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26 outubro 2025

Um diálogo sobre os prazeres do sexo


Michel Foucault é autor de cabeceira. Sua obra acessou debates até então impensáveis na crítica, na sociologia, na filosofia. O seu texto "Prefácio sobre a transgressão" figura sempre em minhas ementas de cursos. Mas gosto de voltar sempre a UM DIÁLOGO SOBRE OS PRAZERES DO SEXO, entrevista em que Foucault diagnostica feridas profundas. "De fato não acredito que haja muito sentido em falar de um modo de ser homossexual" e "Talvez se possa dizer que há um 'modo de ser gay' ou pelo menos que existe atualmente uma intenção de recriar um determinado modo de viver, um tipo de existência ou estilo de vida que poderíamos chamar de 'gay'", lemos. Foucault está pensando na diferença entre os séculos XIX e XX, em certa inclusão interessada do homossexual na sociedade. O Oscar Wilde do sociólogo americano Philip Rieff entre na conversa. "Eu atribuiria esse puder, que costuma ser característico da literatura homossexual da Antiguidade, ao fato de os homossexuais desfrutarem então maior liberdade com relação às suas práticas homossexuais", lemos. A repressão moderna a essas práticas evoca a sua fugacidade: "A piscadela na rua, a repentina decisão de ir ao que interessa, a rapidez com que as relações homossexuais são consumadas, todos esses fenômenos têm sua origem numa proibição", responde Foucault. Por isso, nas narrativas dessas histórias, "o que assume a maior importância nas relações homossexuais não é a antecipação do ato, e sim a lembrança dele. Essa é a razão pela qual os grandes escritores homossexuais da nossa cultura (Cocteau, Genet, Bourroughs) podem escrever com tanta elegância sobre o próprio ato sexual, já que a imanginação homossexual trata sobretudo de lembrar o ato e não de antegozá-lo". É interessante pensar a pertinência desse diagnóstico em 2025, quando palavras como igualdade, acolhimento e autorrepresentação estão na ordem do discurso.

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