Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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19 julho 2026
Pensar nagô
Em PENSAR NAGÔ Muniz Sodré trata da "construção interessada" da filosofia ocidental e apresenta outras possibilidades de reflexão e ação. "O próprio conceito de 'Ocidente' (reprisado pelas elites dos povos colonizados, que inadvertida ou alienadamente se dão como 'ocidentais') é metáfora geográfica para uma narrativa destinada a consolidar a pretensão de domínio imperial (cultural e civilizatório) da Europa sobre o resto do mundo", lemos. O professor passa em revista os usos de termos como "logos", a fim de reivindicar outras conceituações e experiências. Ele lembra que "Coube à Idade Média europeia reduzir a ética aristotélica ao monoteísmo e converter o ideal cívico de bem supremo dos helenos (tal como o de eudaimonia ou “felicidade”) à ideia de essência divina. E assim, com roupagem teológica, aspirando a tornar-se uma bíblia laica, a filosofia tem-se reproduzido ao longo dos séculos nas academias, nas obras e nos sistemas de pensadores basilares". Dialogando com Roger Garaudy, Muniz pensa que a filosofia não é "uma pesquisa puramente intelectual", mas "uma maneira de viver", daí seu foco: "o sistema simbólico dos nagôs, último grupo étnico imigrado à força pelos escravistas brasileiros". Para Sodré, "de fato aquilo que a filosofia a designa, ou seja, a paixão de pensar, aconteceu e acontece também em formações sociais às quais, por efeito do espírito colonial, se negou a possibilidade de reconhecimento de um autônomo pensamento endógeno". PENSAR NAGÔ desmonta e reposiciona a estrutura epistemológica do saber tido, por exemplo, como "intuição" [e é revelador o entendimento de intuição no livro] pela filosofia ocidental. "O socioantropólogo francês Roger Bastide foi provavelmente o primeiro a vislumbrar na cosmogonia nagô, historicamente vivenciada pelas comunidades litúrgicas da diáspora africana (os terreiros de candomblé), 'um pensamento sutil, que é preciso decifrar'", lemos. Para Sodré, a "intuição", o "improviso" é resultado de iniciação lenta, longa, complexa, erudita na simbolização do terreiro, esse gaio saber se inscreve no corpo. "Assim como o Eros platônico não é mera entidade religiosa, mas o princípio motor de uma dinâmica que busca compensar por plenitude (poros) uma carência ou uma penúria (penia), os orixás nagôs são zelados como princípios cosmológicos contemplados no horizonte de restituição de uma soberania existencial", lemos e aprendemos.
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