Pesquisar canções e/ou artistas

28 janeiro 2014

O que é canção? Kiko Dinucci

Kiko Dinucci

- O que é você para você?
Canção é uma linguagem única, não é poesia cantada, nem prosa, nem música puramente, tem imagens, mas não é cinema, nem pintura, nem quadrinho. Uma canção tem o poder de unir todas essas coisas e ainda te deixar sensações e impressões diversas. Eu não sei explicar a grandeza da canção.

- De onde vem a canção?
Creio que a canção vem muito da fala, de como a acentuação natural dialoga com as melodias. Mas não é só isso. A fala talvez seja a primeira exteriorização da canção. Ela pode vir de uma sensação, de uma vontade, de várias matrizes de ideias.

- Para que cantar?
Para espantar os males. O homem canta desde que nasce, a fala é um canto, tem características melódicas, o primeiro choro de um bebê também é um canto. O homem vive cantando, muitas vezes nem percebe. Essa concepção está na canção Canto Em Qualquer Canto, de Ná Ozzetti e Itamar Assumpção.

- Cite 3 artistas que são referências para o seu trabalho. Por que estes?
Itamar Assumpção, Paulo Vanzolini, Noel Rosa. Me influencio por eles pelo modo com que criaram o seu próprio jeito de fazer canção, um estilo, uma manifestação original personificada.

22 janeiro 2014

O que é canção? Mauro Aguiar


- O que é canção para você?
Tipo de arte híbrida que faz com que o fio da fala flua sem freio dentro do finito como se fora infinito. Onde o poético cabe no coloquial. Canção é parente de cartaz, ópera, cinema, ilustração. Canção de verdade é coração saindo pela boca.

- De onde vem a canção?
Trovadores? Menestréis? Idade Média? Ou foi forjada como canção industrial, radiofônica, já no século passado? Não sei...

- Para que cantar?
Para afinar o mundo. Para dizer o indizível. Para ter voz própria. Canção é sotaque cardíaco.

- Cite 3 artistas que são referências para o seu trabalho.
Chico Buarque, Cacaso, Aldir Blanc.
Por que estes? Chico, pela polissemia, pelo humor, pela palavra-valise, pela poesia dentro da fala, da locução. Cacaso pelo misticismo cotidiano, pela língua brasileira, pelo sonho de vida e morte. Aldir, pela loucura, pelo subúrbio, pelo sarcasmo.

15 janeiro 2014

O que é canção? Tatá Aeroplano


- O que é canção para você?
Desde pequeno sempre me liguei nas canções. Ouvia as músicas no rádio, no toca discos dos meus pais e ficava conectado, escutando aquelas canções do Roberto Carlos, dos Novos Baianos, do Raul Seixas, do Elvis, Beatles, Sinhô. As canções me embalavam e aos seis anos de idade eu fiz minha primeira canção e eu me dei conta que meu dom era o de fazer canções, o que faço até hoje.

- De onde vem a canção?
A canção vem de todos os lugares e rincões possíveis. Basta estar com a cabeça boa, conectado e sintonizado com o mundo, com a natureza e com as pessoas. Eu faço músicas compulsivamente e creio que isso se deve por que eu me mantendo conectado com tudo o que acontece ao meu redor.

- Para que cantar?
É uma necessidade natural, gosto de cantar e botar pra fora as canções, é um lance que mexe muito comigo. Me comunico com as pessoas através das canções! Isso pra mim é uma honra imensa!

- Cite 3 artistas que são referências para o seu trabalho. Por que estes?
Tom Zé. Foi quando eu tive contato com a obra do Tom Zé, tive certeza de que estava no caminho certo! Tom Zé é DEMAIS!
Sérgio Sampaio. Com Sérgio Sampaio aprendi a cantar sem medo e a chorar.
Júpiter Maçã. Amigo e mestre. Com Jupiter aprendi que o mundo é muito mais que o planeta terra ... a música vem também do céu, das estrelas, de outros universos e galáxias
Caetano Veloso. Compositor genial. Caetano tem uma das obras mais incríveis.
As Referências são muitas. Gil, Itamar Assumpção, Bob Dylan, Serge Gainsbourg, Leonard Cohen, Helio Flanders, Peri Pane, Gustavo Galo... São muito mais que 3!

07 janeiro 2014

O que é canção? Bárbara Eugenia


- O que é canção para você?
Eu acredito que canção é o som que te emociona. Que te toca e te leva para outros lugares, te faz conectar com algo. E acontece uma identificação do ouvinte com a música.

- De onde vem a canção?
Vem do coração, vem da alma...
 
- Para que cantar?

Como não cantar? Demorei muito para começar, foi com 28 anos, mas sempre gostei de cantar em casa apesar da vergonha. Não consigo pensar a vida sem cantar. É algo que faz parte como qualquer outra ação de funcionamento do meu corpo.

- Cite 3 artistas que são referências para o seu trabalho. Por que estes?
Tom Zé: sempre fazendo coisa nova, sempre fazendo coisas, nunca parado. Sem medo de ser feliz, sem dedos para agradar ninguém. Ele simplesmente é aquilo que eu queria ser quando crescesse, sabe?
Radiohead: é a banda que mais gosto, mais me identifico. Apesar de toda a melancolia que não faz muito parte do meu trabalho. O som desses caras me faz chorar, fala comigo de um jeito único.
Beatles: meio óbvio, mas é isso. Ouvi desde que estava na barriga da minha mãe, me acompanhou esses anos todos e continuarei ouvindo, reouvindo, redescobrindo... É muita coisa, muita história, uma evolução de som impressionante. Eram cancioneiros da mais alta qualidade!

17 dezembro 2013

O que é canção? Wado


- O que é a canção?
Canção é uma manifestação humana das mais antigas, cantar e entrar em transe vem de períodos pré-históricos, é de antes da cisão da poesia e da música.

- De onde vem a canção?
Considero canção algo pouco racional, em seu âmago, lógico que pode se sofisticar ela mas não é, por natureza, um território da razão.

- Para que cantar?
Cantar por necessidade da espécie, cantar é quase tão necessário quanto comer.

- Cite 3 artistas que são referências para o seu trabalho.
Lucas Santtana, Cícero, Camelo.

05 dezembro 2013

Azul vazio

"Bactérias num meio é cultura". O verso de Arnaldo Antunes ("Cultura", 1993) joga com a ideia da micro cultura assistida de bactérias como promotora da compreensão científica desses organismos, a fim de apontar através de desvios semânticos a nossa própria macro cultura: essa sistematização do conhecimento.
Os elementos ordinários pinçados e problematizados pelo sujeito da canção questionam a aparência cultural das coisas - "o escuro é a metade da zebra / as raízes são as veias da seiva / o camelo é um cavalo sem sede / tartaruga por dentro é parede" - e ao fazer isso engendra a aparição destas coisas (notadamente) ordinárias.
A distinção entre aparência e aparição é radical e importante. Vide Adorno. Como uma obra de arte fala "apenas" que ela (obra) existe, e não do que existe fora dela, no meio (na cultura) onde existimos, o sujeito criado por Arnaldo destrava nosso olhar científico e adestrado sobre a aparência das coisas e, consequentemente, sobre nós mesmos, sugerindo uma experiência de mundo na arte, em que os objetos surgem como aparições para logo em seguinte desaparecerem.
É deste modo que "a cegonha é a girafa do ganso / o cachorro é um lobo mais manso". Essas informações, ou melhor, este saber não é científico, mas nos permite des-conhecer coisas cientificamente já catalogadas, e, melhor, gera pensamento. Dito de outro modo, a arte restaura o desconhecimento do mundo desencantado pela ciência. Ou seja, o sujeito da canção de Arnaldo Antunes re-encanta o mundo, restaurando o desconhecimento de mundo, via objetos selecionados. Todos os objetos aparecem aqui para serem estranhados, desconhecidos e só deste modo podemos re-des-aprender a olhá-los.
Escrevo isso para comentar a canção "Azul vazio" (Disco, 2013), de Arnaldo Antunes e Marcia Xavier, cujos versos "serpete serpenteia o rio / percorre corre em minha veia / a correnteza o coração bombeia / o rio navega e lava / o pensamento leva / o corpo todo / como um navio" parecem se aproximar da busca pelo ordinário presente em "Cultura".
Antes, preciso dizer que interpreto a capa de Disco de Arnaldo Antunes como um "negativo" da obra Disco (1978) de Waltercio Caldas (ver livro Manual de ciência popular). E vice-versa. Ambos como proposições artísticas da dúvida em relação àquilo que ainda chamamos disco, no caso do primeiro, e daquilo que o barbante branco-feito-raio amarrado ao vinil instaura como dissonância no preto, no caso do segundo.
No Disco de Waltercio, o buraco-núcleo, por onde o objeto se encaixa na vitrola para tocar, foi ocupado pela passagem de um barbante-cordão-de-pão que se laça formando um raio. O Disco perde o seu miolo, ou seja, torna-se impossível saber aquilo que o disco guarda nas suas faixas, nos sulcos que uma agulha, interditada pelo raio-barbante, libertaria.
Se a princípio um disco é um conjunto-aparelho de guarda e reprodução de canções/músicas, nos casos mencionados vemos instaurada uma renúncia a tal percepção. Tanto Waltercio quanto Arnaldo singularizam o objeto para melhor apresentá-lo no mundo. Isso é um disco? Mas o que é um disco? É um disco disco? Esta "desorientação didática" está na base da arte.
Por um breve instante, antes que eles desapareçam no cotidiano, ao olharmos os dois discos esquecemos aquilo que sabemos ser um disco. Afinal eles tem a aparência de um disco. No entanto, algo está deslocado, o sentido daquilo que define um disco se rebelou e percebemos isso, pois os discos não se submetem às nossas expectativas cientificamente construídas. Eis a aparição. "se a vida não faz sentido / porque é que morrer / haveria de fazer? ("Sentido", Arnaldo Antunes e Nando Reis), canta Arnaldo.
No Disco transparente-branco-de-miolo-preto de Arnaldo temos o encontro de estilos variados, canções de vários períodos. O disco acolhe canções, não é cofre, apenas guarda. Sua frente-vinil-branca indicia essa aglutinação de várias matizes sonoras - "Só eu fico dentro do meu branco pra quando Oxalá chegar". Já o verso do estojo imita o verso de um cd pirata, destes sem encartes que encontramos oferecidos por ambulantes/camelôs em várias partes da cidade.
O conjunto irregular, não linear das canções que constituem Disco reflete também a recusa em relação à obrigação de escolha. Arnaldo prefere não escolher, junta, monta, constrói: da bossa ao tecnobrega. "Página vazia, melodia / onde é que a palavra vai cair? / onde vai cair? / acho que ela vai aterrissar em território perigoso" ("Sou volúvel", Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Dadi Carvalho), canta adiante. Além de: "tem muito pouca dúvida e muita razão / tem muito pouca ideia e muita opinião / muita pornografia e muito pouco tesão / muita cerimônia e muito pouca educação ("Muito muito pouco", Arnaldo Antunes).
O engenho do gesto de empreender o conjunto de objetos sonoros avulsos tão aparentemente díspares é a tônica do disco de Arnaldo. "A modernidade agora vai durar pra sempre, dizem / toda a tecnologia / só pra criar fantasia // deuses e ciência / vão se unir na consciência, dizem / vivermos em harmonia / não será só utopia" ("Dizem (Quem me dera)", Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Dadi Carvalho).
Se destaco "Azul vazio" é porque percebo na lírica de sua letra a condensação da busca pelo comum, pelo ordinário que mencionei anteriormente e que atravessa todas as canções. A imagem de um rio que só tem o olho d'água, que não tem beira, nem desagua no mar, que cresce sem se expandir é forte e rompe com a noção de perenidade que temos diante da duração das coisas. Tudo desagua no azul vazio. Vazio de que? Azul de Matisse?

***

 Azul vazio
(Arnaldo Antunes / Marcia Xavier)

ouve só se ouve ouvir
o rio só se ouve quem
de longe lá de onde vem
o rio daqui se ouve bem
de dentro ecoa a água
que deságua no azul vazio

serpete serpenteia o rio
percorre corre em minha veia
a correnteza o coração bombeia
o rio navega e lava
o pensamento leva
o corpo todo
como um navio

um rio que não tem beira
por um fim abismo cachoeira
onde desaguar
se não tem mar
e não tem margem
só o olho d'água
brota espelho molha
o azul do céu

03 dezembro 2013

O que é canção? Arthur Nogueira


- O que é a canção?
É o malabarismo, como diz Luiz Tatit, entre melodia, harmonia e letra.

- De onde vem a canção?
Do embate individual e concreto do artista com tudo aquilo que o distingue enquanto ser. Portanto, a canção em minha vida surge da minha vontade, do meu trabalho (o que João Cabral chamava de "transpiração") e de acontecimentos, lugares, paixões, sensações, livros e de diálogos com artistas que admiro.

- Para que cantar?
Para estar em comunicação com os outros e comigo mesmo. Considero que as canções, tanto aquelas em que escrevi a letra quanto as outras, em que tomo para mim um poema ou uma letra de outra pessoa, são a minha melhor forma de expressão. Consequentemente, o processo de criação é uma poderosa forma de autoconhecimento, que me estimula como nenhuma outra atividade.     
     
- Cite 3 artistas que são referências para o seu trabalho. Por que estes?
Caetano Veloso, Jards Macalé e Adriana Calcanhotto, porque me abriram as portas para a poesia desde muito cedo. E porque fizeram, respectivamente, Cajuína, Sem Essa (em  parceria com Duda Machado) e Inverno (em parceria com Antonio Cicero).