Desde o Projeto 365 Canções (2010), o desafio é ser e estar à escuta dos cancionistas do Brasil, suas vocoperformances; e mergulhar nas experiências poéticas de seus sujeitos cancionais sirênicos.
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28 junho 2026
Waly Salomão é uma VOZ ALTA
WALY SALOMÃO É UMA VOZ ALTA é uma delícia de leitura, livro em que José Simão relembra momentos vividos ao lado do amigo. "Waly não morreu, tomou aquele velho navio", lemos na última das muitas anotações de que o livro é composto, como uma "ilha de edição" que a memória é. No fluxo de escrita das notas, Simão erra, se repete, se corrige, como alguém que, sofisticadamente, não se leva a sério, afinal, a vida já é dura o bastante. Notadamente em tempos de ditadura militar. Talvez por isso mesmo, "para Waly o mundo era um teatro, isso ele me comentou várias vezes. E a vida, sonho!". Aos poucos entramos nos bastidores de fatos importantes de nossa contracultura: "Foi no São Carlos que conhecemos Melodia! Ele viu o Melodia tocando violão na porta da casa e disse: 'Olha que preto lindo tocando violão, vamos lá'. Fomos. Melodia tocou 'Black is beautiful'. Que Waly imediatamente trocou o nome para 'Pérola negra'! Uma travesti do Estácio! Que era mais o clima do mundo de Melodia que 'Black is beautiful'! Imediatamente fomos para Ipanema na casa de Gal, Melodia tocou o agora intitulado 'Pérola negra', que Gal incluiu em seu show", lemos sobre o icônico "FA-TAL" (1971), "Gal no palco estava solta, alegre, feliz, cantando 'vejo o Rio de Janeiro', ia de um lado para outro do palco. 'Vejo o Rio de Janeiro'. O público aplaudia em delírio"; sobre a exposição de Hélio Oiticica na Whitechapel Gallery, "ficávamos encostados na parede rindo do estranhamento dos ingleses pisando na areia, se perdendo nos penetráveis. A 'Tropicália'"; e Waly "lia o dicionário! Numa poltrona vermelha. Eu chegava logo cedo e lá estava ele na poltrona vermelha, lendo o dicionário. E achou a palavra algaravia! Que imediatamente virou título de um poema", lemos - "tínhamos ódio dos militares. Falávamos em iorubá, como as travestis, que usam como proteção. Quando a polícia aparecia, Waly dizia: 'Lá vem os alibã'. Alibã é polícia, neca é pau, ocó é bofe, boy. Edi é bunda. E odara é odara, é Caetano". E essa era a turma e a linguagem de imediatismo e urgência. "Lembrar é foda! Lembrar é fluido. Lembrar escapa", escreve José, logo depois de anotar que "Todo esse livro sobre minha amizade de quarenta anos com Waly Salomão é baseado em lembranças, tipo Guimarães Rosa: lembra-anças!". WALY SALOMÃO É UMA VOZ ALTA é livro leve sobre a experiência da barra pesada; é livro que convida à risada e à emoção na mesma medida, como na medida certa se desenvolveu a amizade entre Simão e Salomão, José e Waly.
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