Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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12 abril 2026
Antologia mamaluca
Para quem, como eu, entende que em arte forma é conteúdo, isto é, o modo de dizer já indica o dito, os poemas verbo-visuais de Sebastião Nunes é uma fonte incrível de saber e de pesquisa. Sempre volto a poemas como "Nova Tropicália" e seu "cus" rimado com "tatus", "caititus", "pirarucus", "pacus"; e à crítica ácida dos versos "nessa infinita suruba capitalista / quem pode fode e quem não pode / dança", com esse "dança" caído do verso anterior, figurando o "dançar" de quem não pode; e à presença de um "bilberto bil" que teria dito "O bio de baneiro bontinua bindo" - aliás, são muitas as referências da canção popular na obra do poeta (vide "Coração subalterno", que parodia e pastichiza "Coração materno", vide os poemas "Canção para Dolores Duran" e "Bolero para Núbia Lafayette"); e ao "Poeta de esquerda / inclinado para a direita"; e à "Revolução tropicão", em que "Pendurado na cruz Jesus Cristo cochila"; e ao "Intelectual brasileiro típico, / com numeroso séquito de / angústias metafísicas, / terrores éticos, dúvidas estéticas / e dificuldades práticas". E nem falo das epígrafes reveladoras do quão leitor e ouvinte Nunes é; e nem falo do tratamento gráfico - é preciso ver para ler, por exemplo, "Procissão da Chuva" e sua contundência política. Dispersa e de acesso limitado a iniciados, a "estética da provocaçam" de Sebastião Nunes ganha em ANTOLOGIA MAMALUCA uma justa reunião. "'Sujar' os versos e as imagens é um modo de provocar, incitar, violentar o leitor, ao expô-lo a palavras 'proibidas' pela norma culta ou pelas convenções literárias da classe média - o seu alvo permanente", escreve o organizador Fabrício Marques. "Em sua versão original, o dois volumes da Antologia Mamaluca reúnem dez livros de Nunes (...). Esta Antologia mamaluca de agora é uma seleção do melhor dos dois volumes do final dos anos 1980", informa Fabrício. A mistura de e o desenho da linguagem e o diálogo com a cultura de massa mostram a potência ética de Sebastião Nunes, poeta que fissura o sistema literário, ao implodir a linguagem e os jogos de poder que sustentam esse sistema.
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