Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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30 abril 2021
Triste Bahia
31 março 2021
Dias dias dias
CAMPOS, Augusto de. Balanço da bossa e outras bossas. São Paulo: Perspectiva, 1978.
CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de; PIGNATARI, Décio. Mallarmé. São Paulo: Perspectiva, 2006.
MENEZES, Philadelpho. Poética e visualidade: uma trajetória da poesia brasileira contemporânea. Campinas: Unicamp, 1991.
NAVES, Santuza Cambraia. Velô, de Caetano Veloso. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009.
SANTAELLA, Lucia. Convergências: poesia concreta e tropicalismo. São Paulo: Nobel, 1986.
28 fevereiro 2021
Escapulário
Por exemplo, em 1971, Caetano publica um poema-montagem no jornal contracultural Flor do mal com várias citações, colagens, referências e, entre outras visões da nacionalidade, ele justapõe: "não quero o reino dos céus: / só me interessa o que não é meu. // a cruz do crucificado: / o chico e o roberto carlos // mesmo do lado de fora: / não permita deus que eu morra" (VELOSO, 1977, p. 82).
É esse Caetano que cita e ressignifica o aforismo oswaldiano "só me interessa o que não é meu" que quero comentar, ao propor uma leitura da canção "Escapulário" (Joia, 1975), feita a partir do poema homônimo de Oswald (Pau Brasil, 1925). Nele a herança católica brasileira é devorada através do uso parodístico e recontextualizado da oração "Pai Nosso", como veremos. Os discos complementares Joia e Qualquer coisa são acompanhados por manifestos. Na terceira estrofe (ou parágrafo; ou aforismo) do "Manifesto do movimento Joia" lemos: "respeito contrito à ideia de inspiração. jóia. meu carro é vermelho. inspiração quer dizer: estar cuidadosamente entregue ao projeto de uma música posta contra aqueles que falam em termos de década e esquecem o minuto e o milênio". Reafirma-se o questionamento da herança: gesto oswaldiano. Daí também porque Caetano evocar e embaralhar (supostos) opostos - Chico Buarque e Roberto Carlos - no poema de 1971.
Se "Escapulário" é o poema que abre o livro Pau Brasil, a canção homônima, ou, o poema cantado em ritmo de samba, com o coro de As gatas (do programa do Chacrinha), a percussão do grupo Cream Crackers e a bateria de Tuty Moreno, fecha o disco Joia de Caetano. Parece coerente que depois de evocar a musa - "Minha mulher" -; cantar os elementais da paisagem brasileira - "Guá", "Pelos olhos", "Asa, asa", "Lua, lua, lua, lua" -, singularizar a potência da gente que vive aqui - "Canto do povo de um lugar", "Pipoca moderna", "Joia" - e abrir-se ao mundo - "Help", "Gravidade", "Tudo, tudo, tudo", "Na asa do vento", o instinto de nacionalidade de Caetano engendre um samba, "o grande poder transformador", como cantará em "Desde que o samba é samba" (Tropicália 2, 1993). "Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança", escreveu Oswald no "Manifesto da Poesia Pau Brasil".
Está posta a discussão da poesia que, segundo Oswald, "existe nos fatos". Os significantes do pensamento e da poética, logo, da ética e da estética oswaldianos espraiam-se de modo singular na obra de Caetano. E "Escapulário", com sua des-ressacralização do sagrado (a oração), pelo profano (o samba), é um bom exemplo disso. Caetano entende a "rubrica" deixada por Oswald na edição de 1925 impressa pelo "Sans Pareil" de Paris: "Pau-Brasil. Cancioneiro de Oswald de Andrade". Ou seja, Caetano vocoperforma um texto que pede a voz, a vocalização, o corpo carnavalizado do sujeito poético. Caetano realiza o desejo oswaldiano, a saber: "a carnavalização antropofágica que rompe com o dominador usando-o satiricamente como a própria arma de luta", elabora Bina Friedman Maltz (1993, p. 10).
Mas a relação entre os dois poetas tem mais filigranas de intimidade. Como não reconhecer nos versos de "Enquanto seu lobo não vem" (Tropicália ou Panis et circensis, 1968) - "Vamos passear na floresta escondida, meu amor / Vamos passear na avenida / Vamos passear nas veredas, no alto meu amor / Há uma cordilheira sob o asfalto / (Os clarins da banda militar...) / A Estação Primeira da Mangueira passa em ruas largas / (Os clarins da banda militar...) / Passa por debaixo da Avenida Presidente Vargas / (Os clarins da banda militar...)" - ecos carnavalizantes, irônicos de "Na avenida / A banda de clarins / Anuncia com os seus clangorosos sons / A aproximação do impetuoso cortejo" (Pau Brasil)? E não é a mesma avenida que no final de O santeiro do Mangue surge: "Não há mais o Mangue, dizem / - Aquela nojeira! / Puseram por cima do Mangue Timoschenko / Os lustres / Duma avenida ilustre"?
Do mesmo modo que os versos "Nem quero saber se o diabo / Nasceu foi na Bahia / O trio elétrico / O sol rompeu / No meio dia" ("Atrás do trio elétrico") parecem parodiar o aforismo 13 do “Manifesto antropófago”, que diz: “Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará”. Se Oswald escreveu esse aforismo inspirado no maxixe “Cristo nasceu na Bahia”, de Sebastião Cirino e Antônio Lopes de Amorim Diniz (Duque), de 1926 – “Dizem que Cristo nasceu em Belém”, diz o primeiro verso da letra –, Caetano inverte as potências e tenciona o polo diabólico, amalgamando literatura e canção (cultura popular), gesto modernista condensado no aforismo 17 “Só podemos atender ao mundo orecular”, ou seja, fazer do ouvido oráculo, restituir a ontológica potência vocal da poesia, que Caetano mantém e desenvolve.
Caetano Veloso é baiano de Santo Amaro, autor dos versos "O carnaval é invenção do diabo / Que Deus abençoou / Deus e o diabo no Rio de Janeiro / Cidade de São Salvador / (...) / Cidades maravilhosas / Cheias de encantos mil / Cidades maravilhosas / Dos pulmões do meu Brasil" ("Deus e o diabo"), que, por sua vez, ao espelhar a Bahia no Rio, parecem desdobrar o aforismo dois – “O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança” – do “Manifesto da Poesia Pau Brasil”. Essa horizontalidade entre o maxixe e Wagner interessou a Oswald e repercute na obra de Caetano.
Voltando a tratar de "Escapulário", e ampliando o jogo intertextual oswaldiano, como não identificar no pedido do sujeito do poema - "Dai-nos Senhor" -, a súplica de Eduleia, personagem de O santeiro do Mangue? "Onde estás Senhor que não ouves o canto sangrado da prostituta, a prostituta que quer sair desta vida, que não faz para comer", clama aquela a quem só restam "a cachaça e o amô", ao invocar o corrosivo Jesus das Comidas, que, por sua vez, ao final do colóquio, diz "Eu me recolho ao Corcovado", revelando o Senhor do "Pão de açucar" a quem o sujeito de "Escapulário" roga. Além disso, na "Oração do Mangue", temos "os braços parados do Cristo / do Corcovado". Essa circularidade de significantes, essas autorreferenciações via assimilação crítica, também ocorrem com frequência no cancioneiro de Caetano. São muitos os versos retornados, reelaborados.
Podemos supor ainda que é dos versos de O Santeiro ("Tem por sentinelas / Equipagens e estrelas / Taifeiros madrugadas / E escolas de samba") que Caetano recolhe o ritmo eficaz para a canção "Escapulário": o samba! Note-se que o termo "escapulário" aparece em O santeiro do Mangue, quando o Coro canta "Vam fudê vam / Vam buchê vam / Temos um escapulário aqui / E duas troquesa lá / Vem cá". Do mesmo modo que a referência ao determinismo conformista religioso ecoa em "Será feita a sua vontade" no trecho "Uma criança não tem defesa / Nasceu norro / É fêmea / O que ela vai ser? / O que a sociedade mandar / Será feita a sua vontade / É destino / Das classes / Menos favorecidas". Para o saudoso professor Renato Cordeiro Gomes, "a este teocentrismo, Oswald, à maneira de Brecht, opõe o sociocentrismo. Informado pela filosofia marxista, vê a religião como ópio do povo, motivo de alienação e instrumento para manter imutável uma ordem social injusta, de privilégios, comprometida com a sociedade capitalista, burguesa e cristã" (1985, p. 29-30).
Percebe-se que não é à toa que O santeiro do Mangue é dedicado à "poesia em Cristo" de Murilo Mendes e Jorge de Lima. Eis o polêmico Oswald em ação: "O pau nosso de cada dia", diz um São Tesão em sua contra-ideologia; "O pau nosso / Dai-nos hoje", diz o Coro das Mulheres de Jerusalém. Ou seja, "efetua-se um jogo de forças: a questão religiosa permanece como um substrato que borra a superfície do texto, como num jogo dramático entre coadjuvante e protagonista" (GOMES, 1985, p. 34). Interações dialéticas, tomemização do tabu, assim como quando Oswald nomeia Seu Olavo o santeiro de seu poema dramático. Uma referência ao "príncipe dos poetas" Olavo Bilac? "Desde Bilac / Somos internacionalistas e portugueses juniors", escreve no poema "Estrondam em ti as iaras"; "Por que será que só no Mangue inda compra santo?", pergunta em sua ópera-chanchada. "Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses", defende no aforismo 24 de seu "Manifesto antropófago". Que poesia é essa que circula no Brasil? A quem ela se destina? De quem? Por quem? "O estado de inocência substituindo o estado de graça que pode ser uma atitude do espírito", escreve Oswald no "Manifesto da Poesia Pau Brasil".
Há ainda a crítica ao modo de vida burguesa nos versos "Eu quis cantar minha canção iluminada de sol / Soltei os panos sobre os mastros no ar / Soltei os tigres e os leões nos quintais / Mas as pessoas na sala de jantar / São ocupadas em nascer e morrer" (“Panis et circenses”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil) que, sintomaticamente, repercute por reminiscência o aforismo "A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente.", do "Manifesto da Poesia Pau Brasil". Ou seja, a pregnância da obra de Oswald na obra de Caetano é vasta e significativa.
Poderia ainda listar diálogos entre os versos "Mucosa roxa, peito cor de rola / Seu beijo, seu texto / Seu queixo, seu pelo / Sua coxa" ("Deusa urbana", Cê, 2006) e o sexo no Mangue: "Mucosas / (...) / Cor de coxa nua"; entre o Mangue enquanto "desafogo dos machos, válvula de garantia das famílias e gáudio honesto dos imperialistas em trânsito" e o brado "Seja imperialistas!", da canção "Língua" (Velô, 1984) - canção, aliás, que tem o enigmático "Será que ele está no Pão de Açúcar?" - ele quem? O Jesus das comidas de O Santeiro do Mangue? Esse poema dramático que, assim como Caetano citou Gonçalves Dias no poema de 1971, diz: "Ó leques das Palmeiras do Mangue / Suave Mangue / Sob o cristal da noite estelar / Pareceis abonar as felicidades meretrícias / Que psalmodiam / Com Deus me deito / Com Deus me levanto / Esmeraldas noturnas / Para os caçadores dos palmares do Mangue".
É conhecida a paródia "Minha terra tem palmares / onde gorjeia o mar" ("Canto de regresso à pátria", de Pau Brasil, 1925) que Oswald faz para "Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o Sabiá" ("Canção do exílio", Primeiros cantos, 1847), de Gonçalves Dias. Cânone em constate revisão é um gesto antropófago de Oswald, de Caetano, quando canta a idílica juventude na terra natal: "Itapuã / Quando tu me faltas, tuas palmas altas / Mandam um vento a mim / Assim, Caymmi", canta em "Itapuã" (Circuladô, 1991).
Caetano regravou a canção "Escapulário" no disco Abraçaço ao vivo (2014), quando forças ultraconservadores novamente começaram a ameaçar a democracia e a utopia antropofágica defendida por Oswald e Caetano. Sintomaticamente, "Escapulário" aparece entre as canções "Estou triste" e "Funk melódico", ou seja, entre o diagnóstico e a terapia: a metáfora - a poesia, que "existe nos fatos". É bom lembrar que a capa do disco Joia foi censurada pela ditadura civil-militar na época do lançamento. Os corpos nus do cancionista, de Dedé (mãe de seu filho) e Moreno (seu filho) desenhados incomodaram a pudica sombra desumana dos moralistas.
A pergunta da canção "Podres poderes" (Velô, 1984), que aparece como síntese do poema dramático oswaldiano, ainda tem pertinência: "Será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América católica, que sempre precisará de ridículos tiranos?". Essa parceria crítica entre Oswald de Andrade e Caetano Veloso finca posição aqui. Do mesmo modo que, se O santeiro do Mangue termina com um canto de esperança e desejo de uma sociedade onde "não existam mais os reis do Mangue", nem "senzalas Atlânticas", a obra de Caetano empenha-se no "otimismo programático", conforme afirmou na live feita com Paul B. Preciado, sob mediação de Ángel Gurría-Quintana para a FLIP em 05 de dezembro de 2020.
ANDRADE, Oswald de. O Santeiro do Mangue. São Paulo: Globo, 1991.
GOMES, Renato Cordeiro. Plural de vozes na festa (?) do Mangue - uma leitura de O santeiro do Mangue, de Oswald de Andrade. Dissertação de Mestrado. PUC-Rio, 1985.
MALTZ, Bina Friedman. Antropofagia e tropicalismo. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1993.
VELOSO, Caetano. Alegria, alegria. Uma caetanave organizada por Waly Salomão. Rio de Janeiro: Pedra Q Ronca, 1977.
VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das letras, 1997.
No Pão de Açúcar
De Cada Dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De Cada Dia
30 novembro 2020
Batendo no mundo - Água viva
A certa altura do livro Água viva a voz lírica-narrativa anota que "No fundo de tudo há a aleluia. Este instante é. Você que me lê é" (LISPECTOR, 1998, p. 36). Eis o it do livro, sublimar o instante de correspondência entre quem fala/escreve e quem ouve/lê. "Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar. / O que te escrevo é um "isto". Não vai parar: continua. / Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo. / O que te escrevo continua e estou enfeitiçada" (LISPECTOR, 1998, p. 95) são as últimas palavras do livro. Trecho, aliás, lido por Maria Bethânia no show Abraçar e agradecer (2015).
Ao analisar a desvocalização do logos e o consequente silenciamento das mulheres, Adriana Cavarero anota que "entendida como algo que sai da boca de alguém, a palavra, mais do que lugar da expressão, é o ponto de tensão entre a unicidade da voz e o sistema da linguagem" (CAVARERO, 2011, p. 30). Como sabemos, o patriarcalismo tem sérias dificuldades ao lidar com as unicidades, as alteridades e usa a linguagem para controlar e tiranizar. Parece-me que Água viva ao tentar apossar-se "do é da coisa" posiciona-se enquanto força contrária à dominação masculina. Não à toa o endereçamento da carta que a voz do livro finge escrever (rascunhar) é dado a um outro-homem.
Se para Ítalo Moriconi Água viva "pode ser lido na clave de um sublime feminino, associado à valorização dos atos sublimes de pintar/escrever" (2000, p. 720), a canção "Batendo no mundo" (Diurno, 2011), que Ava Rocha e Pedro Paulo Rocha compõem a partir do livro, é a transcriação de uma bio-feminina clariceana e que resiste ao império patriarcal: "Muita coisa não posso te contar. Não vou ser autobiográfica. Quero ser 'bio'" (LISPECTOR, 1998, p. 35), escreve a voz lírica-narradora, na "busca da similaridade entre escrita e acontecimento" (MORICONI, 2000, p. 722). Ao contar-se ela rejeita o autocentramento, a autografia, o grafocentrismo que ao longo do tempo vem silenciando as mulheres. "Escrevo ao correr das palavras" (idem), lemos.
O gesto se assemelha ao da Ariana de Hilda Hilst (1974) que diz "Antes de ser mulher sou inteira poeta". Para se desviar da tirânica expectativa-correspondência masculina, ser mulher parece exigir uma inscrição mulher. Para Cixous urge não "criar uma escrita feminina, mas de deixar transparecer na escrita o que até hoje sempre foi proibido, ou seja, os efeitos da feminilidade" (apud CAVARERO, 2011, p. 171).
O trecho do livro de Clarice que Ava Rocha e Pedro Paulo Rocha selecionam e montam para a cantora vocalizar vem logo após a frase já citada: "Este instante é. Você que me lê é". O convite a quem ouve é evidente: seja comigo, pulse junto, esteja no ritmo - "Você que me lê que me ajude a nascer", escreve a voz do livro (LISPECTOR, 1998, p. 36). Enquanto no livro temos "Custa-me crer que eu morra. Pois estou borbulhante em uma frescura frígida. Minha vida vai ser longuíssima porque cada instante é. A impressão é que estou por nascer e não consigo. Sou um coração batendo no mundo" (idem), Ava e Pedro recortam, montam e intervém (trocam o segundo "é" por "de"): "Cada instante é a impressão de que estou por nascer. Sou um coração batendo no mundo", delegando à vocoperformance e à melodia o trabalho de exibir a paisagem "bobulhante". A expressão "coração batendo" é repetida pelo menos sete vezes ao longo do livro. O título da canção, portanto, mimetiza essa insistência, essa experiência de ser: "estou improvisando", escreve a voz clariceana.
O trabalho executado na canção não é fácil. Ela mantem aquilo que Moriconi identificou em Água viva como sendo "assemblages [colagens] de fragmentos unificados por algum fio condutor" (MORICONI, 2000, p. 721). Na canção, o fio condutor é uma frase retirada do meio de um parágrafo: a quebra de fluxo e a frase seguinte são incorporadas à letra da canção. "Renuncio a ter um significado", "quero o inconcluso", "estou ouvindo agora uma música selvática", escreve a voz do livro. A respiração, as pausas, a mudança de ênfase silábica a cada repetição e os alongamentos vocálicos imprimem a "frescura frígida" clariceana à canção. A voz de Água viva é a voz da linguagem. Ao escolher um verso-frase potente de vida para vocalizar Ava Rocha restitui ao corpo da mulher o que anos de filosofia disciplinadora da linguagem roubou. "Só uma mulher / Sou um homem também // (...) // O que quer que seja / É e não é / Pode ser, de ser / O que se é / Seja homem, seja mulher", sugere Ava Rocha já na segunda canção do referido disco.
"O preço da eliminação do caráter físico da voz é, em primeiro lugar, a eliminação do outro, ou melhor, dos outros" (CAVARERO, 2011, p. 65); e as mulheres sabem bem a consequência disso. Ao cantar as palavras do instante-já da linguagem Ava mostra compreender a angústia da voz clariceana que diz "escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio" (LISPECTOR, 1998, p. 12-13), ou "eu te escrevo com minha voz" (p. 40). Ava libera, porque presentifica no corpo físico, na garganta, na boca, a voz presa no livro.
CAMPOS, Haroldo de. Metalinguagem & Outras metas. São Paulo: Perspectiva, 1992.
CAVARERO, Adriana. Vozes plurais: filosofia da expressão vocal. Trad. Flávio Terrigno Barbeitas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
HILST, Hilda. "Ode descontínua e remota para flauta e oboé. De Ariana para Dionísio". In: Júbilo, memória, noviciado da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, [1974].
LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
______. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
MORICONI, Italo. A Hora da Estrela ou a Hora do Lixo de Clarice Lispector. In: ROCHA, João Cezar de Castro. Nenhum Brasil Existe: Pequena Enciclopédia. Rio de Janeiro: TopBooks, 2000. p. 719-727.
30 outubro 2020
Coco de Pagu
"As musas ensinam o poeta a mentir". Precisamos entender essa sentença atribuída a Hesíodo (Teogonia, versos 27-28) de modo contextual e para além da contraposição verdade (positivo) versus mentira (negativo) de nossa cultura moderna. As Musas clássicas não se limitavam a afirmar, mas também a esquecer e desvelar o despercebido histórico. O saber das Musas conjugava coisas verdadeiras (real, cotidiano) e mentirosas (ficção, promessa de verdade).
A Musa cumpria um papel fundamental enquanto fonte da mensagem, da mania fonética inspiradora. Seja invocada por Homero, Hesíodo, Castro Alves, a Musa clássica (essa entidade subdivida em máscaras diversas) cantava o que viu, porque esteve presente ao acontecimento e conservava guardados os detalhes a serem contados ao poeta, já que este dispunha do tempo necessário à audição da narrativa musal. Algo que o homem comum não teria acesso, necessitando do relato parcial e incompleto do poeta. Não sendo a autora da história, as Musas forneciam os meios do gesto autoral ao poeta.(Raul Bopp / Beatriz Azevedo)
Pagu tem os olhos moles
uns olhos de fazer doer.
Bate-côco quando passa.
Coração pega a bater.
Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
Passa e me puxa com os olhos
provocantissimamente.
Mexe-mexe bamboleia
pra mexer com toda a gente.
Eli Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
Toda a gente fica olhando
o seu corpinho de vai-e-vem
umbilical e molengo
de não-sei-o-que-é-que-tem.
Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
Quero porque te quero
Nas formas do bem-querer.
Querzinho de ficar junto
que é bom de fazer doer.
Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.
30 setembro 2020
Padrão
O fato é que no meio de “É proibido proibir”, acompanhado de Os mutantes, Caetano incluía versos do livro pessoano Mensagem (1934). Para Caetano: “o livro de Pessoa que me impressionara na época da faculdade por ser capaz – ao parecer constituir a fundação mesma da língua portuguesa ou sua justificação última – de dar vida digna a esse mito tão frequentemente ridicularizado (o termo “sebastianismo” virou sinônimo de impotência auto-iludida, um quase consensual depreciativo da crítica da cultura entre nós)” (VELOSO, 1997, p. 300). E completa: “O poema de Pessoa é, em si mesmo, uma joia do modernismo português – e uma obra-prima da poesia moderna em qualquer língua. Declamá-lo ali num programa de televisão, entre guitarras elétricas e slogans surrealistas emprestados aos estudantes franceses, era um desafio formal e também significava forçar uma visão implausível no ambiente” (p. 301).
Se naquela noite não teve Fernando Pessoa, no ano seguinte o cancionista lançava “Os argonautas” no disco Caetano Veloso (1969), canção cujo refrão repete o emblema “navegar é preciso, viver não é preciso”, que Pessoa (Bernardo Soares) anota pelo menos duas vezes no Livro do desassossego: no fragmento 125 – “Diziam os argonautas que navegar é preciso, mas que viver não é preciso. Argonautas, nós, da sensibilidade doentia, digamos que sentir é preciso, mas que não é preciso viver” (PESSOA, 2011, p. 146-147); e no fragmento 306 – “Ficamos, pois, cada um entregue a si-próprio, na desolação de se sentir viver. Um barco parece ser um objeto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontramo-nos navegando, sem a ideia do porto a que nos deveríamos acolher. Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso” (PESSOA, 2011, p. 292-293).
O barco e o porto presentes no texto pessoano reaparecem no primeiro e último verso de cada uma das três estrofes da canção de Caetano. Mas a frase “navegar é preciso, viver não é preciso” vem de uma tradição mais antiga, diz-se do século I a.c., dita pelo general romano Cneu Pompeu Magno para intimidar e encorajar seus marinheiros: “Navigare necesse, vivere non est necesse”. No século XIV, o poeta italiano Petrarca assentou a expressão e Pessoa popularizou entre nós, ligando-a aos míticos argonautas, tripulantes da nau Argo, que foram até a Cólquida em busca do Velocino de ouro. Entre eles Jasão e Orfeu.
Por sua vez, Caetano interfere no cânone ao suprimir a ambiguidade do “preciso” final. “Navegar é preciso / Viver”, canta com acento do português de Portugal. O contexto de contracultura leva Caetano a incorporar antropofagicamente a tradição que Pessoa representa. Afinal, viver em tempos de sufoco, censura e repressão torna o viver impreciso. “O porto, não”, “o porto, nada”, “o porto, silêncio”. Note-se que Caetano Veloso é um exímio leitor de poesia, filosofia, ficção. As leituras do cancionista exercem forte repercussão nas suas canções. Ora de modo mais explícito, como quando canta poemas; ora através de citações, como é o caso.
Na canção “Língua” (Velô, 1984) Caetano canta as questões de identidade nacional que tanto interessam à sua poética: “Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões / Gosto de ser e de estar / E quero me dedicar a criar confusões de prosódia / E uma profusão de paródias / Que encurtem dores / E furtem cores como camaleões / Gosto do Pessoa na pessoa”; mais adiante diz “E deixe os Portugais morrerem à míngua”, talvez num diálogo intertextual com o fragmento 259 do Livro do desassossego: “Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. A minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro direto que me enoja independentemente de quem o cuspisse” (PESSOA, 2011, p. 258).
Ainda em “Língua” Caetano cita o verso pessoano “Minha pátria é minha língua” e interfere, devora, expande, reescreve: “A língua é minha pátria / E eu não tenho pátria, tenho mátria / E quero frátria”. O refrão é ápice da amálgama fratriarcal caetânica, pois, citando os versos de “Língua portuguesa”, soneto do parnasiano Olavo Bilac – aquele da “Última flor do Lácio, inculta e bela, / És, a um tempo, esplendor e sepultura” –, Caetano compreende a língua-esfinge: “Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó / O que quer / O que pode esta língua?”, pergunta. Se Camões e Pessoa rimam “mar”/”navegar”, Bilac rima “oceano largo”/”exílio amargo”, “em que Camões chorou”. Por sua vez, a língua-boneca-russa, a língua que é citações críticas, a língua caetânica rima enviesadamente “Camões”/”camaleões”, “míngua”/”língua”, atenta ao “falso inglês relax dos surfistas” do mar, do oceano que a língua continua sendo transcorrendo, transformando-se. Língua “(entre o mar e aquilo que o mar espelha) as palavras”, como ele escreveu na revista Navilouca (1974).
Diretor do icônico filme Meteorango Kid – O Herói Intergalático (1969), o cineasta André Luiz Oliveira diz que o interesse pela obra de Fernando Pessoa se aprofundou quando viu Caetano Veloso incluir os versos do bardo português no happening da canção “É proibido proibir” em 1968. Em 1986, André Luiz começou a musicar os poemas do livro Mensagem. Foram necessários três discos para dar conta dos 44 poemas do livro: 1986, com 12 poemas; 2005, 13 poemas; e 2015, com os 19 poemas restantes. Vários arranjadores e cantores envolvidos.
Caetano Veloso aparece no primeiro e no terceiro discos, cantando “Padrão” e “D. João Infante, de Portugal”, respectivamente. “Fernando Pessoa é a justificativa da existência da música portuguesa. É para isso que existe a língua portuguesa. Mensagem é o livro de Fernando Pessoa da minha preferência desde que eu conheci”, comenta Caetano no DVD que registrou os bastidores do projeto.
Em “Padrão” encontramos o de sempre – o mar, o navegar, “o porto sempre por achar”, a primeira pessoa de Pessoa e, o mais importante, o “Padrão”: a língua portuguesa cantada, escrita, reencantada: “A alma é divina e a obra é imperfeita. / Este padrão sinala ao vento e aos céus / Que, da obra ousada, é minha a parte feita: / O por fazer é só com Deus”.
Parece-me pertinente perceber ecos dos versos “Eu, Diogo Cão, navegador, deixei / Este padrão ao pé do areal moreno / E para diante naveguei” na voz dos sujeitos cancionais de “Tropicália” – “Eu organizo o movimento / Eu oriento o carnaval / Eu inauguro o monumento / No planalto central do país”; e de “Alegria alegria” – “Por entre fotos e nomes / Os olhos cheios de cores / O peito cheio de amores vãos / Eu vou / Por que não, por que não”. Em ambas, do disco Caetano Veloso (1968), o mesmo ímpeto inaugural, a mesma impermanência do Diogo Cão pessoano.
Ainda no livro Verdade tropical Caetano comenta que “com Mensagem eu me sentia em presença de algo mais profundo quanto a tratar com as palavras, por causa de cada sílaba, cada som, cada sugestão de ideia parecer estar ali como uma necessidade da existência mesma da língua portuguesa: como se aqueles poemas fossem fundadores da língua ou sua justificação final” (VELOSO, 1997, p. 339). É esse tom devoto e sem o acento que tenciona paródia, paráfrase e caricatura, presente nas interpretações de “Casa Portuguesa”, de Artur Fonseca, Reinaldo Ferreira e Vasco Matos Sequeira (Palco - corpo e alma, 1976); “Estranha forma de vida”, de Amália Rodrigues e Duarte Marceneiro (Totalmente demais, 1986); e “Coimbra”, de José Galhardo e Raul Ferrão (Omaggio a Federico e Giulietta, 1999), que Caetano Veloso escolhe para elogiar o padrão português. “Porque é do português, pai de amplos mares, / Querer, poder só isto: / O inteiro mar, ou a orla vã desfeita – / O todo, ou o seu nada”, canta também Caetano em “D. João, infante de Portugal”; assumindo o risco de estar à deriva.
Da nau Argo à Navilouca, se “navegar é preciso”, “o mar sem fim é português”, sugere o autor de “É proibido proibir”.
PESSOA, Fernando. Mensagem. São Paulo: Ática, 1972.
PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por fazer é só com Deus.
E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.







