Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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04 junho 2023
Eu. E. Cummings
Com poemas cantados de Ana Carolina a Zeca Baleiro, talvez não seja exagero dizer que Edward Estlin Cummings está na boca do brasileiro. e. e. cummings compõe o paideuma dos poetas concretos, assim como os procedimentos dos poetas concretos são referências importantes para a poesia de Paulo de Toledo. Também tradutor, Toledo se utiliza do conceito de transcriação para nos re-apresentar cummings, poeta traduzido por Augusto de Campos, vide o livro "40 poem(a)s". Desse modo, o livro EU. E. CUMMINGS brinca com essa ciranda de (auto)referencialidades extra, intra e intertextuais do poeta e da poética cummingsiana. Usando sua notável verve irônica de matriz oswaldiana, Toledo inscreve a si quando reescreve cummings. "Além do jogo de palavras com o nome de cummings, o título foi motivado por ser um livro de um 'amador', de um tradutor não-especialista, de alguém que faz porque ama. Daí o 'Eu' do título se refere à relação afetiva entre o tradutor - que há mais de 20 anos tenta verter para o português a 'tortografia' cummingsiana - e o genial poeta", lemos na apresentação. As soluções transcriativas são eficazes e destacam a dificuldade da "tortografia" e a beleza da poesia singular, com seu lirismo moderno, carregado de pesadelos: "and is it dawn / the world / goes forth to murder dreams" fixa-se "e é o alvorecer / o mundo / se encaminha para sonhos assassinos"; ou "-after which our separating selves become museums / filled with skilfully stuffed memories" fixa-se "-após o que nossos eus separados tornam-se museus / repletos de memórias habilmente empalhadas". A autodeclara não-especialidade de Paulo de Toledo permite a ele experimentar as palavras aglomeradas, os eus urbanos de cummings, suas inquietações: "to hell with literature / we want something redblooded" fixa-se "pro inferno com a literatura / queremos algo que pingue sangue". E não é isso que a literatura quer? "something authentic and delirious" [algo autêntico e delirante]? Isso o livro EU. E. CUMMINGS nos dá.
28 maio 2023
Artigos selecionados - Carlinda Nuñez
"Viver não cabe no Lattes", diz o meme que fala fundo ao coração de quem desenvolve pesquisa no Brasil. Por isso mesmo é preciso reconhecer e agradecer quem faz do viver uma invenção dos melhores modos de ser e estar inteiro em cada coisa que realiza, dentro e fora do trabalho (se é que há essa fronteira num mundo neoliberal). O livro ARTIGOS SELECIONADOS, com textos da professora Carlinda Fragale Pate Nuñez, é isso: um reconhecimento. Organizado por Elisa Figueira de Souza Corrêa e Isabel Arco Verde Santos, o volume guarda textos, artigos diversos, distantes entre suas publicações em revistas acadêmicas, mas cuja unidade se dá pela linguagem direta, o rigor metodológico e o manejo de conhecimentos clássicos - tudo o que caracteriza a trajetória docente da autora. Ninfas, Musas, mitos gregos, Almodóvar, Lanthimos, Música, Poesia, tragédias e abismos aparecem animados pela escrita da autora, para quem "A Antiguidade clássica fornece duas representações díspares das mulheres. De um lado, as mulheres trágicas, entes sociais sem voz e que já têm em si algo de personagem, pois entram em cena para receber, em muitos casos, o troféu de uma morte violenta, narrada. (...) De outro lado, as musas, figuras míticas cuja invocação necessariamente antecede qualquer atividade intelectual, monopólio de homens, no quadro da Antiguidade". A inspiradora trajetória da vida acadêmica de Carlinda transvaloriza o meme, ao lançar mundos no mundo. Vida longa!
21 maio 2023
Rita Lee mora ao lado
Desde que Rita Lee foi voar num disco voador com David Bowie proliferam-se nas redes frases como "ela era feminista sem ser feminista", tanto para deslegitimar a militância, quanto para reforçar a pecha de "alienada" da artista. Esquece-se que, no Brasil, desbundar é militar, é subverter. Em algumas entrevistas Rita Lee falava em "feminismo de ação", ou seja, sem negar a militância intelectualizada, ela militava com gestos transgressores que confrontavam o nosso ethos machista opressor. Nada mais feminista, em se tratando de uma cultura com "diferentes feminismos", como dignostica a professora Eurídice Figueiredo no livro "Por uma crítica feminista". Sendo "uma biografia alucinada da rainha do rock", o livro RITA LEE MORA AO LADO, de Henrique Bartsch, traduz bem essa persona artístico-política. O autor coloca em prática a lição de Maiakóvski, a saber, "tirando os monumentos do pedestal, devastando-os e virando, nós mostramos aos leitores os Grandes por um lado completamente desconhecido e não estudado". Nas palavras da biografada, Bartsch apresenta "um tratado arqueológico de minha vidinha vulgar, o encontro de vários elos perdidos, Peter Pan na terra de Oz do Sítio do Picapau Amarelo. Uma viagem lisérgica sem tomar ácido algum". Não sendo uma biografia o livro RITA LEE MORA AO LADO biografa, ao devastar o monumento que Rita Lee nunca quis ser. Mas é!
14 maio 2023
Ditadura no Brasil e censura nas canções de Rita Lee
O livro DITADURA NO BRASIL E CENSURA NAS CANÇÕES DE RITA LEE é saber com sabor resultado do trabalho atento de Norma Lima. Pesquisadora e arquivista da obra de Rita Lee, a professora lembra que a mutante foi a compositora mais censurada pela (nossa) ditadura militar. Letras proibidas, estratégias de driblar a tirania fascista, a escrita da voz feminina interditada são manejadas por Norma Lima a fim de apresentar a importância, a inovação e a luta por liberdade criativa, que, no caso do Brasil, é liberdade de expressão da mulher. Com farto material analisado, o livro guarda um procedimento caro à crítica de canção e à história da cultura brasileira. "Rita Lee, assim, simboliza a censura a espíritos livres, os quais, independentes da época em que existam, sempre incomodam os limitados. Os fatos analisados e ocorridos com ela e com sua obra clamam para que os tenebrosos anos de exceção nunca mais se repitam no Brasil, ao mesmo tempo que conclamam que a sociedade contemporânea - e mundializada - reflita sobre experiências antigas em novos cenários", conclui Norma Lima.
07 maio 2023
A Princesa
A quantidade de pessoas travestis e transexuais assassinadas no Brasil é assustadora. E com as garras fascistas sobre as poucas políticas públicas de inclusão, o número só tende a crescer. O livro A PRINCESA, misto de entrevista (a Maurizio Jannelli - ex-integrante das brigadas vermelhas) e prosa narrativa, apresenta "o avesso de um conto de fadas": a luta de Fernanda Farias de Albuquerque - do nordeste brasileiro a uma prisão italiana - para sobreviver ao horror transfóbico e à imposta marginalização. O livro é o resultado da montagem dos inúmeros bilhetes trocados entre Princesa e Maurizio, com a ajuda de Giovanni Tamponi. As histórias de resistência, os usos dos instrumentos de sobrevivência se sobrepõem, se justapõem. "Eu estava fresca de Brasil e isto dizia alguma coisa aos clientes. Eu sentia, pelo modo como eram atraídos pelo meu sorriso. Vendia exotismo, e só às seis da manhã acabei de realizar o último sonho. Exausta", anota Fernanda, no caderninho que transitava entre as celas, dando conta de sua chegada na Europa. A tradução de A PRINCESA é de Elisa Byington.
30 abril 2023
O som vertebrado
Edimilson de Almeida Pereira é poeta cuja obra tem minha atenção desde o primeiro poema lido. A cada livro, a cada poema, o rigor e o frescor da linguagem manejada por Edimilson mais se revela para mim enquanto concentrações de belezas cujas singularidades se presentificam em novidade e informação. "Os cães que fui me desconhecem. / Um tigre azul, / outro pintado - indeclináveis na língua", lemos no poema "O homem", do livro O SOM VERTEBRADO. Aqui a palavra falada é fixada sem prejuízo do sonoro. Se em Iniciação na cultura literária medieval, Segismundo Spina observa que "proclamada a superioridade e a anterioridade da letra em relação à melodia musical, surge então o poeta; e a fase do trovador e do troveiro entra em declínio. Há agora uma especialização de funções: o poeta compõe a letra, ficando a cargo do músico a melodia. A poesia deixa de ser cantada para se tornar cantável", Edimilson reencontra a ancestralidade do poético na voz e no corpo presente de Milton Nascimento, nublando as fronteiras do dito, do escrito. O que temos diante dos olhos são cantos que acionam nossas memórias sonoras. Isso restitui o caráter coletivizante, do canto coral que em algum momento da nossa história se perdeu, foi desperdiçado, ou recalcado: "há um deserto entre as begônias", escreve Edimilson. "Não é pelo que se perdeu que se canta, Camões?", pergunta. Em O SOM VERTEBRADO Edimilson totemiza leituras, audições, vivências afirmando que "O cerco às ideais tem aparatos / em Minas / ou em qualquer estado"
23 abril 2023
Caetano Veloso 50:500 - versos y versiones 1963-2012
Evangelina Maffei é a maior arquivista daquilo que sai sobre Caetano Veloso na imprensa. Não há como fazer pesquisa da obra do cancionista nascido no cosmopolita recôncavo baiano sem consultar o arquivo caetanoendetalle mantido pela organizadora no blogspot. Lançado há 10 anos, o livro CAETANO VELOSO 50:500, VERSOS Y VERSIONES 1963-2012 dá conta de compilar o trabalho primoroso de Evangelina. Cada canção lançada pelo artista recebe aqui um registro com data, disco e intérprete. Além de citações breves das letras. TODAS as letras de Caetano estão referidas aqui. O livro transita entre o catálogo, o almanaque, o dicionário e a curadoria inspiradora de Evangelina. Natural e moradora de Buenos Aires, a autora de CAETANO VELOSO 50:500, VERSOS Y VERSIONES 1963-2012 "se dedica a la investigación centrada en la música popular". O "se dedica" não é retórica vazia. Evangelina Maffei realiza e entrega à memória de nossa canção popular "más de 3.000 grabaciones en portugués y adaptaciones en español, catalán, alemán, finlandés, francés, inglés, italiano, japonés y sueco". Tudo feito pelo puro e simples sabor do gesto de ouvir canção popular brasileira, essa linguagem que se espraia pelo mundo como um vento caymmiano. Relicário imenso do amor à canção, o livro CAETANO VELOSO 50:500, VERSOS Y VERSIONES 1963-2012 está fazendo 10 anos e isso merece um registro e um agradecimento à autora. Que Evangelina tome esse registro como um beijo de gratidão.






