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13 abril 2025

Letras e letras da MPB


Charles Perrone é professor aposentado da Universidade da Flórida, onde se dedicou por mais de trinta anos ao ensino da língua, literatura e cultura brasileiras, sendo reconhecido como um dos mais destacados brasilianistas dos Estados Unidos. Em LETRAS E LETRAS DA MPB o professor analisa a palavra cantada na língua portuguesa falada no Brasil, sua transdisciplinaridade, as escritas biográficas e biopoéticas que tornam a canção popular o eixo central de brasilidade. O livro é referência de base na pesquisa de quem queira, portanto, se aventurar na área. "Caetano interpreta textos ou fragmentos de poetas não-conformistas de diferentes séculos. Por outro, ele é um criador que incorpora, em suas próprias canções, conceitos poéticos desses mesmos autores e de autores de vanguarda que os poetas concretos traduziram. Grande parte de seus textos musicais pode ser tratada como poesia lírica mais convencional, o que confirma mais ainda a desenvoltura literária do compositor", escreve Charles, por exemplo, lançando luz sobre a velha querela entre letra-de-canção e poema-de-livro. De fato, sem esquecer da performance, LETRAS E LETRAS DA MPB investe mais na interpretação da competência "literária" de nossos cancionistas. "Olhando para o cenário sócio-político-musical brasileiro, Perrone oferece ao leitor um outro modo de ouvir as canções deste país tropical: o olhar distanciado vinte e poucos anos após o golpe militar", escreve Amador Ribeiro Neto no Prefácio da edição de 2008, referindo-se aos anos contemplados pelo autor, meados de 1960 até meados de 1980 - anos cruciais da história de nossa canção; e revistos com rigor e sabor pelo autor de LETRAS E LETRAS DA MPB.

06 abril 2025

O livro do disco Da lama ao caos


Sendo a canção popular a mais expressiva linguagem artística do Brasil, responsável por engendrar a lírica nacional e promover a nossa educação sentimental, é de se espantar a ainda pequena bibliografia sobre o tema. Basta observar as prateleiras das livrarias. A coleção O livro do disco é, portanto, um oásis, que tem registrado a memória dessa potência nacional. É com rigor jornalístico que Lorena Calábria passa em revista a estética intimamente política do fenômeno Chico Science & Nação Zumbi - um dos mais importantes acontecimentos dos anos 1990. Eu lembro bem a injeção de ânimo que a cena manguebeat inoculou na juventude da região nordeste do país. Em O LIVRO DO DISCO DA LAMA AO CAOS Lorena vai nas fontes primárias e arqueologiza essa cena e suas reverberações, que não se limitavam ao campo da música, posto que "O homem coletivo sente a necessidade de lutar", como ouvimos em "Monólogo ao pé do ouvido". "As palavras de ordem contidas na letra expressam a vontade de reconfigurar sons do mundo inteiro, sem excluir nacionalidades, para dar origem a algo novo, universal", escreve Lorena. E completa: "o chamamento à luta não é direcionado para o público em geral; ele é baixinho, dito ao ouvido de cada um - o que só aumenta sua força". A morte precoce de Chico Science foi um golpe brutal para a minha geração. O imaginário, o frescor, a convocação parecia frustrada. Mas a banda soube elaborar o luto, se reestruturar e seguir envenenando o país com beleza e urgência temática, deslocando o eixo do centro da indústria fonográfica. O LIVRO DO DISCO DA LAMA AO CAOS recompõe o início dessa jornada, desse clima de época. Dá saudade, mas dá felicidade ler sobre a nossa potência sonora, saber da competência ética e estética de nossos cancionistas. E Lorena dá aula de pesquisa e escrita, revelando bastidores e velando a memória de nossa canção popular.

30 março 2025

Impressões de viagem


Se para Murilo Mendes "poucos homens atingem sua época". Heloísa Teixeira é intelectual que atinge e provocava sua época de modo singular. Difícil encontrar algum momento ou movimento literário desde os anos 1960 no Brasil que não tenha sido comentado, criticado, analisado pela pulsão de vida de Heloísa. Atenta à palavra poética em suas várias possibilidades de comunicação e expressão estética, seus textos são leituras incontornáveis. Destaco IMPRESSÕES DE VIAGEM, livro fonte de muitas reflexões, não apenas sobre "cpc, vanguarda e desbunde", mas também sobre o estado de coisas enfrentado pelas artes e pela cultura nos anos 1960/70. Estado de coisas que reverbera ainda hoje: a dessacralização da literatura (para quem? por quem? quem escreve?) e a reauratização do(a) autor(a), em que pese certa "confusão" interessada pelo sistema entre poética e polêmica, por exemplo. Por sua vez, Heloisa é crítica implicada no corpus sob análise e realiza uma crítica que transita, ou, em suas palavras, que está em "deslocamento tático", incorporando o corpus do outro. Para a autora de IMPRESSÕES DE VIAGEM há naquele contexto de ditadura militar o clima paradoxalmente ufanístico e de “vazio” cultural: "o aperto da censura e a sistemática exclusão do discurso político direto acabam por provocar um deslocamento tático da constelação política para a produção cultural. Ou seja, a impossibilidade de mobilização e debate político aberto transfere para as manifestações culturais o lugar privilegiado da 'resistência'", escreve. Em dezembro de 1978, Heloisa observava que a capacidade de o sistema recuperar a contestação é surpreendente. A história de lá para cá confirmou o diagnóstico, tornando atemporal a pergunta da autora: "de que forma a biotônica ["potente", sic] vitalidade dos novíssimos [de hoje, podemos contextualizar] responderá e absorverá esses novos ares [de agora, idem]?". Mais do que um registro pessoal, IMPRESSÕES DE VIAGEM é método de pesquisa e projeta mundos no mundo experimentado na poesia brasileira recente.

23 março 2025

Música - o nacional e o popular


Tem livros que guardam verdadeiras pérolas. É o caso do número MÚSICA da série "O nacional e o popular na cultura brasileira", lançado em 1982, quando a historiografia da nossa cultura e o debate em torno do nacionalismo ganhavam novo fôlego, após os anos de chumbo da ditadura militar. O volume guarda textos de Enio Squeff e de José Miguel Wisnik. Enquanto o primeiro se questiona sobre como historiografar a música no Brasil, ou como a música historiografa (arquiva, rompe e revolve) o Brasil, tensionando "a mesma estrutura que privilegia uma indústria cultural relativamente sofisticada na sua malícia, para que maior seja a dominação de todo um sistema"; o segundo faz "um convite ao erro". Wisnik sabe que "as massas urbanas, cuja presença democrático-anárquica no espaço da cidade (nos carnavais, nas greves, no todo-dia das ruas), espalhada pelos gramofones e rádios através do índice do samba em expansão, provoca estranheza e desconforto". É esse "desconforto", esse "erro" civilizacional de matriz teórica oswaldiana o que distingue aquilo que o autor defende como "gaia ciência" brasileira. Para Wisnik, "a conjunção entre o nacional e o popular na arte visa à criação de um espaço estratégico onde o projeto de autonomia nacional contém uma posição defensiva contra o avanço da modernidade capitalista, representada pelos sinais de ruptura lançados pela vanguarda estética e pelo mercado cultural (onde, no entanto, foi se aninhar e proliferar em múltiplas apropriações um filão da cultura popular)". Por essas e outras tiradas o texto "Getúlio da Paixão Cearense (Villa-Lobos e o Estado Novo)" merece estar na biblioteca de quem se interessa por cultura, música e política no Brasil.

16 março 2025

Peças íntimas


"O padre convidava alguns alunos: os mais aplicados, mais asseados, mais educados, para a aula de caligrafia gótica". A frase lida no começo do conto "A boa educação" encapsula os climas e as sensações que o livro PEÇAS ÍNTIMAS espraia ao longo de 17 narrativas tão luxuriosas quanto brejeiras. Tencionando cores de Almodóvar, voyeurismo de Pasolini e bastidores domésticos rodriguianos, Victor Hugo Adler Pereira apresenta um coro de vozes criadas entre a sacristia e o vestiário do quartel, compondo um sujeito integral-porque-fractal. "Em meio a essas vozes do passado, outros personagens se impuseram, esgueiravam-se entre memórias, distorcendo-as, refletindo-se na ficção", anota o autor. De fato, cada conto é um fotograma que vai lentamente montando o filme de uma vida desdobrada das questões enfrentadas pela geração do autor. "A loucura e o banimento espreitavam ameaçadores, os exemplos entre parentes confirmavam o perigo. (...) Os contos, em uma cronologia não muito rigorosa, apresentam cenas que provocam as indagações e dúvidas dos personagens, sobre questões como as relações de gênero e as definições identitárias, o envelhecimento e a morte", escreve Victor Hugo. O título do livro pulsa da expressão (algo) pudica do coroinha em estágio de nascente desejo: "Pensei no perigo de adentrar a sacristia com aquelas peças íntimas na mão - o pior, que nem me pertenciam", lemos em "Sursum corda! Habemus ad Dominum!". Padres, tios, homens de autoridade ou autoritários agem de modo irreversível na educação das várias vozes que lemos cantando em uníssono e sem moralismo no livro PEÇAS ÍNTIMAS.

09 março 2025

Oswald de Andrade mau selvagem


"Por um buraco da meia escocesa, verde e amarela, surge um pedaço caloso do meu pé velho que tanto andou". A anotação de Oswald de Andrade em seu "Diário confessional" (23/04/1951) dá conta de resumir bem o fim da trajetória de um dos mais anárquicos pensadores do século XX. Em OSWALD DE ANDRADE MAU SELVAGEM Lira Neto registra a vida e a obra desse sujeito que empreendeu o entendimento de nossa tropical melancolia. Se a biografia não revela nenhuma novidade sobre a persona satírica auto corrosiva do biografado, ela tem o mérito de passar em revista e organizar contextos e situações fundamentais para o pensamento plural de Brasil. Por exemplo, com rica pesquisa e senso de seleção, Lira Neto ajuda a entender porque a obra crítica e criativa de Oswald interessaria à Poesia Concreta, ao Teatro Oficina e à Tropicália. Há um investimento utópico (de ação!) na "pureza ingênua e [n]a revolta instintiva" da gente brasileira unindo ética e esteticamente cada um dos agentes desses movimentos. Mas Lira Neto não poupa o biografado, retratado também em suas contradições e canalhices. O que dizer do modo como Oswald tratou as mulheres com quem se relacionou? Herdeiro, Oswald penou encalacrado em dívidas; piadista, perdeu (quase) todos os amigos ao confundir "autenticidade" com grosseria; adepto do comunismo - "povo quer dizer o povo que trabalha, o povo que sofre, o povo oprimido e explorado", lutou até o fim (chegando a recorrer pessoalmente a Getúlio Vargas) para não perder privilégios de classe. Concomitantemente, o livro OSWALD DE ANDRADE MAU SELVAGEM mostra o pensador de ouvidos e olhos livres para o sambista Sinhô e para o palhaço Piolin; e de pé atrás contra o re-academicismo engendrado pelos então críticos universitários emergentes e excessivamente eurocentrados dos anos pós-Semana de 1922. Errado e errante, a obra de Oswald ainda carece de dentadas mais profundas. Pesquisas e livros como OSWALD DE ANDRADE MAU SELVAGEM é ótima leitura para quem queira devorar o antropófago cru ou cozido.

02 março 2025

A primazia do poema III


Na frase final da “Breve explicação” que abre o livro A PRIMAZIA DO POEMA III, Wilberth Salgueiro registra que “estes ensaios se articulam estreitamente à pesquisa que desenvolvo há alguns anos junto ao CNPq, em torno de poesia brasileira, testemunho e humor” e dá a dica daquilo que o leitor irá encontrar ao longo dos textos. Na melhor tradução da proposta oswaldiana – amor / humor, o ensaísta experimenta a prática crítica que convoca a cumplicidade de quem lê. E nisso age o humor, a graça de quem maneja com rigor e vontade as referências teóricas que, no caso de Wilberth, se baseiam, principalmente, nos métodos propostos por Antonio Candido e Theodor Adorno. Com Candido, Wilberth nos lembra que texto é contexto e forma é conteúdo, entre outras máximas do mestre; com Adorno, ele nos aponta que se a arte “não fosse, sob alguma mediação qualquer, fonte de alegria para muitos homens, não teria conseguido sobreviver na mera existência que contradiz e a que opõe resistência”. E é essa alegria (a força maior) o que sentimos durante a leitura dos textos de Wilberth. No meu caso, é sempre a página (à esquerda, note-se) “Sob a pele das palavras” a que primeiro procuro e leio quando abro o jornal Rascunho, mensalmente, onde os textos agora recolhidos em A PRIMAZIA DO POEMA III foram publicados. Wilberth trabalha acionando competências, peculiaridades e especificidades de cada poema. Sem subestimar o leitor, pelo contrário, apresentando a beleza do sensível compartilhado no ato de leitura.