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31 agosto 2025

Poesia em risco


Ler(ouvir) e interpretar um período tão difuso quanto prolixo quanto a década de 1970 da poesia brasileira requer sensibilidade para perceber que cada poética, por vezes, cada poema de um mesmo poeta, exige competências singulares de quem faz a crítica. Nesse sentido, POESIA EM RISCO é um curso completo de erudição a serviço da crítica de poemas. Viviana Bosi maneja teoria e corpus com habilidade que lhe é comum. São postas em rotação as obras de Augusto de Campos, Ferreira Gullar, Torquato Neto, Armando Freitas Filho, Ana Cristina Cesar, Francisco Alvim, Rubens Rodrigues Torres Filho, Sebastião Uchoa Leite, entre outros. Chama-me particular atenção os debates em torno da tensão entre palavra escrita e palavra cantada, na esteira daquilo que a Tropicália engendrou no ethos da lírica nacional. Sobre a estética tropicalista, Viviana escreve que "Tanto seu cosmopolitismo quanto sua bizarra exposição das 'relíquias' do Brasil' sofrem tratamento paródico e traem uma suposta pureza, porque agora um elemento ascendente vinha conspurcar o intercâmbio não submisso entre 'nacional' e 'internacional': a consolidação da indústria cultural, em sincronia com a ditadura política". Destaco a analise de "Mamãe, coragem", em que o sujeito da canção de Torquato, migrante da região nordeste, "vive uma eufórica expansão dos horizontes, como um conquistador que atravessará o Rubicão e vencerá na cidade que se torna sua lavoura e propriedade ampliada (pois ele a 'plantou para si') e que "não tem mais fim", lemos. POESIA EM RISCO passa em revista as forças poéticas da segunda metade do século XX. E isso não é pouco!

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