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22 dezembro 2024

Etnopoesia


"Por que os trabalhos científicos têm de ser mais completos que o assunto de que tratam?". Essa pergunta feita por Hubert Fichte deveria inquietar todos nós das Humanidades. Em ETNOPOESIA, Hubert Fichte apresenta uma proposta antropológica de força poética, com ênfase da década de 1970. Seu foco recai sobre o amalgama das religiões afro-americanas e sobre a crítica ao poder colonial presente na produção científica. Ao articular literatura e vivência, Fichte constrói uma escrita híbrida entre poesia e testemunho, que busca dar visibilidade às vozes marginalizadas e à diversidade cultural, ao mesmo tempo em que problematiza as relações de poder entre centro e periferia. "A linguagem poética, ao contrário da linguagem tática da propaganda e da política, se renova no instante em que se configura como enunciado, juntamente com o objetivo desse mesmo enunciado", lemos. Ritmo fragmentário e o tom constelar fazem de ETNOPOESIA um livro de epifanias, aforismos, declarações de Direitos, em que a voz poemática não se delimita em gênero e sexo. Rotular-se é entregar-se ao sistema. Livre, essa voz experimenta o mundo, vive. ETNOPOESIA é "verbalização do mundo. / Magia e tragédia. / Fórmula mágica e literatura". Me comove ler no finalzinho do livro que "A frota de Xerxes capturou uma embarcação de Trezena. Os persas aprisionaram um grego, mataram-no na proa e acharam de bom augúrio o primeiro dos gregos também ser o mais belo. O homem sacrificado se chamava Leo. 'Talvez tenha atraído para si tal sorte devido a seu nome'. Heródoto atribui o destino ao nome. Leão e sacrifício do leão na África. Homem-leão e um resquício de magia no texto do primeiro escritor moderno".

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