Pesquisar canções e/ou artistas

18 junho 2023

Nada será como antes


Ana Maria Bahiana é dessas pessoas que viram germinar muito do que ainda hoje alimenta nossa cultura cancional. Com ouvidos livres e olhos atentos, Bahiana registrou shows, lançamentos de discos e acontecimentos que desestabilizaram e, ao mesmo tempo, formataram um certo ethos de nossa cultura, um ethos ancorado na experimentação, no risco, no inaugural, na profissionalização de nosso (quase) amadorismo. Alguns desses registros estão no livro NADA SERÁ COMO ANTES: MPB ANOS 70 - 30 ANOS DEPOIS. Fui reler o volume lançado em 2006 para um trabalho e novamente fiquei impactado com as miradas de Ana Maria junto com os artistas de uma década que se equilibrava entre o "princípio-esperança" e o "princípio-realidade". Quando o sonho acaba, urge re-sonhar! Os anos 1970 estilhaçaram certezas, abriram frestas. E o chamado "jornalismo cultural" teve papel fundamental no enfrentamento da censura, do mercado. A competência de Ana Maria de compreender a máxima do poeta Allen Ginsberg é evidente, a saber, “A poesia no sentido tradicional acabou. Ninguém se senta mais na poltrona da sala de estar para ler. O Rock é a nova poesia. É um retorno à poesia dos velhos tempos”. "Esse tal de Roque Enrow", como cantava Rita Lee em 1975 (no meio do redemoinho!), era o motor dessa juvenil sensibilidade à brasileira. E Ana Maria Bahiana estava lá e nos contou tudo com sabor. Destaca-se o diagnóstico perspicaz que a jornalista faz das obras de Rita Lee, de Cátia de França, de Sueli Costa, entre outras mulheres protagonistas re-orientadoras do ser e estar mulher na canção popular brasileira. NADA SERÁ COMO ANTES: MPB ANOS 70 - 30 ANOS DEPOIS, é crônica, é crítica, é prosa boa de ler.

11 junho 2023

Saia da frente do meu sol


O livro SAIA DA FRENTE DO MEU SOL guarda uma beleza rara: a sinceridade sem afetação. Felipe Charbel equilibra investigação intelectual (seu narrador lê, estuda, pesquisa enquanto escreve) e o que se convencionou chamar "escrita de si", com delicadeza e empatia pelo "fracasso" da empreitada de narrar o outro. Seja metaficção, seja "biografia especulativa", o que lemos é um narrador que se escreve escrevendo a vida de Ricardo, seu tio-avô. É tudo verdade e é tudo ficção. Sem conseguir inventar, o narrador imagina e expande as cenas capturadas em fotografias guardadas num armário. "Era como se a ânsia de inventar turvasse minha visão, me impedindo de assimilar o que se passava ao meu redor", escreve, inventando o que se passava ao redor, por trás, entre, dentro do Ricardo das fotos. "É ficção? Recorri à fantasia"; "Minha questão com as fotos do meu tio não passa pelo factual, pela reconstrução do acontecido". SAIA DA FRENTE DO MEU SOL singulariza o sujeito "comum", o tio velho e doente desconhecido que morava no quartinho dos fundos. O livro trata de algo pouco comum: a velhice do homem gay. "Como seria se fosse possível, naqueles dias, falar abertamente - e não aos sussurros - sobre essas questões mais íntimas?", pergunta-se o narrador sobre a solidão de Ricardo. (Silenciosamente, pergunto-me se o tio "esquisitão" um dia serei eu). "Tudo na história de Ricardo era uma página em branco". Por isso mesmo, o texto é composto por enxertos, citações, descrições, contos dentro de contos, anotações, constituindo-se, assim, a forma possível de se aproximar do outro: aos cacos. "A alteridade é, antes de mais nada, um necessário exercício de autocrítica", escreveu Haroldo de Campos. "O que vejo na foto quando olho para ela?", pergunta-se Charbel a cada mexida no arquivo, na memória, na fantasia. O que vejo no outro quando olho para ele?, parece querer nos fazer perguntar. E perguntamos.

04 junho 2023

Eu. E. Cummings


Com poemas cantados de Ana Carolina a Zeca Baleiro, talvez não seja exagero dizer que Edward Estlin Cummings está na boca do brasileiro. e. e. cummings compõe o paideuma dos poetas concretos, assim como os procedimentos dos poetas concretos são referências importantes para a poesia de Paulo de Toledo. Também tradutor, Toledo se utiliza do conceito de transcriação para nos re-apresentar cummings, poeta traduzido por Augusto de Campos, vide o livro "40 poem(a)s". Desse modo, o livro EU. E. CUMMINGS brinca com essa ciranda de (auto)referencialidades extra, intra e intertextuais do poeta e da poética cummingsiana. Usando sua notável verve irônica de matriz oswaldiana, Toledo inscreve a si quando reescreve cummings. "Além do jogo de palavras com o nome de cummings, o título foi motivado por ser um livro de um 'amador', de um tradutor não-especialista, de alguém que faz porque ama. Daí o 'Eu' do título se refere à relação afetiva entre o tradutor - que há mais de 20 anos tenta verter para o português a 'tortografia' cummingsiana - e o genial poeta", lemos na apresentação. As soluções transcriativas são eficazes e destacam a dificuldade da "tortografia" e a beleza da poesia singular, com seu lirismo moderno, carregado de pesadelos: "and is it dawn / the world / goes forth to murder dreams" fixa-se "e é o alvorecer / o mundo / se encaminha para sonhos assassinos"; ou "-after which our separating selves become museums / filled with skilfully stuffed memories" fixa-se "-após o que nossos eus separados tornam-se museus / repletos de memórias habilmente empalhadas". A autodeclara não-especialidade de Paulo de Toledo permite a ele experimentar as palavras aglomeradas, os eus urbanos de cummings, suas inquietações: "to hell with literature / we want something redblooded" fixa-se "pro inferno com a literatura / queremos algo que pingue sangue". E não é isso que a literatura quer? "something authentic and delirious" [algo autêntico e delirante]? Isso o livro EU. E. CUMMINGS nos dá.

28 maio 2023

Artigos selecionados - Carlinda Nuñez


"Viver não cabe no Lattes", diz o meme que fala fundo ao coração de quem desenvolve pesquisa no Brasil. Por isso mesmo é preciso reconhecer e agradecer quem faz do viver uma invenção dos melhores modos de ser e estar inteiro em cada coisa que realiza, dentro e fora do trabalho (se é que há essa fronteira num mundo neoliberal). O livro ARTIGOS SELECIONADOS, com textos da professora Carlinda Fragale Pate Nuñez, é isso: um reconhecimento. Organizado por Elisa Figueira de Souza Corrêa e Isabel Arco Verde Santos, o volume guarda textos, artigos diversos, distantes entre suas publicações em revistas acadêmicas, mas cuja unidade se dá pela linguagem direta, o rigor metodológico e o manejo de conhecimentos clássicos - tudo o que caracteriza a trajetória docente da autora. Ninfas, Musas, mitos gregos, Almodóvar, Lanthimos, Música, Poesia, tragédias e abismos aparecem animados pela escrita da autora, para quem "A Antiguidade clássica fornece duas representações díspares das mulheres. De um lado, as mulheres trágicas, entes sociais sem voz e que já têm em si algo de personagem, pois entram em cena para receber, em muitos casos, o troféu de uma morte violenta, narrada. (...) De outro lado, as musas, figuras míticas cuja invocação necessariamente antecede qualquer atividade intelectual, monopólio de homens, no quadro da Antiguidade". A inspiradora trajetória da vida acadêmica de Carlinda transvaloriza o meme, ao lançar mundos no mundo. Vida longa!

21 maio 2023

Rita Lee mora ao lado


Desde que Rita Lee foi voar num disco voador com David Bowie proliferam-se nas redes frases como "ela era feminista sem ser feminista", tanto para deslegitimar a militância, quanto para reforçar a pecha de "alienada" da artista. Esquece-se que, no Brasil, desbundar é militar, é subverter. Em algumas entrevistas Rita Lee falava em "feminismo de ação", ou seja, sem negar a militância intelectualizada, ela militava com gestos transgressores que confrontavam o nosso ethos machista opressor. Nada mais feminista, em se tratando de uma cultura com "diferentes feminismos", como dignostica a professora Eurídice Figueiredo no livro "Por uma crítica feminista". Sendo "uma biografia alucinada da rainha do rock", o livro RITA LEE MORA AO LADO, de Henrique Bartsch, traduz bem essa persona artístico-política. O autor coloca em prática a lição de Maiakóvski, a saber, "tirando os monumentos do pedestal, devastando-os e virando, nós mostramos aos leitores os Grandes por um lado completamente desconhecido e não estudado". Nas palavras da biografada, Bartsch apresenta "um tratado arqueológico de minha vidinha vulgar, o encontro de vários elos perdidos, Peter Pan na terra de Oz do Sítio do Picapau Amarelo. Uma viagem lisérgica sem tomar ácido algum". Não sendo uma biografia o livro RITA LEE MORA AO LADO biografa, ao devastar o monumento que Rita Lee nunca quis ser. Mas é!

14 maio 2023

Ditadura no Brasil e censura nas canções de Rita Lee


O livro DITADURA NO BRASIL E CENSURA NAS CANÇÕES DE RITA LEE é saber com sabor resultado do trabalho atento de Norma Lima. Pesquisadora e arquivista da obra de Rita Lee, a professora lembra que a mutante foi a compositora mais censurada pela (nossa) ditadura militar. Letras proibidas, estratégias de driblar a tirania fascista, a escrita da voz feminina interditada são manejadas por Norma Lima a fim de apresentar a importância, a inovação e a luta por liberdade criativa, que, no caso do Brasil, é liberdade de expressão da mulher. Com farto material analisado, o livro guarda um procedimento caro à crítica de canção e à história da cultura brasileira. "Rita Lee, assim, simboliza a censura a espíritos livres, os quais, independentes da época em que existam, sempre incomodam os limitados. Os fatos analisados e ocorridos com ela e com sua obra clamam para que os tenebrosos anos de exceção nunca mais se repitam no Brasil, ao mesmo tempo que conclamam que a sociedade contemporânea - e mundializada - reflita sobre experiências antigas em novos cenários", conclui Norma Lima.

07 maio 2023

A Princesa


A quantidade de pessoas travestis e transexuais assassinadas no Brasil é assustadora. E com as garras fascistas sobre as poucas políticas públicas de inclusão, o número só tende a crescer. O livro A PRINCESA, misto de entrevista (a Maurizio Jannelli - ex-integrante das brigadas vermelhas) e prosa narrativa, apresenta "o avesso de um conto de fadas": a luta de Fernanda Farias de Albuquerque - do nordeste brasileiro a uma prisão italiana - para sobreviver ao horror transfóbico e à imposta marginalização. O livro é o resultado da montagem dos inúmeros bilhetes trocados entre Princesa e Maurizio, com a ajuda de Giovanni Tamponi. As histórias de resistência, os usos dos instrumentos de sobrevivência se sobrepõem, se justapõem. "Eu estava fresca de Brasil e isto dizia alguma coisa aos clientes. Eu sentia, pelo modo como eram atraídos pelo meu sorriso. Vendia exotismo, e só às seis da manhã acabei de realizar o último sonho. Exausta", anota Fernanda, no caderninho que transitava entre as celas, dando conta de sua chegada na Europa. A tradução de A PRINCESA é de Elisa Byington.