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07 setembro 2025

Não quero prosa


Os anos de 1960/70 legaram poetas que, seguindo o caminho aberto por Manuel Bandeira e, principalmente, Vinicius de Moraes, transitaram entre o poema feito para a página do livro e o poema (chamado letra) feito para a voz cantante com grande desenvoltura ética e estética, expandindo o sentido da brasilidade. Poeta, professor, crítico, letrista, Antonio Carlos de Brito, o Cacaso, atravessou e se deixou atravessar por essas forças e formas poéticas de sua época. São muitas as letras gravadas por grandes nomes da canção brasileira; foram muitas as polêmicas estéticas enfrentadas. Graças ao trabalho da professora Vilma Arêas temos em NÃO QUERO PROSA um bom apanhado dos textos críticos de Cacaso. Destaco o trecho de um em que ele comenta as diferenças e semelhanças entre poema e letra: "[...] o suporte e justificativa da letra é a canção, que anima a palavra de uma dimensão nova, sublinhando e redimensionando o seu sentido por meio dos intervalos melódicos, dos ritmos, harmonias, timbres. E por meio sobretudo do canto, da presença da voz humana, que dá às palavras de uma letra um suporte de generalidade baseado na emoção, na inflexão psicológica viva, na recriação do momento. A palavra cantada só faz sentido pleno enquanto cantada, no momento em que está sendo cantada. É que a unidade de sentido de uma letra está no canto, não no 'texto'. Ou, por outra: no “texto” transfigurado e reinventado no e pelo canto. Vê-se que a distinção entre a palavra impressa – o poema – e a palavra cantada – a letra – não é de grau, mas de gênero e qualidade. É aquele abismo de que fala Manuel Bandeira, que resumiu também a dimensão da sua profundidade: “Nunca a palavra cantou por si, e só com a música pode ela cantar verdadeiramente".

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