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20 abril 2025

Cultura pós-nacionalista


Talvez também como consequência de escolhas pessoais, de sua postura diante do sistema e da vida literária, Décio Pignatari é da trindade concretista o autor que mais ainda espera revisão crítica de sua obra. Reflexões como "Quando surge o poesia escrita, as malhas sociais já começaram a emaranhar-se, e o poeta vê reduzindo-se seu auditório, até que suas excogitações poéticas se transformam no monólogo dos dias atuais. (...) Sinto-me aventurado a creditar que o poeta fez do papel o seu público, moldando-o à semelhança de seu canto, e lançando mão de todos os recursos gráficos e tipográficos, desde a pontuação até o caligrama, para tentar a transposição do poema oral para o escrito, em todos os seus matizes" nos iluminam na compreensão da verbivocovisualidade defendida na "Teoria da poesia concreta". Dentre os textos de Pignatari, gosto de voltar com frequência a CULTURA PÓS-NACIONALISTA. "Este livro contém o principal do meu pensamento, desenvolvido ao longo de décadas, sobre um sonhado Brasil internacionalista", lemos no final da Apresentação. "Internalizando o problema num processo tendente a superar a temática pela língua e a língua pela linguagem, Machado de Assis coloca a questão da 'cultura nacional' numa outra plataforma de interpretação", lemos num dos primeiros textos do livro, originalmente publicado na Folha de S. Paulo em 17/02/1985. "Tanto a ciência como a arte são sistemas de signos que geram outros sistemas de signos; portanto, o estudo das relações entre a Ciência e a Arte é um estudo de comparações e confrontos entre diferentes sistemas de signos - e este estudo é objeto da Semiótica", lemos noutro texto de CULTURA PÓS-NACIONALISTA, sendo a Semiótica uma das grandes áreas a qual Décio Pignatari tanto de dedicou.

13 abril 2025

Letras e letras da MPB


Charles Perrone é professor aposentado da Universidade da Flórida, onde se dedicou por mais de trinta anos ao ensino da língua, literatura e cultura brasileiras, sendo reconhecido como um dos mais destacados brasilianistas dos Estados Unidos. Em LETRAS E LETRAS DA MPB o professor analisa a palavra cantada na língua portuguesa falada no Brasil, sua transdisciplinaridade, as escritas biográficas e biopoéticas que tornam a canção popular o eixo central de brasilidade. O livro é referência de base na pesquisa de quem queira, portanto, se aventurar na área. "Caetano interpreta textos ou fragmentos de poetas não-conformistas de diferentes séculos. Por outro, ele é um criador que incorpora, em suas próprias canções, conceitos poéticos desses mesmos autores e de autores de vanguarda que os poetas concretos traduziram. Grande parte de seus textos musicais pode ser tratada como poesia lírica mais convencional, o que confirma mais ainda a desenvoltura literária do compositor", escreve Charles, por exemplo, lançando luz sobre a velha querela entre letra-de-canção e poema-de-livro. De fato, sem esquecer da performance, LETRAS E LETRAS DA MPB investe mais na interpretação da competência "literária" de nossos cancionistas. "Olhando para o cenário sócio-político-musical brasileiro, Perrone oferece ao leitor um outro modo de ouvir as canções deste país tropical: o olhar distanciado vinte e poucos anos após o golpe militar", escreve Amador Ribeiro Neto no Prefácio da edição de 2008, referindo-se aos anos contemplados pelo autor, meados de 1960 até meados de 1980 - anos cruciais da história de nossa canção; e revistos com rigor e sabor pelo autor de LETRAS E LETRAS DA MPB.

06 abril 2025

O livro do disco Da lama ao caos


Sendo a canção popular a mais expressiva linguagem artística do Brasil, responsável por engendrar a lírica nacional e promover a nossa educação sentimental, é de se espantar a ainda pequena bibliografia sobre o tema. Basta observar as prateleiras das livrarias. A coleção O livro do disco é, portanto, um oásis, que tem registrado a memória dessa potência nacional. É com rigor jornalístico que Lorena Calábria passa em revista a estética intimamente política do fenômeno Chico Science & Nação Zumbi - um dos mais importantes acontecimentos dos anos 1990. Eu lembro bem a injeção de ânimo que a cena manguebeat inoculou na juventude da região nordeste do país. Em O LIVRO DO DISCO DA LAMA AO CAOS Lorena vai nas fontes primárias e arqueologiza essa cena e suas reverberações, que não se limitavam ao campo da música, posto que "O homem coletivo sente a necessidade de lutar", como ouvimos em "Monólogo ao pé do ouvido". "As palavras de ordem contidas na letra expressam a vontade de reconfigurar sons do mundo inteiro, sem excluir nacionalidades, para dar origem a algo novo, universal", escreve Lorena. E completa: "o chamamento à luta não é direcionado para o público em geral; ele é baixinho, dito ao ouvido de cada um - o que só aumenta sua força". A morte precoce de Chico Science foi um golpe brutal para a minha geração. O imaginário, o frescor, a convocação parecia frustrada. Mas a banda soube elaborar o luto, se reestruturar e seguir envenenando o país com beleza e urgência temática, deslocando o eixo do centro da indústria fonográfica. O LIVRO DO DISCO DA LAMA AO CAOS recompõe o início dessa jornada, desse clima de época. Dá saudade, mas dá felicidade ler sobre a nossa potência sonora, saber da competência ética e estética de nossos cancionistas. E Lorena dá aula de pesquisa e escrita, revelando bastidores e velando a memória de nossa canção popular.