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16 fevereiro 2025

Uma exposição


Enquanto lia o livro UMA EXPOSIÇÃO, de Ieda Magri , expressões como "vida nua", "coração sangrando", "fratura exposta" acompanhavam meu contato com a narradora que tem o mesmo nome da autora. Paralelo a essas expressões, os versos de "Uma canção desnaturada", composta por Chico Buarque para a "Ópera do malandro", adensavam a exposição do afeto, da afetação da personagem-narradora. Se na canção a mãe diz "Pelo cordão perdido / Te recolher pra sempre / À escuridão do ventre, curuminha / De onde não deverias / Nunca ter saído", no livro reconheço nos gestos da mãe o desejo de tornar a menina uma mulher, pronta para a vida e sua dureza. É nesse reconhecimento que, na minha leitura, a menina se des-recalca na "mulher urbana". Permito-me a essas aproximações autorizado pelo próprio texto de Ieda (a narradora), composto também por referências teóricas e estéticas da autora "impregnada do ritmo e das sensibilidades da gente das cidades". O trânsito entre vida e registro da vida está num lugar que, no livro, tem raiz na avó. (Quem vem de fora da cidade sabe). "Lembro da alegria louca presente ainda na lembrança de uma véspera de natal na beira do rio que precisamos sempre atravessar antes de chegar e que ainda enche alguma vez no verão deixando todos separados do resto do mundo", lemos. O livro de Ieda Magri reforça a pergunta que tenho feito, como professor de literatura: o que é ser escritora num contexto hostil às escritoras e à escrita? Autora e narradora, em UMA EXPOSIÇÃO Ieda apresenta ao leitor os modos de extrair o coração daquilo que move essa questão. 

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