Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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19 abril 2026
História da violência
A literatura de Édouard Louis não me pega apenas pela minha identificação direta com o escrito - pobreza, homofobia, violência, investigação dos sentimentos, formação intelectual, solidão -, mas, principalmente, pelo modo de realizar o escrito. E isso está melhor realizado no livro "Mudar: método", em que Louis revela os bastidores da performance da persona pública que ele criou para si. De fato, Louis revela a performance na linguagem. E talvez seja isso, essa não neutralidade, essa implicação do sujeito no escrito o que me leva a me aproximar muito do lido. Em HISTÓRIA DA VIOLÊNCIA, Louis narra um estupro sofrido numa noite de natal. O lance é que, de fato, quem narra o livro é a irmã de Louis, Clara, a quem ele contou a história. Louis faz a montagem da narrativa, digamos assim. Clara está contado para seu marido. Louis ouve atrás da porta e faz para nós, leitores, pequenos comentários, parênteses, itálicos, retificações, complementos. Esse gesto de se afastar do trauma para melhor investigá-lo é característico de sua escrita. Depois do estupro, Louis passa uns dias na casa da irmã, a fim de se afastar da cena da violência ("era como se o cheiro dele estivesse incrustado em mim, dentro de mim, entre a carne e a pele"), do hospital (onde "Minhas lágrimas não eram falsas, a dor era real. Mas eu sabia que tinha que me entregar ao papel se quisesse ter chance de que acreditassem em mim"), da polícia ("A cópia do B.O. que guardo em casa, redigida em linguagem policial, menciona: tipo magrebino. Cada vez que meus olhos leem essas palavras eu me enfureço, porque ainda ouço o racismo da polícia..."), do medo de que Reda volte a aparecer. Com tradução de Marília Scalzo, HISTÓRIA DA VIOLÊNCIA é a armação de memórias, escutas, fragmentos de tempos, citações que elaboram publicamente o trauma do estupro. "(...) era a verdade da forma que me interessava, não o conteúdo, a verdade não era saber se ele achava ou não interessante o conteúdo do que eu dizia (...)", escreve Louis, e é essa "verdade da forma" o que também me interessa.
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