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15 dezembro 2024

Água viva


Releio ÁGUA VIVA pelo menos uma vez por ano. Por força do ofício docente e porque a cada leitura apreendo novas iluminações. São muitas entradas, bandeiras, trincheiras a enfrentar. É um livro difícil de ser resumido; é uma aventura da linguagem e da língua. É pura improvisação, é pré-regramento institucional, é voz insubmissa. "Vamos não morrer como desafio?", provoca essa voz. "O que te escrevo é um 'isto'. Não vai parar: continua", lemos pouco depois. ÁGUA VIVA já teve trechos oralizados por Maria Bethânia e musicalizados por Ava Rocha. "Cada instante  é / a impressão é que estou por nascer / sou um coração batendo no mundo", canta Ava, escandindo as palavras, passionalizando as vogais, a fim de figurativizar a persona tateante da voz narrativa. São muitos os trechos que servem facilmente como aforismos: "O futuro é para a frente e para trás e para os lados. O futuro é o que sempre existiu e sempre existirá. Mesmo que seja abolido o Tempo? O que estou te escrevendo não é para se ler - é para se ser", lemos, no desejo de sermos. São as incertezas, promotoras do improviso - "Que febre: não consigo parar de viver" -, o que talvez mais aproxima quem lê à voz narrativa de ÁGUA VIVA. "O que estraga a felicidade é o medo", lemos e somos intimados a ter coragem ética e estética, como a voz narrativa tem. 

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