Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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14 dezembro 2025
Infraturas
Em INFRATURAS, Fred Coelho revisa e repagina alguns textos seus sobre cultura e contracultura no Brasil. Sendo uma referência na área, Fred tem uma linguagem muito particular, maturada na circulação dos lugares, na prática docente e na certeza de que "para sermos, produzimos múltiplas plasticidades vivenciais, múltiplas 'maneiras de ser'". O livro serve ao exercício prazeroso de reler textos e conhecer outros. O termo do título tomado de empréstimo do poeta Paulo Leminski dá conta de encapsular miradas e miragens em torno do tema central, numa "operação de leitura" (ou, em "um método para pensar a literatura em suas falhas que se tornam forças"), que faz pulsar Lima Barreto, Torquato Neto, Rogerio Duarte, Lygia Clark, Hilda Hilst, Maura Lopes Cançado, Stela do Patrocínio, Clarice Lispector, Waly Salomão, Paulo Mendes Campos, etc. Das perguntas feitas ao longo dos textos, talvez as que mais soam urgentes, em tempos de recrudescimento e despudor do fascismo, são "O MEDO também produz modos de existência? Qual a escrita do medo? Uma escrita em que é preciso pôr na organização da sintaxe aquilo que desorganiza os sentidos?". Evidentemente, essas perguntas justificam o corpus; mas, enviesadamente, iluminam nossas incertezas no agora. Fred não se abstém de tocar em temas sensíveis, como a cooptação da contracultura e do quem contracultural pelo sistema, pelo mercado, pela indústria. Afinal, entre a infratura e o objeto fetichizado (feito produto) mora o MEDO. "A escrita a posteriori sobre a experiência faz com que a reencenação da situação sensorial se desloque do campo das intensidades [...] para o campo da memória do delírio", lemos sobre a relação maníaca que alguns autores têm com a escrita. Na estetização dessa relação, desbunde, curtição, armadilhas e armarinhos de miudezas são contemplados na mirada crítica retrospectiva de Fred Coelho, para quem, um marco da consciência crítica dos artistas nos anos de chumbo da ditadura militar é o fato de que "o intuito não é mais conscientizar as classes, mas sim intervir através da ação direta do intelectual e do artista frente a esse dilema". Assim, INFRATURAS é método de leitura de um Brasil às margens, mas sob os olhos grandes do centro.
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