fazendo referências aos textos de Beatriz Nascimento, Edison Carneiro, Clóvis Moura, Flávio Gomes, Bernardo afirma que "O quilombo é, assim, uma contrafamília. Ou, ainda, a figura nuclear da família é substituída, pela evidente necessidade, por uma organização radicalmente comunitária". Para Bernardo, "levando em consideração a ascendência Guajajara de Negro Leo, um dos povos indígenas que cultivam tradicionalmente a diamba como forma de conduzir ao êxtase musical e espiritual, podemos entrever na persona artística, algo que escapa aos códigos e convenções autocentradas da urbanidade sudestina". Deste modo Negro Leo é registrado enquanto "terceiro milênio porque só ele mantém o código aberto; a fonte parece inesgotável". E assim "deixa queimar significa a primazia do gesto".
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário