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10 novembro 2024

Pequena história da música popular


O conservadorismo ranzinza de José Ramos Tinhorão, calcado em afirmações e defesas de certas matrizes brasileiras ao longo da vida, colocam o jornalista, crítico, ensaísta, pesquisador e historiador num lugar sempre incômodo no debate contemporâneo em torno da canção popular brasileira. Mas, como todo bom pesquisador, Tinhorão era arquivista e sua coleção guarda joias impensáveis, agora sob a guarda do Instituto Moreira Salles. Fato é que, defensor de um Brasil não contaminado pela indústria cultural, Tinhorão viveu mudanças profundas na lírica cancional brasileira e conviveu com muitos de seus atores. PEQUENA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR dá conta de registrar essa jornada. O livro começa afirmando que "Por oposição è música folclórica (de autor desconhecido, transmitida oralmente de geração a geração), a música popular (composta por autores conhecidos e divulgada por meios gráficos, como as partituras, ou através da gravação de discos, fitas, filmes ou vídeo-teipes) constitui uma criação contemporânea do aparecimento de cidades com um certo grau de diversidade social". E isso diz muito sobre o modo como Tinhorão interpreta a modinha, o lundu, o maxixe, o choro, o samba, o frevo, o baião, a bossa nova, a canção dos festivais, o tropicalismo, etc. Sua leitura sociológica e avessa aos experimentalismos artísticos se atenta aos cancionistas e ao mercado 'alienante', porque despolitizado. Tinhorão destaca, por exemplo, "o espírito de arrivismo de provincianos migrados para o sul dispostos à realização pessoal e ao sucesso" dos baianos tropicalistas. Ao seu modo, Tinhorão aponta como os miasmas coloniais do Brasil reverberam na canção popular mediatizada. Eu diria que em hoje em dia, com tantos desdobramentos do complexo Brasil que a Tropicália engendrou, PEQUENA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR é uma leitura desafiadora, mas importante.

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