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31 maio 2026

Por uma crítica feminista


Difícil destacar um livro da vasta e importante obra da professora Eurídice Figueiredo, todos tratando de temas como ditadura, exílio, arquivo, feminismo. São textos que equilibram sensibilidade e rigor, empenho pessoal e exigência coletiva. O  enfrentamento contra autoritarismos de qualquer ordem se espraia na mirada crítica. "Como o poder está em toda parte, provém de todos os lugares, ele tem a capacidade de ser permanente e de se autorreproduzir", lemos em POR UMA CRÍTICA FEMINISTA: LEITURAS TRANSVERSAIS DE ESCRITORAS BRASILEIRAS, livro em que Beauvoir, Butler, Cixous e outras pensadoras são lidas sem a adequação apressada com que comumente lemos autores "estrangeiros". Ao contrário, Eurídice confronta, expande, dialoga com firmeza e afeto. "O fato de todos fazerem parte do mesmo sistema em que se exerce o poder não impede que haja resistência. Há resistências no plural, que integram o mesmo sistema, elas são a outra face das relações de poder. Assim como a rede das relações de poder forma uma capa que atravessa os aparelhos e as instituições, os pontos de resistência atravessam igualmente as estratificações sociais e as unidades individuais", lemos mais adiante. Daí a centralidade que a professora dá às mulheres que escrevem num sistema todo montado para impedir esse gesto, essa presença. Escrever é resistir; pensar é resistir; e a escrita arquiva, mantem a memória viva e a tensão promotora da mudança social. POR UMA CRÍTICA FEMINISTA passa em revista ideias e conceitos elaborados ao longo do tempo, reelabora a resistência feminista e se apresenta como uma vibrante história da nossa literatura - de Maria Firmina dos Reis a Maria Valéria Rezende, passando por Júlia Lopes de Almeida, Patrícia Galvão, Eliana Alves Cruz, Amara Moira. "O que se depreende do estado da arte através da leitura desses mais de duzentos livros é que as mulheres deixam de ser faladas pelos autores e passam a falar à sua maneira, expressando ansiedades e expectativas, tensões e conflitos familiares, relações abusivas, medo, vergonha e raiva, mas também afeto, amor e amizade", escreve Eurídice Figueiredo, autora cujo trabalho amplia o coro dissonante e, consequentemente, desafiador das mulheres lidas e de quem a professora é reflexo e refração. Afinal, conforme anota, "as identidades só se constroem na relação com o outro". 

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