Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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24 novembro 2024
Balanço da bossa e outras bossas
Um dos maiores poetas do século XX (e XXI), Augusto de Campos foi um dos primeiros a identificar "o passo a frente de Caetano Veloso e Gilberto Gil", por exemplo. BALANÇO DA BOSSA E OUTRAS BOSSAS guarda textos e entrevistas gestados no ápice das mudanças radicais sofridas pela canção popular entre 1950 e 1970, sem deixar de fazer o balanço de antecessores como Lupicínio Rodrigues. "Enquanto outros compositores de música popular buscam e rebuscam a letra, Lupicínio ataca de mãos nuas, com todos os clichês da nossa língua, e chega ao insólito pelo repelido, à informação nova pela redundância, deslocada do seu contexto", escreve Augusto. Textos como "Boa palavra sobre a música popular", "Informação e redundância na música popular", "Música popular e vanguarda", são incontornáveis. Lemos que "Para que haja informação estética, deve haver sempre alguma ruptura com o código apriorístico do ouvinte, ou, pelo menos, um alargamento imprevisto do repertório desse código". Mas merece destaque o poema que Augusto escreve em resposta à morte de Torquato Neto. O poema "Como é Torquato" biografa criticamente o autor de "Geleia geral" (com Gilberto Gil), incorporando o ethos de Torquato como método e como linguagem. Augusto espacializa as palavras na página sugerindo um partitura, uma forma de vocalização do texto. Isso é crítica criativa! E BALANÇO DA BOSSA E OUTRAS BOSSAS é crítica em alta potência, feita por um poeta, tradução, ensaísta que defende "Ao invés do nacionalismo tacanho e autocomplacente, um nacionalismo crítico e antropofágico, aberto a todas as nacionalidades deglutidor-redutor das mais novas linguagens da tecnologia moderna", como ele mesmo diagnosticou ser a obra dos tropicalistas. Em certa medida, esses textos de Augusto de Campos "autorizou" a canção enquanto objeto de reflexão.
17 novembro 2024
Mallarmé
Jacques Rancière é um dos críticos contemporâneos que muito admiro. Sua escrita demonstra desejo de contato com quem ler, seja pela generosidade das referências, seja pela sensibilidade amiga, seja pela linguagem cúmplice de quem lê. Por isso, é uma lástima que o seu ensaio MALLARMÉ ainda não tenha tradução para o Brasil. Aqui Rancière desenvolve sua "política da sereia" e apresenta Mallarmé não como um elitista, mas como um poeta intensamente implicado nas tensões políticas de sua época. "Mallarmé no es un autor hermético, es un autor difícil. Difícil es todo autor que dispone las palabras de su pensamiento de tal manera que ellas rompen el círculo ordinario de lo banal y lo oculto, que constituye lo que Mallarmé llama 'el reporte universal'. En este sentido, de diferentes formas, todo autor interesante es difícil", lemos na tradução em língua castelhana de Cristóbal Durán, Verónica González e Carolina Matamala. Para o autor, Mallarmé responde à crise da República Francesa ao atribuir à poesia uma função cívica singular e incontornável. A política não aparece como tema explícito, mas como operação estética; exigindo a mudança de quem lê, a poesia cria novas formas de visibilidade, percepção e partilha do sensível - temas caro a Rancière, autor interessado na "experiencia radical del lenguaje y del pensamiento". Assim, a propagada "crise de/do verso" reverbera a "crise ideológica" e a "crise social" do contexto histórico e "el poema también debe estrecharse o alargarse para desempeñar en esa complejidad del tempo el rol que le corresponde". Para Mallarmé, o problema político é um problema literário, e vice-versa. Urge a tradução brasileira de MALLARMÉ, livro que, alinhado com a visão de Marcel Broodthaers, sugere que Mallarmé rompeu com a representação clássica, transformando a página em uma coreografia de ideias, partitura de palavras-sons-e-silêncios.
10 novembro 2024
Pequena história da música popular
O conservadorismo ranzinza de José Ramos Tinhorão, calcado em afirmações e defesas de certas matrizes brasileiras ao longo da vida, colocam o jornalista, crítico, ensaísta, pesquisador e historiador num lugar sempre incômodo no debate contemporâneo em torno da canção popular brasileira. Mas, como todo bom pesquisador, Tinhorão era arquivista e sua coleção guarda joias impensáveis, agora sob a guarda do Instituto Moreira Salles. Fato é que, defensor de um Brasil não contaminado pela indústria cultural, Tinhorão viveu mudanças profundas na lírica cancional brasileira e conviveu com muitos de seus atores. PEQUENA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR dá conta de registrar essa jornada. O livro começa afirmando que "Por oposição è música folclórica (de autor desconhecido, transmitida oralmente de geração a geração), a música popular (composta por autores conhecidos e divulgada por meios gráficos, como as partituras, ou através da gravação de discos, fitas, filmes ou vídeo-teipes) constitui uma criação contemporânea do aparecimento de cidades com um certo grau de diversidade social". E isso diz muito sobre o modo como Tinhorão interpreta a modinha, o lundu, o maxixe, o choro, o samba, o frevo, o baião, a bossa nova, a canção dos festivais, o tropicalismo, etc. Sua leitura sociológica e avessa aos experimentalismos artísticos se atenta aos cancionistas e ao mercado 'alienante', porque despolitizado. Tinhorão destaca, por exemplo, "o espírito de arrivismo de provincianos migrados para o sul dispostos à realização pessoal e ao sucesso" dos baianos tropicalistas. Ao seu modo, Tinhorão aponta como os miasmas coloniais do Brasil reverberam na canção popular mediatizada. Eu diria que em hoje em dia, com tantos desdobramentos do complexo Brasil que a Tropicália engendrou, PEQUENA HISTÓRIA DA MÚSICA POPULAR é uma leitura desafiadora, mas importante.
03 novembro 2024
Crônicas e outros escritos de Tarsila do Amaral
O livro CRÔNICAS E OUTROS ESCRITOS DE TARSILA DO AMARAL é uma leitura de intenso prazer. Seja porque entramos em contato com uma Tarsila pouco conhecida, a escritora, seja porque acessamos o 'tempo' da artista plástica mais importante de sua época, orientadora do século XX. Também em textos, Tarsila revela um rigor crítico invejável. Publicados em jornais de São Paulo e Rio de Janeiro entre 1936 e 1956, os textos tratam e versam (sim, há poemas) sobre os mais diversos temas. Com pesquisa e organização de Laura Taddei Brandini o volume lança luz, portanto, ao pensamento de Tarsila. "A linguagem, como expressão genérica para a manifestação dos fenômenos que se passam no mundo interior, não constitui privilégio do homem. (...) O homem (...) possui a expressão máxima do pensamento - a linguagem oral, a voz articulada, a palavra", lemos em texto de 1937. A amizade com o autor de "Macunaíma" é registrada num elogio rasgado: "Em todos os tempos de sua vida literária, poucos homens de letras terá possuído o Brasil tão completos quanto Mário de Andrade" (1941). Comentando a famosa conferência de 1942, em que Mário revisa os ideais e desdobramentos da Semana-de-1922, Tarsila tenta acalmar o amigo atormentado, escrevendo que "Tudo quanto artistas e literatos produziram naquele tempo poderia ter sido melhor, mas a verdade é que não estavam preparados para encarar a vida com o espírito de hoje. A sensibilidade, o caráter e a inteligência também amadurecem, não se podendo nesse caso abstrair o fator tempo". A autora entusiasmada com a leitura de "Odisseia" é uma delícia: "Que ingenuidade encantadora, que enredo fantástico! Minha vontade, ao sair de casa, era voltar logo e correr para a Ítaca cercada de ondas; queria ouvir os discursos da sempre jovem e linda Penélope ou do seu ilustre e prudente filho, Telêmaco, ambos derramando abundantes lágrimas pelo divino Ulisses desaparecido". CRÔNICAS E OUTROS ESCRITOS DE TARSILA DO AMARAL é livro para ser lido aos poucos, distraidamente, eu diria, para, surpreendentemente, reconhecer Tarsila.
27 outubro 2024
Vozes plurais
Em 2014, eu tinha acabado de entregar a tese de doutorado à banca, quando chegou à minha mão o livro VOZES PLURAIS, de Adriana Cavarero. Senti um misto de frustração e alegria, pois muito do que eu estava pensando sobre a revocalização do logos, via cancioneiro nacional, a filósofa italiana elaborara muito melhor, via revisão crítica da filosofia ocidental. Sem dúvidas, a tese teria outros encaminhamentos, caso essa leitura tivesse sido feita antes. Cavarero sacode a poeira do tempo sobre conceitos e preconceitos fundados desde Platão. "O processo de descarte da voz se conclui já em Aristóteles, que define a linguagem em função de sua capacidade semântica e que estabelece o limite entre homem e animal exatamente pelo fato de o primeiro possuir linguagem (phoné semantiké), enquanto ao outro restaria apenas voz (phoné) sem poder de significação, mera sinalizadora de afecções", escreve o tradutor Flavio Terrigno Barbeitas. De fato, Cavarero embaralha essas instâncias, analisando mitologias desde Jacó, Funes, Íon, Calvino, Musas, Sereias, Cixous, Kristeva, Arendt, em busca de uma "política das vozes", da unicidade, da revocalização do logos. Sendo isso o que mais me interessava à época. E ainda agora. "Indomesticável, a voz feminina do canto abala o sistema da razão e nos arrasta 'para outro lugar'. Potencialmente mortal e veículo para 'outro mundo', ela leva o prazer ao limite do suportável", escreve Cavarero. Por essas e outras miradas, VOZES PLURAIS é livro que não sai de minhas referências bibliográficas.
20 outubro 2024
Educação nos terreiros
Se eu pudesse indicar um livro aos meus colegas professores, especialmente aos de ensino fundamental, e que este livro entrasse como leitura fundamental nas grades curriculares, indicaria EDUCAÇÃO NOS TERREIROS. Aqui a professora Stela Guedes Caputo escreve sobre como a escola se relaciona com crianças do candomblé, consequentemente, com questões raciais. Não bastassem a excelência da pesquisa e a qualidade do texto, a autora trata de um tema urgente às questões de tolerância religiosa no Brasil. Lemos numa das orelhas do livro: "Senti o preconceito desde muito cedo. Aos 6 anos de idade vi ser publicada uma foto minha numa matéria da 'Folha Universal' intitulada 'Os netos do demônio'. O efeito desta matéria foi arrasador. Me senti excluído por muitos amigos no colégio onde estudava, e essa é uma fase da infância que até hoje procuro esquecer", escreveu Ricardo Nery. Essa e outras histórias são apresentadas e analisadas com sensibilidade e crítica socioeducativa. A autoestima das crianças também é tema do livro EDUCAÇÃO NOS TERREIROS, diante das discriminações que levam a rejeição da religião de matriz africana. O diagnóstico é duro, haja vista a expansão do domínio político neopentecostal. Stela Guedes Caputo promove reflexões importantes sobre educação antirracista.
13 outubro 2024
A primeira pedra
Pedro Machado abre A PRIMEIRA PEDRA com epígrafes que dão o tom e o ritmo das narrativas do livro. O trecho do Evangelho de João em que Jesus diz “aquele de vocês que nunca pecou atire a primeira pedra”, o poema de Cruz e Sousa em que o eu-lírico assume a voz de Jesus e diz ao destinatário “sei que cruz infernal prendeu-te os braços” e o trecho de texto de João do Rio em que se lê sobre um pastor que “sonhava com o domínio temporal e a Câmara dos Deputados” são os motes trabalhados por Pedro ao longo de 14 narrativas. Essa consciência no uso das epígrafes é fundamental, por exemplo, para entender as pedreiras que os personagens precisam quebrar para ser e estar no mundo, pois serve de dispositivos para leituras de textos cujos títulos são “Jesus Negro”, “Vó Benedita”, “Jerusalém Desolada”, “Todos contra Sara”, “Pele Sagrada”. Se os contos podem ser lidos no modo aleatório, a sequência montada pelo autor cria uma narrativa em que uma história insemina a seguinte e faz com que a “pedra” do título do livro seja a protagonista. As personagens de Pedro Machado têm como emblema o humano cotidiano de quem faz do morro carioca o monte Sião. O ethos religioso é o tempo e o espaço por onde os personagens negros evangélicos e ex-evangélicos transitam. Do primeiro conto ao derradeiro diálogo do livro há um coro de vozes dissonantes cantando a dificuldade e a glória de estar vivo. Jeferson, Josué, Jeremias, Jonas, Davi, Josias, Salomão são homens-de-fé apresentados por Pedro Machado sem o véu do exotismo e do voyeurismo que por tanto tempo ainda encobre corpos e subjetividades negros obrigadas a “disciplinar sua alma à força”.
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